terça-feira, 1 de setembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Os gestos simples dos que não falam

Aparecido Raimundo de Souza

EXISTE UM órgão flexível dentro de nossa boca conhecido como “língua”. Ela serve para auxiliar na mastigação dos alimentos, na deglutição, no paladar e o mais importante, no auxílio direto ao milagre da fala. Todavia, além desse órgão muscular e sensorial, existe uma outra língua, ou seja, aquela que não fala, mas diz tudo. É a língua dos que se comunicam, ou melhor dito, dos que falam, ou que dão o recado com as mãos, com os olhos, com o corpo inteiro e que, curiosamente, são muitas vezes os que mais escutam, os que mais sentem, os que mais dizem sem precisar abrir a boca ou berrar. E nós, simples expectadores que temos a fala fácil, bastando apenas abrimos a matraca e interagirmos, passamos a vida inteira reclamando de quem fala demais, de quem fala de menos, de quem não entende o que dizemos, bem ainda de quem não nos ouve direito.

Na verdade, reclamamos do silêncio, reclamamos do barulho, reclamamos até de nossa própria voz. E enquanto nos perdemos nessas queixas e lamentações, algazarras e vozearias, os que não falam absolutamente coisa alguma seguem se comunicando com uma clareza inverossímil que nos deveria dar, pelo menos, uma gota da mais pura e aclarada vergonha. Eu vejo nos interiores dos ônibus, nas praças, nas ruas, nos supermercados, nas filas dos cinemas, praticamente em todos os lugares, pessoas de todas as idades que falam com as mãos.  E o mais interessante e espantoso. Esses seres não interagem devagar, como se estivessem explicando o óbvio. Se comunicam rápidos e rasteiros, se contagiam cheios de vida, os dedos das mãos dançando no ar engenhosamente ao tempo em que seus rostos iluminados por uma vitalidade ímpar nos embriagam com uma impressão maviosa, como se cada gesto carregasse um mundo inteiro de histórias sem fim.

E as pessoas que as ouvem (ou melhor dito, às que as veem) também respondem assim, e entre eles não ha ruídos, não procrastina o mal-entendido, não cria vida a confusão desordenada e martirizante que a gente faz quando falamos demais e dizemos de menos. Do meu lado, outro dia, no metrô paulista, um homem reclamava ao celular: “Não, não é isso! Você nunca me entende!”. E o sujeito tagarelava, e grulhava, e quanto mais cacarejava, mais distante parecia o outro, do lado oposto da linha de ser compreendido. E ali, a poucos passos, num banco próximo de mim, um casal de namorados sem palavras se entendiam e se completavam perfeitamente numa harmonia inebriante que encantava os olhos. Os gestos dos que não falam, quero crer, são mais sinceros e espontâneos, talvez, porque esses seres divinizados não tenham como esconder o que sentem atrás de frases inventadas e acaloradas ou rebuscadas de palavras bonitas.

Não dá para fingir com as mãos. Os trejeitos empregados são firmes e verdadeiros, ou eles hesitam e se desfazem. Não há espaço para a mentira que a fala tantas vezes encobre. Quando eles dizem “estou aqui”, o corpo inteiro confirma. Quando dizem “isso me dói”, o olhar não mente. E a nós, os alheios, que temos o dom da fala e fazemos dela um uso tão pobre, tão cheio de queixas e de ruídos, ainda reclamamos que a nossa comunicação é difícil. Vociferamos que ninguém nos entende, mas quantas vezes nos esforçamos para entender os outros? Esgoelamos em alto e bom som, que as palavras não bastam, mas um fato sempre se repete indefinidamente: nunca aprendemos a ver além delas. Penso que existe uma sabedoria no silêncio que não é ausência, mas presença. Os que falam sem som não perdem tempo com o que não importa: vão direto ao ponto nevrálgico, ao sentimento, ao olhar.

E nós, que nos achamos “normais”, passamos a vida girando em volta do essencial sem nunca chegarmos nele. Usamos a voz para preencher o vazio, para esconder a solidão, para reclamar de tudo e de nada. E enquanto fazemos barulho, eles os mudos nos ensinam que o mais importante não se diz — se mostra. Às vezes penso: quem é de verdade que fala, e quem é que se cala? Talvez os que não usam as palavras sejam os únicos que realmente se comunicam, e nós, que falamos sem parar, é que estamos em silêncio, fechados em nosso próprio ruído, incapazes de ver os gestos simplórios que o mundo nos oferece. E no fim, a maior lição deles é simples: não é preciso ter voz para ser ouvido. É preciso ter verdade para ser entendido. E nós, os imbecilizados que temos tudo para dizer, ainda gastamos a vida reclamando de não sermos ouvidos.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 1-9-2026

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