Cronologia de nomeações mostra que os servidores acusados já ocupavam posições estratégicas nos governos Lula e Dilma
David Agape
Na manhã de 4 de março de
2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a
terceira fase da Operação Compliance Zero. A decisão levou à segunda prisão de
Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ao afastamento judicial de dois
servidores do Banco Central — ambos com tornozeleira eletrônica — e ao bloqueio
e sequestro de bens de até R$ 22 bilhões. Segundo a investigação, os dois
funcionários públicos recebiam propina para atuar como espiões internos da
autarquia em favor do banqueiro, repassando informações sensíveis e antecipando
movimentos da fiscalização.
Antes mesmo de o país absorver
a dimensão do que estava descrito nos
autos — que incluem desde planos de ataques físicos contra jornalistas até uma
rede privada de vigilância operando no entorno do banco, envolvendo até o FBI —
a tropa
digital alinhada ao governo Lula tentou emplacar nas redes a tese de
que o caso Master seria, na essência, culpa da gestão de Roberto Campos Neto,
ex-presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro. O argumento central
repetido nas redes é que o Master só teria existido porque o Banco Central
autorizou, em 2019, a transferência do controle do antigo Banco Máxima para
Daniel Vorcaro.
O problema é que essa
narrativa exige ignorar parte substancial do que as próprias investigações
revelam. A prisão dos dois servidores do Banco Central mostra que o núcleo do
esquema estava instalado na estrutura de supervisão bancária muito antes de 2019.
A cadeia de promoções que levou Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana a
esses cargos começa em 2007 e atravessa, sem ruptura, os governos Lula, Dilma e
Temer.
A cronologia ganha ainda mais
peso quando se observa o ambiente político em torno do Banco Master já durante
o atual governo. Daniel Vorcaro manteve interlocução frequente com figuras
centrais da administração Lula e com aliados históricos do PT. Em pelo menos
uma ocasião, chegou a se reunir diretamente com o próprio presidente Lula.
A engrenagem montada anos
antes
A tese de que o escândalo Master seria um produto direto da era Bolsonaro esbarra em um dado elementar: Paulo Sérgio e Bellini não foram alçados ao núcleo da supervisão bancária por Campos Neto, nem por Bolsonaro. Eles já estavam entrincheirados ali quando Campos Neto assumiu a presidência do Banco Central, em fevereiro de 2019.
O cruzamento de dados sobre
nomeações, promoções internas e histórico funcional revela uma sequência
contínua que atravessa quatro governos. Em 2007, no segundo mandato de Luiz
Inácio Lula da Silva, com o aval de Henrique Meirelles, então presidente do Banco
Central, Anthero de Moraes Meirelles foi indicado para
a Diretoria de Administração da autarquia. Quatro anos depois, já sob Dilma
Rousseff, Anthero foi promovido à
Diretoria de Fiscalização, o posto mais relevante na supervisão do sistema
bancário.
Foi dessa posição que, em
2015, ele promoveu Paulo Sérgio à chefia do Departamento de Supervisão
Bancária, o DESUP. É ali que se monitora o sistema financeiro em tempo real. É
dali que saem alertas sobre liquidez, inconsistências, riscos operacionais e indícios
de deterioração. O departamento alimenta a Diretoria de Fiscalização, que pode
intervir, impor restrições, instaurar procedimentos ou até empurrar uma
instituição para a liquidação. Não por acaso, entre operadores do próprio caso,
o DESUP foi descrito como “a área que abre e fecha banco”. É justamente nesse
ponto mais sensível da máquina que estavam Paulo Sérgio Neves de Souza e
Bellini Santana, os dois servidores agora afastados por decisão judicial.
Dois anos depois, em 2017, no
governo Michel Temer, ele próprio foi elevado à Diretoria de Fiscalização,
ocupando justamente o espaço antes ocupado por Anthero. Antes de subir, indicou
para seu lugar no DESUP Bellini Santana. Quando Roberto Campos Neto chegou ao
Banco Central, em 2019, os dois já ocupavam posições centrais na engrenagem
mais delicada da supervisão.
Essa sucessão desmonta a
tentativa de concentrar toda a origem do problema em uma única canetada de
2019. A estrutura que mais tarde seria acusada de servir ao Master já vinha
sendo montada e consolidada desde 2007, passando por Lula, Dilma e Temer, sem ruptura
institucional relevante nesse núcleo específico.
A transformação do fiscal
em consultor
O que a Polícia Federal descreve não é uma simples relação imprópria entre regulador e regulado. O quadro exposto nos autos é mais grave: havia, segundo a investigação, uma arquitetura funcional de corrupção, com canal de comunicação próprio, fluxo de informação sensível e pagamentos recorrentes.
Paulo Sérgio e Bellini
integravam um grupo de WhatsApp criado para facilitar a comunicação direta
entre Daniel Vorcaro e agentes que, institucionalmente, deveriam fiscalizar o
banco. Nesse canal, Paulo Sérgio repassava ao controlador do Master alertas internos
do Banco Central sobre movimentações da instituição detectadas pelos sistemas
de monitoramento da autarquia. Isso permitia que Vorcaro se antecipasse à
fiscalização formal, ajustasse condutas, preparasse respostas e neutralizasse
riscos antes que eles se transformassem em questionamentos oficiais. Em outras
palavras: o fiscal havia sido convertido em consultor do fiscalizado.
Bellini Santana, por sua vez,
mantinha encontros reservados com Vorcaro fora das dependências do Banco
Central, longe de registro formal e longe de trilha documental. Ao mesmo tempo,
aparecia internamente como nome forte para ascender à Diretoria de Fiscalização,
em substituição a Ailton de Aquino Santos. Segundo os autos, os pagamentos eram
disfarçados por contratos fictícios de consultoria, o mesmo expediente usado
para remunerar outros integrantes da rede ligada ao Master.
As mensagens reproduzidas na
decisão de André Mendonça são diretas. Em uma delas, Fabiano Zettel, cunhado de
Vorcaro, avisa ao banqueiro: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”
Vorcaro responde: “OK.” Em outra: “Belline cobrando, paga?” A resposta vem sem
hesitação: “Claro.” O “Belline” mencionado nas conversas é Bellini Santana, o
mesmo servidor promovido ao DESUP em 2017 por Paulo Sérgio, que por sua vez
havia sido elevado por uma cadeia de comando formada nos governos anteriores.
O nível de proximidade
extrapolava o ambiente institucional. Segundo a própria investigação, Vorcaro
chegou a providenciar guia turístico para uma viagem de Paulo Sérgio à Disney,
em Orlando. Uma relação incompatível com qualquer ideia séria de supervisão
pública.
As portas que continuaram
abertas
Se a resposta política do
governo se apoia no discurso de autonomia institucional e rigor regulatório, a
cronologia de 2025 cria um embaraço difícil de contornar. Naquele ano, enquanto
o Banco Master já enfrentava processo administrativo sancionador por descumprimento
do recolhimento compulsório — uma obrigação regulatória básica —, Daniel
Vorcaro circulou com frequência notável dentro do próprio Banco Central.
Foram 17 entradas presenciais, somando mais de 34 horas dentro da autarquia. O
trânsito não se limitou a um setor periférico. Passou pelo gabinete de Gabriel
Galípolo, pela Diretoria de Fiscalização, pelo DESUP e por comitês internos de
governança. Cinco dessas visitas foram reuniões diretas com Galípolo.
Em 1º de abril de 2025,
Vorcaro permaneceu 2h42 em uma reunião prevista para durar uma hora. Em 11 de
abril, voltou ao gabinete e ficou 3h08, o encontro mais longo do período. Nesse
mesmo período, uma auditoria do BRB retirou cerca de R$ 19 bilhões em ativos do
perímetro original da negociação envolvendo o Master. Despacho interno do Banco
Central, posteriormente apresentado pela defesa de Vorcaro à Justiça, indica
que Paulo Sérgio Neves de Souza chegou a confirmar em ao menos uma ocasião o
trânsito do banqueiro junto à autarquia — inclusive mencionando a viagem a
Dubai que seria usada pela defesa para rebater a narrativa de fuga.
Em 8 de maio, Vorcaro e
Galípolo voltaram a se reunir por 1h19. Na mesma data, o Banco Master
apresentou ao Banco Central pedido de dispensa temporária do recolhimento
compulsório — pedido que o BC negou, por ausência de amparo legal e
regulamentar. Em 22 de julho houve nova reunião entre Galípolo, Ailton de
Aquino e Vorcaro. Dois dias depois, em 24 de julho, o Banco Central autorizou a
transferência do Banco Voiter para Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, que
também acabaria preso.
Do Banco Central ao
Planalto
O acesso de Vorcaro não se
limitava ao regulador. Os registros do Gabinete de Segurança Institucional
mostram que o controlador do Master entrou ao menos quatro vezes no Palácio do
Planalto entre 2023 e 2024.
Em 3 de abril de 2024, Vorcaro
entrou no Planalto às 17h29. Minutos depois, às 17h51, o senador Jaques Wagner
(PT-BA) também entrou para uma reunião fora da agenda. Wagner articulou
diversas movimentações ligadas ao banco.
Após deixar o STF em 2023,
Ricardo Lewandowski foi contratado pelo
banco para integrar um comitê consultivo estratégico, com remuneração de R$ 250
mil mensais — contrato articulado pelo
senador Jaques Wagner (PT-BA). Mesmo depois de assumir o Ministério da Justiça
em 2024, os pagamentos continuaram ao escritório administrado por sua família,
acumulando R$ 6,5 milhões no total, dos quais R$ 5,25 milhões foram pagos
quando já chefiava o Ministério da Justiça. Segundo apuração do portal
Metrópoles, o próprio Jaques Wagner também articulou a
contratação de Guido Mantega como consultor do Master, com remuneração de cerca
de R$ 1 milhão por mês para atuar na negociação com o BRB — pagamentos que
podem ter alcançado ao menos R$ 11 milhões. Wagner nega ter intermediado a
contratação de Mantega; confirmou, no entanto, ter indicado Lewandowski.
O detalhe ganha peso porque é
o mesmo Jaques Wagner que, mais tarde, subiria o tom na CPI para jogar o foco
sobre Campos Neto, como se a história começasse e terminasse na presidência
anterior do Banco Central.
Em 4 de dezembro de 2023,
Daniel Vorcaro entrou no
Palácio do Planalto acompanhado do empresário mineiro Lucas Prado Kallas.
Registros do Gabinete de Segurança Institucional obtidos pelo site Poder360 via
Lei de Acesso à Informação mostram que os dois tiveram a entrada registrada
exatamente no mesmo minuto: 15h42. A reunião não apareceu na agenda oficial do
governo, e não há registro público sobre o conteúdo da conversa.
Kallas é um empresário do
setor de mineração e sócio de Vorcaro na farmacêutica Biomm. Mineiro como o
banqueiro, construiu forte trânsito político em Brasília e em Minas Gerais. Em
2023, passou a integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável
(CDESS), o chamado “Conselhão” de Lula, por indicação do ministro de Minas e
Energia, Alexandre Silveira. Seu nome também aparece em investigações
relacionadas à mineração e à exploração de rejeitos minerais em Minas Gerais.
Ambos também são representados pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do
ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Uma reunião ainda mais
reveladora veio exatamente um ano depois. Em 4 de dezembro de 2024, um encontro
fora da agenda reuniu o presidente Lula, Daniel Vorcaro, Guido Mantega, Rui
Costa, Alexandre Silveira, Gabriel Galípolo e Augusto Lima. A reunião não apareceu
no relatório oficial do GSI e só veio a público depois, por meio de revelações
da imprensa.
Segundo os relatos divulgados,
Vorcaro expôs as dificuldades financeiras do banco, relatou que o BTG havia
demonstrado interesse em comprá-lo por valor simbólico e perguntou diretamente
a Lula se deveria vender. Lula o aconselhou a não vender e ainda criticou
Roberto Campos Neto e André Esteves. Cerca de um mês depois, Galípolo —
presente naquela mesma sala — assumiu a presidência do Banco Central.
Em 2023, como parte de uma
estratégia de governança, Vorcaro criou um conselho consultivo com Henrique
Meirelles, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola e o
ex-secretário-executivo do BC Geraldo Magela.
O esquema que atravessou
governos
Há um ponto real, documentado
e indiscutível no argumento dos governistas: em outubro de 2019, a diretoria
colegiada do Banco Central, já sob a presidência de Roberto Campos Neto,
autorizou a transferência do controle acionário do Banco Máxima para Daniel
Vorcaro. Sem esse ato, o Master não existiria nos termos em que passou a
operar. Esse fato é concreto.
Mas isso não resolve a questão
central. Autorização societária e esquema de propina são coisas distintas. Uma
decisão formal da diretoria em 2019 não apaga o fato de que Paulo Sérgio estava
no DESUP desde 2015 e Bellini desde 2017. Tampouco altera o núcleo do que a
Polícia Federal descreve: o pagamento sistemático a servidores instalados no
coração da fiscalização para orientar o banqueiro e contornar o monitoramento
interno.
A tentativa de explicar tudo
pela “desregulação” esbarra numa contradição difícil de superar. Se a
desregulação teria aberto as portas, por que o mecanismo decisivo descrito nos
autos foi a compra justamente dos agentes encarregados de fiscalizar e impor
limites? Se as regras teriam sido afrouxadas a ponto de facilitar tudo, por que
era necessário pagar propina a quem controlava os alertas, os fluxos internos e
a temperatura da supervisão?
É aqui que a blindagem
política da esquerda falha. Para sustentar a tese de que o caso Master pertence
essencialmente à era Bolsonaro, é preciso ignorar 2007, 2011, 2015, 2017, 2024
e 2025, para fixar os olhos apenas em 2019. Só que as datas não permitem esse
recorte. Nem os históricos de promoção. Nem os registros de agenda. Nem as
mensagens. Nem o acesso excepcional de Vorcaro ao Banco Central e ao Planalto
já sob Lula e Galípolo.
O que os elementos disponíveis
desenham é outra história. O Banco Central, ao que tudo indica, não foi
deformado por uma única gestão nem por uma única assinatura. Foi penetrado por
dentro, por servidores que atravessaram governos e acumularam poder num setor
decisivo, e por fora, por um banqueiro que, em dezembro de 2024, pôde perguntar
pessoalmente ao presidente da República o que fazer com o próprio banco — com o
futuro presidente do Banco Central sentado na mesma sala.
Se há uma disputa em curso,
ela não é apenas sobre quem será punido. É sobre quem conseguirá controlar a
narrativa antes que a cronologia fale por si. E, até aqui, a cronologia é o
maior problema de quem tenta transformar o caso Master em um escândalo conveniente
demais para caber só no colo do adversário.
Título e Texto: David Agape,
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