Um empresário da saúde. Um executivo de comunicação. O mesmo pedido nos dois casos, e uma pergunta que ninguém em Brasília quer responder
Rogerio Pires
Imagine que o seu telefone toca numa tarde comum. Do outro lado está um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não é uma intimação, não é um processo, não é nada que você possa levar ao seu advogado. É uma conversa. E, no meio dela, você entende que existe um nome do qual seria melhor se afastar.
Segundo reportagem publicada nesta
terça-feira pelo Jornal da Cidade Online, com base em apuração da coluna No
Ponto, da Revista Oeste, assinada por Cristyan Costa, foi mais ou menos isso o
que aconteceu com dois empresários brasileiros.
No primeiro caso, um empresário do
ramo de saúde teria sido advertido por Flávio Dino de que o ministro poderia
atuar contra ele e contra o setor. Na conversa, segundo a reportagem, Dino
teria citado como exemplo o alcance das próprias decisões no processo das
emendas parlamentares.
No segundo, Gilmar Mendes teria
pressionado um empresário de uma grande companhia de comunicação para
interromper o contato com André Mendonça e parar de aproximá-lo de
representantes de outras áreas.
Quem é o homem que precisa ficar
sozinho
André Mendonça é o relator, no STF, de duas das maiores investigações de corrupção em curso no país: o caso do antigo Banco Master e o escândalo dos descontos indevidos nas aposentadorias do INSS.
São processos que já produziram
bloqueios bilionários e que alcançam gente grande em Brasília. E são processos
que, por caminhos diferentes, encostam em nomes próximos ao próprio Supremo.
Guarde isso, porque muda tudo. Ninguém
organiza um isolamento por causa de um colega chato. Organiza-se um isolamento
por causa do que esse colega pode encontrar.
A pergunta que ninguém responde
Há um detalhe que a apuração original
registra e que me parece o mais eloquente de todos. Dino e Gilmar foram
procurados pela coluna. Nenhum dos dois comentou.
Não houve desmentido. Não houve nota.
Não houve aquele parágrafo indignado que costuma sair em minutos quando a
acusação é falsa.
E é difícil não notar o contraste.
Quando o assunto é criticar Mendonça, a voz aparece. Gilmar Mendes foi ao Roda
Viva, na TV Cultura, falar em “erro crasso” do colega na condução da delação de
Daniel Vorcaro. Já disse publicamente que o escândalo do Master não está na
Praça dos Três Poderes, e sim na Faria Lima. Falar, portanto, não é o problema.
O próprio Mendonça deu a senha em
junho, quando afirmou que há uma perspectiva de que certos setores atuam para
criar um vício processual, que existe um sistema articulado para isso e que ele
não é cego.
Na época, aquilo soou como desabafo.
Hoje soa como aviso.
Por que isso deveria incomodar você
Sei que “briga entre ministros do
Supremo” parece assunto de Brasília, distante da sua vida.
Não é.
O caso do INSS não é uma abstração
jurídica. É a aposentada que via sumir do contracheque um desconto que ela
nunca autorizou, mês após mês, ano após ano, enquanto ouvia que aquilo era
normal. É o pai que trabalhou quarenta anos e financiou, sem saber, uma
engrenagem montada por gente que nunca vai depender de uma fila do INSS.
Se alguém está trabalhando para
esvaziar quem investiga esse esquema, o prejuízo não é do ministro. É dela. É
dele. É seu.
O que precisa acontecer agora
Gilmar Mendes e Flávio Dino precisam
dizer, publicamente e com todas as letras, se fizeram ou não o que lhes é
atribuído. Fizeram essas ligações? Falaram esses nomes? Sugeriram esses
afastamentos?
Um “não” resolveria em trinta
segundos. O espaço, como diz a própria coluna, segue aberto.
E enquanto esse “não” não vem, a
pergunta cresce sozinha: o que exatamente André Mendonça pode encontrar que
assusta tanto assim?
Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 26-8-2026
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