quinta-feira, 10 de setembro de 2026

"irónico: um homem que passou a vida a dizer que combatia o sistema de favores e boatos, hoje vive de boatos..."

J. L. Braga

Bom dia a todos.

A propósito da publicação do Paulo de Morais que está a circular sobre o Luís Neves e o Chega, deixo aqui uma crítica ao método, não à pessoa. 

Este é um exemplo perfeito do pior estilo do Paulo de Morais dos últimos anos.

1. A insinuação como arma principal.

Ele escreve: "Alguns tinham (têm?) cumplicidades com relevantes políticos do Chega."

Esse "(têm?)" é toda a técnica. Não afirma, não prova, não dá um nome, não cita um único processo. Lança a suspeita e deixa o ponto de interrogação fazer o trabalho sujo. É exatamente o tipo de discurso que ele próprio condenava quando era o paladino do combate à corrupção: acusação sem prova.

2. Lógica conspirativa barata.

"Enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária, desmantelou uma organização criminosa de extrema-direita... Esta extrema-direita nunca perdoará Luís Neves."

Transforma uma operação policial — que deveria ser avaliada pelos factos do inquérito — numa vingança pessoal e política. Não apresenta qualquer ligação entre a organização desmantelada e a atual tutela da PJ. Cria uma narrativa de filme: o herói perseguido.

3. A tentativa de psicanálise ao Ventura.

"Mesmo contra a sua vontade, Ventura vê-se obrigado a tentar linchar publicamente..."

Isto é pura ficção. Como é que sabe o que o Ventura quer ou não quer? "O criador do Chega estará refém da sua criatura" é uma frase feita, bonita para título de crónica na CMTV, mas vazia de análise política. É comentário de café embrulhado em tom professoral.

4. O personagem.

Paulo de Morais foi vice-presidente da Câmara do Porto, professor universitário e candidato presidencial. Construiu toda a carreira em cima da bandeira da transparência e do rigor. O problema é que há muito tempo trocou o rigor pela punchline — ou seja, a frase de efeito, o remate fácil feito só para provocar.

Esta publicação — post, como se diz na internet — com fundo preto, foto circular e título "Caça ao Neves" parece um cartaz de campanha, não a análise de um professor universitário. É puro clickbait, isto é, um conteúdo sensacionalista, de caça-cliques, feito para atrair a curiosidade. Sabe que se falar em Chega + extrema-direita + PJ tem likes garantidos, ou seja, tem gostos e aprovações garantidas nas redes sociais.

No fundo, é irónico: um homem que passou a vida a dizer que combatia o sistema de favores e boatos, hoje vive de boatos e de associações por afinidade ideológica. Quer ser visto como o lúcido acima dos partidos, mas escreve exatamente como um comentador partidário — só que do outro lado.

Texto e Imagem: J. L. Braga, Facebook, 10-9-2026

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