domingo, 20 de setembro de 2026

[As danações de Carina] Livre como passarinho preso em gaiola

Carina Bratt

‘Eu abro a portinhola da minha gaiola toda vez que ela me pede para ir lá fora tomar um ar e desafogar os medos que a atormentam’
Pachá

‘DIZEM OS ENTENDIDOS’ no assunto que a liberdade é voar sem rumo, sem portas e sem limites. Eu particularmente aprendi a lidar com um outro significado, aliás, um conceito mais amplo para essa palavrinha mágica: ser livre e voar sem limites, no verdadeiro sentido látego do meu entendimento, ou quando as grades, as trancas ou as amarras cercam somente o espaço da portinha da gaiola existente ao nosso entorno. Eu, a título de curiosidade, devo dizer que nasci com o canto solto na garganta, com a voz destravada e pronta, guindada a versejar o desejo veemente de ver o mundo como sempre quis que ele se apresentasse à minha imaginação.
Ilustração: Carlota Madeira Alves
Nesse tom, sinalizo sem medo de errar, que o mundo (o meu em particular), veio até mim, e se achegou de maneira voraz. E apesar de ávido e sequioso, debelador e famélico, exauriente e ávido pelo conhecimento que renascia além dos arames que circundavam a gaiola, entendo, ou mais claramente falando, compreendi que nada, absolutamente nada deixou de se fazer presente em minha vida, e aquele recinto minúsculo nunca se fez como um espaço definido, mas acreditem, se transformou num lugarzinho de puro descanso e total harmonia em consonância com o meu estado de espírito sempre solto e sem amarras.

A gaiola que me prendeu, verdade seja dita, não foi escolha minha. Veio a desditosa com o tempo, se achegou a desgranhenta com as circunstâncias, se estreitou a infeliz com os caminhos que se fecharam e permaneceu por perto com os laços que me prenderam, ou acharam que me tiraram o direito de pular fora, fossem uns engasgos atrofiados por amor, outros por dever, ou muitos simplesmente porque a vida assim desenhou e, de certa forma, me impôs.

Essa imposição, nunca me afetou os recônditos da alma. Não de forma definitiva. As grades dessa gaiola foram o tempo todo visíveis (as vezes invisíveis). Entretanto, afirmo de peito aberto, elas podem ser paredes, criar distâncias, impor regras, inventar dores, profetizar promessas ou qualquer outra atarantação desordenada que não se cumpriram. Ou anos passados e divorciados de quem eu amo nunca se fizeram empecilhos. Mas aqui nesse ‘ponto chave’ está a tranca do segredo, ou seja, é exatamente aqui onde mora ‘escondidamente’ o grande mistério: a minha gaiola só prendeu o tempo todo o meu corpo, jamais essa geringonça aprisionou a minha alma.

Eu tenho as asas inteiras, mesmo que não as abra para voar para longe, ou para me distanciar das atarantações que por vezes me sufocam. Minha mente percorre estradas longínquas, se enveredam por trilhos insulados, se perdem por carreiros garabulhados, que não existem mais, sem contar que revisitam casas antigas, abraçam pessoas que partiram, falam com quem já não ouvem, perambulam em cada lugar que um dia sonhei conhecer.

Quando o sol bate e se esparrama na minha varanda, e depois vêm descansar nas janelas do meu quarto, eu vejo não a gaiola, mas o imenso firmamento lá no mais alto céu e sei, aqui dentro de mim eu sei, sei e entendo que ele é meu, todo meu, todo meu, porque a vastidão não pertence a ninguém. Se a vastidão não pertence a ninguém, entendo por consciência férrea, que pertence, por direito, que se enquadra também a mim. Sou uma ‘moça-menina-criança’ livre para lembrar, disjungida para sentir, desabrochada e desagarrada para perdoar, esculpida e sedenta para imaginar.

Sou insaciável para manter acesa a esperança imorredoura, mesmo quando tudo parece feio e hostil, ou escancaradamente mergulhado em desuso. Sou mais, vou além. Me faço independente e livre, em outras palavras morigerada para escolher o que guardo no coração e o que deixo ir, para cantar minha canção preferida com a mesma força, quer haja ouvidos ou não para me escutar. As grades, as amarras, os laços, as cordas, algemas e nós, não conseguem aprisionar o que realmente me importa.

Essas tocaias, podem limitar onde eu piso, mas nunca até onde eu pretendo chegar. E assim, presa por fora, continuo inteira e solta por dentro. Me sinto diluída, desirmanada dissoluta e desguaritada (entre aspas, casinha de madeira entrelaçada om arame), como uma ave enclausurada, porque entendo, e não só entendo, percebo, atino, pressagio, harmonizo que a verdadeira liberdade, aquela tida como autônoma, ou melhor explicado, o passaporte, o passe livre.

Resumindo, meu texto, (‘O voar, voar, subir, subir...’ versos da melodia ‘O Sonho de Ícaro’’, do cantor Biafra, lembram desse sucesso?). Então, o subir alto, o sumir entre as nuvens, de um céu de brigadeiro, não está em não ter limítrofes, mas literalmente em ser dona de mim mesma, senhora do seu nariz, do meu corpo, do meu gostar, da maneira como vejo e encaro o amanhã. Não importa ou não faz diferença onde quer que euzinha esteja.

Título e Texto: Carina Bratt, de Nova Venécia, ES, 20-9-2026

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