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domingo, 11 de outubro de 2026

Será o fim do centrão?

Quanto mais críticas recebe, mais a elite brasileira apoia a esquerda. Nesse cenário, a polarização e a classe média transformam Flávio em favorito para o segundo turno


Nuno Vasconcellos

Caso o eleitor brasileiro se oriente nas eleições dos próximos anos pelos mesmos princípios que guiaram seu voto no domingo passado, pode-se dizer que o Centrão se tornou um organismo político em vias de extinção. Isso mesmo! A raposada que, nos últimos tempos, vem usando o centro político como uma espécie de esconderijo, desenvolveu um tipo de disfarce que permite a seus integrantes se integrarem sem dificuldades ao governo do momento, nas ocasiões em que isso lhes convém. O mesmo disfarce facilita que se transformem em oposicionistas aguerridos nos momentos em que o governo (qualquer governo) se desgasta.

A capacidade de ir de um lado para o outro sem prestar contas a ninguém deu a esse grupo um poder descomunal nos últimos governos. Só que, agora, a força do grupo parece estar escorrendo ralo abaixo. Por decisão soberana do eleitor, o Centrão saiu das eleições de 4 de outubro muito mais fraco do que entrou — e o enfraquecimento do grupo é consequência do mesmo ingrediente que o fez chegar ao tamanho que alcançou nos últimos anos.

O nome do ingrediente é polarização. Durante os últimos anos, a disputa permanente entre a esquerda petista e a direita bolsonarista a partir de um ambiente parlamentar fragmentado inviabilizou a construção de qualquer consenso político. Isso permitiu que o Centrão funcionasse como o fiel da balança e tivesse a desenvoltura necessária para ir e voltar de um lado para o outro, sempre oferecendo apoio no Congresso em troca de ministérios e de nacos cada vez mais gordos do orçamento federal.

Atenção: ninguém está decretando o fim dos políticos que barganham apoio ao governo em troca de cargos e verbas. Nem dizendo que o perfil ideológico mais definido que emergiu das urnas de domingo significará o fim das barganhas e da prática do “toma-lá-dá-cá”. O que houve foi apenas o início do fim. O que está sendo dito é que, sob o estímulo da polarização, que cobra cada vez mais clareza e coerência dos políticos, o eleitor resolveu exercer o poder de apoiar aqueles que se comprometem com uma causa clara (seja ela de direita ou de esquerda). E de negar o voto a quem não agir de acordo com os compromissos que assumiu em eleições passadas.

SÍNDROME DE ESTOCOLMO

Mas, afinal, de que eleitor estamos falando? Uma avaliação superficial dos resultados das eleições parlamentares e do primeiro turno do pleito presidencial deste ano, baseada mais na sensibilidade do observador do que em análises científicas, expõe detalhes no mínimo intrigantes sobre o perfil do eleitorado de cada um dos polos em disputa.

Um desses detalhes remete à chamada “síndrome de Estocolmo” manifestada por um grupo de eleitores que, na prática, é mais influente do que numeroso. Trata-se da tal “elite” que o presidente Lula sempre aponta como responsável pelos males do Brasil. Para Lula, a “elite” é a inimiga número 1 das políticas de inclusão que, segundo ele, estão no cerne das preocupações dos governos petistas.

A Síndrome de Estocolmo, como se sabe, é uma reação psicológica que leva uma vítima de violência ou de sequestro a desenvolver uma forte ligação emocional com seu agressor. Essa reação cria vínculos que podem fazer a vítima se identificar com o algoz. Assim é com a elite brasileira. Ela pode ser criticada o quanto for, mas nunca deixa de ser fiel a Lula.

Na quinta-feira anterior às eleições, Lula havia batido forte na “elite”. E se referiu a ela como “essa gente que não quer que eu coloque filha de empregada doméstica na universidade para ser médica (...) Essa gente que não gosta de mim vai continuar não gostando, mas eu vou continuar fazendo”, disse. Menos de 72 horas depois de ter ouvido essa acusação, a elite foi às urnas e, como sempre tem feito, reafirmou sua fidelidade.

Os resultados de domingo passado mostram que o petista foi o grande vencedor das eleições no Leblon, bairro de referência da elite no Rio de Janeiro. Foi também o vitorioso nas seções eleitorais da região dos Jardins, em São Paulo, onde votam os mandachuvas do mercado financeiro, conhecidos pelo termo genérico de “a Faria Lima” — em referência à avenida que concentra um número expressivo de bancos, fundos d investimentos e consultorias financeiras.

FIDELIDADE CANINA

Não é o caso de se analisar com lupa os mapas da votação. As observações feitas neste texto, como já foi dito, são baseadas na curiosidade e na sensibilidade de um observador atento e não em evidências científicas. Os resultados do pleito confirmam que, quanto mais é acusada por Lula de insensibilidade social, mais a elite o recompensa com uma fidelidade canina. Até aí, tudo bem.

A questão é que a outra ponta da amostra engloba a população vulnerável, pobre e numerosa concentrada, principalmente, na região Nordeste do país. Esse grupo também costuma fazer o “L”. Numa análise igualmente superficial, pode-se dizer que as pessoas que dependem dos benefícios do Bolsa Família e de outros programas sociais são tão devotadas a Lula quanto os malvadões insensíveis da Faria Lima que, a rigor, seriam seus principais exploradores.

Por mais superficial que seja esse desenho, os números do primeiro turno mostram que até essa realidade passou por mudanças. Lula manteve sua soberania no Nordeste, embora não tenha contado com uma maioria tão folgada quanto as das eleições passadas. Considerando os números do país inteiro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos. Lula ficou com 45,16%. Na eleição passada, Lula obteve na região e em Minas Gerais, onde perdeu desta vez, uma vantagem muito mais folgada sobre o pai de Flávio, Jair Bolsonaro. Isso sugere, ao fim e ao cabo, que muita gente que votou em Lula em eleições passadas pode ter mudado de lado e passado a votar na direita... A pergunta é: de onde saiu essa massa toda?

A resposta está na classe média. Isso mesmo! Esse grupo social que, no mandato atual, passou a ser alvo de críticas tão cruéis e frequentes quanto as que Lula dirige à elite não reagiu com a mesma docilidade. Além de fatores regionais, da superioridade estratégica de sua campanha sobre a de Lula e do desgaste natural de um governo que já está há tempo demais no comando do país, Flávio conseguiu captar o humor da classe média e transformar a insatisfação com os juros, o endividamento e a inadimplência em apoio à sua candidatura. Se isso será suficiente ou não para lhe garantir a vitória no dia 25 de outubro é uma outra história. A verdade é que, pelo que se viu ao longo desta última semana, o senador trocou a condição de azarão (ou dark horse, na expressão em inglês) pela de favorito. Graças à polarização e à classe média.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 11-10-2026

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