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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Terá chegado enfim a altura dos europeus destituírem a sua "classe dominante"?

Afonso Belisário


A febre da guerra está novamente a subir por toda a Europa. Isto aconteceu várias vezes nos quatro anos e meio desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, coincidindo geralmente com importantes eleições nacionais – particularmente as da Roménia, Moldávia, Hungria, Polónia e Alemanha – quando certos partidos políticos locais foram demonizados como “pró-Putin” e “ameaças à segurança” do resto da Europa. Os tambores da guerra também soam alto sempre que o aumento dos orçamentos militares é debatido nos governos dos estados escandinavos e bálticos, na Finlândia, na Alemanha e na Polónia, bem como na Comissão Europeia. O fluxo e refluxo dos gritos de guerra políticos contra a Federação Russa acompanham de perto os calendários eleitorais e parlamentares da Europa.

Não é por acaso que o governo alemão decidiu anunciar, cinco dias antes das eleições de 6 de setembro na Saxónia-Anhalt, que a Rússia era responsável por um pequeno drone descoberto no Aeroporto de Leipzig/Halle mais de um mês antes. Embora o drone transportasse uma carga explosiva, o dispositivo não causou danos e permaneceu no aeroporto despercebido durante muitas horas no dia 4 de agosto. Quando a Alemanha acusou a Rússia de perpetrar o “ataque” quatro semanas depois, Berlim não apresentou provas concretas para as suas conclusões.

Apesar disso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e os líderes nacionais de toda a Europa declararam imediatamente solidariedade para com a Alemanha e condenaram a “guerra híbrida” da Rússia em “solo da União Europeia”. Para muitos observadores, a acusação de Berlim pareceu ter sido feita num momento oportuno para travar o ímpeto do partido político “Alternativa para a Alemanha” (AfD), que o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão Friedrich Merz e o establishment europeu difamaram como “nazis” e “fantoches da Rússia”. Se o objetivo de Merz era evitar a derrota eleitoral dos seus aliados políticos acusando falsamente os seus adversários de serem ferramentas e espiões russos, não resultou. O AfD venceu decisivamente as eleições de 6 de setembro na Saxónia-Anhalt, e uma semana depois aseleições em Mecklemburgo-Pomerânia, e o apoio ao partido político pró-soberania nacional continua a crescer em toda a Alemanha.

Incidentes semelhantes, fabricados sob o pretexto de “segurança nacional”, ocorreram antes das eleições na Roménia, Polónia, Hungria e Moldávia. Os partidos pró-União Europeia acusaram a Rússia de interferência eleitoral, sabotagem económica e até de ataque iminente, enquanto rotulavam os partidos da oposição como agentes russos. No caso da Roménia, os tribunais alinhados com a UE anularam as eleições presidenciais de 2024 devido a alegações espúrias de “ingerência russa”.

Embora os políticos europeus recorram, previsivelmente, ao espantalho russo antes de cada eleição, parecem estar a intensificar o alarmismo em antecipação das eleições intercalares nos Estados Unidos. Com excepção da Eslováquia (e da Hungria, antes da derrota eleitoral do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán), os governos europeus parecem empenhados numa guerra alargada contra a Rússia num futuro próximo.

Na semana passada, o Presidente dos EUA, Donald Trump, pediu ao Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, que se abstivesse de atacar as refinarias de petróleo russas, num esforço para estabilizar os mercados globais. Depois de concordar, Zelenskyy fez exatamente o contrário e anunciou a utilização, por parte da Ucrânia, de sistemas de mísseis fornecidos pela NATO para atingir instalações russas, ação presumivelmente destinada a provocar a Rússia a atacar diretamente os membros da NATO.

De forma sinistra, o “jornalista” ucraniano e confidente de Zelensky, Dmytro Gordon, anunciou recentemente:

“Literalmente, em poucos dias, algo acontecerá que nos dará grande esperança… Não posso dizer o que é – é um segredo militar. Mas sei que nos próximos dias… algo acontecerá que dará asas à nação. Eu sei disso.”

A promessa de Gordon de que “algo vai acontecer” parece ser um segredo aberto em toda a Europa. As autoridades da Comissão Europeia estão a encorajar todos os quatrocentos e cinquenta milhões de cidadãos europeus a armazenar água, alimentos e medicamentos em preparação para a guerra.

O Ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, declarou ao Bundestag que a guerra está a chegar, e a Chanceler Merz conseguiu contornar os limites legais anteriores para aumentar substancialmente as despesas com a defesa, ao mesmo tempo que alvitrou que a Alemanha “já está em conflito com a Rússia”. A Alemanha, a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a Estónia, a Letónia, a Lituânia e a Polónia estão a expandir o tamanho dos seus respectivos exércitos e a implementar programas de recrutamento mais vastos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, terá informado os líderes políticos de que a guerra com a Rússia chegou, e o governo britânico está a rever freneticamente os seus manuais de guerra, a organizar exercícios de defesa civil e a preparar-se para o recrutamento militar em grande escala, incluindo a ativação de militares na reserva até aos 65 anos de idade. Na última semana, os dez principais jornais do Reino Unido publicaram mais de duzentos e cinquenta artigos sobre a probabilidade de guerra com a Rússia.

Jacob Rees-Mogg, antigo ministro e outrora favorito do Partido Conservador para primeiro-ministro, afirmou, entretanto, que o povo britânico deve lutar e morrer pelo seu país:

“Nos próximos anos, podemos enfrentar uma guerra e, se a enfrentarmos, precisaremos de pessoas que se alistem nas forças armadas e que cumpram o seu dever. Podemos até enfrentar circunstâncias em que as pessoas têm de morrer para salvar o seu país, como aconteceu na Primeira e na Segunda Guerra Mundial… É isso que faz um país sobreviver. Se as pessoas não estiverem dispostas a cumprir o seu dever, o país será dominado por outro.”  

Rees-Mogg é um aristocrata afetado que, enquanto esteve no Parlamento, foi frequentemente ridicularizado como o “honorável deputado do século XVIII”. Não espanta assim que a sua insistência para que os britânicos comuns deem a vida pelo seu país soe completamente desligada da realidade.

De acordo com os registos do Ministério do Interior, um imigrante ilegal recebe residência permanente ou cidadania britânica a cada minuto. Os contribuintes britânicos estão a pagar mais subsídios às famílias migrantes do que nunca. A defecação a céu aberto na via pública é tão comum que o Reino Unido tem de colocar placas a avisar o número crescente de imigrantes de que tal comportamento é inapropriado. O governo britânico distribui um folheto de nove páginas aos imigrantes ilegais, informando-os de que violar mulheres e crianças e roubar autocarros é errado. Uma aldeia britânica já votou a secessão do Reino Unido, depois de o governo ter insistido em edificar mesmo ao lado da localidade um campo de migrantes com capacidade para alojar um número de estrangeiros dez vezes superior ao total da população nativa.

O antigo chefe do MI6, Sir Richard Dearlove, alertou recentemente o público de que a obsessão do governo com as “alterações climáticas” e a “energia verde” tornou o país fraco e praticamente indefeso contra os seus inimigos. E, em vez de combater qualquer uma destas ameaças à segurança nacional, o governo tem usado os seus recursos cada vez mais escassos para prender quase 65.000 britânicos por “crimes relacionados com a liberdade de expressão” nos últimos cinco anos.

Quando as pessoas comuns ouvem Rees-Mogg dizer que devem estar dispostas a “cumprir o seu dever” e a “morrer”, ou a Grã-Bretanha “será tomada por outro país”, abanam a cabeça, incrédulas. O governo do Reino Unido espera que os jovens morram repelindo imaginárias embarcações de desembarque russas, enquanto estende o tapete vermelho dos benefícios para invasores reais, frequentemente perigosos, e encarcera os cidadãos por crimes de opinião

A “classe dominante” da Europa quer sacrificar cidadãos numa guerra sem sentido contra a Rússia. Os cidadãos deveriam, em vez disso, derrubar a sua “classe dominante”.

Antes que seja tarde demais. 

Título, Imagem e Texto: Afonso Belisário, ContraCultura, 30-9-2026 

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