quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Israel, a obsessão do mundo

Leah Levy Cohen Ligia 

Ontem escrevi sobre Lula. Hoje é a vez de Macron. Mudam o sotaque, a gravata, o idioma e a pose diante do púlpito, mas Israel permanece no mesmo lugar: o banco dos réus da Assembleia Geral da ONU. É impressionante perceber que o mundo está pegando fogo em vários cantos, mas, quando os líderes internacionais chegam a Nova York, parece existir apenas um incêndio digno de discursos inflamados, gestos indignados e lágrimas protocolares: Israel e Gaza.

A guerra entre Rússia e Ucrânia continua, e não estamos falando de uma crise distante, mas de uma guerra no quintal da Europa, com drones, mísseis, cidades atacadas e ameaças cada vez mais próximas das fronteiras. A situação não está apenas preocupante, está fedendo, e Macron sabe disso, tanto que há poucos dias alertou para o aumento dos ataques híbridos russos contra a Europa e a própria França.

Mesmo assim, na ONU, Israel continua despertando uma indignação que nenhum outro conflito parece provocar. Macron falou em justiça, soberania, direito internacional e no retorno da “lei da selva”, criticou Israel e afirmou que a situação em Gaza deveria envergonhar o mundo. Até aí, nenhuma novidade, porque culpar Israel na ONU já faz parte do protocolo, quase como testar o microfone antes do discurso. O problema foi quando, embalado pela própria eloquência, declarou que o Hamas nunca havia operado na Cisjordânia.

Talvez Macron conheça uma versão alternativa do Hamas, uma espécie de filial organizada que respeita fronteiras administrativas e atua exclusivamente dentro dos limites de Gaza. Porque o Hamas real, aquele que recruta, financia e planeja atentados também na Judeia e Samaria, aparentemente não foi apresentado ao presidente francês. Nada como falar com absoluta convicção sobre uma realidade que não se conhece, pois essa segurança dos desinformados é sempre impressionante.

Macron também declarou que aqueles que acreditam que a segurança de Israel exige violar a soberania dos países vizinhos estão, na verdade, enfraquecendo Israel. Bonito, elegante e muito francês, só faltou explicar o que Israel deve fazer quando mísseis, drones, terroristas e armas chegam justamente desses territórios soberanos. Talvez devamos pedir licença antes de interceptá-los, enviar uma carta registrada ou esperar que a comunidade internacional convoque uma comissão e, alguns anos depois, manifeste profunda preocupação.

Enquanto isso, o Sudão sangra, o Iêmen continua devastado, o Irã alimenta seus braços terroristas e a Rússia prossegue com uma guerra que ameaça diretamente a Europa. Nenhum desses assuntos, porém, rende o mesmo espetáculo, porque Israel produz manchetes, protestos, bandeiras, passeatas e aplausos. Condenar Israel tornou-se uma senha de acesso ao clube dos moralmente superiores, com a vantagem de não exigir coerência. Pode-se relativizar o 7 de outubro, esquecer os reféns e apagar os israelenses assassinados; depois, basta pronunciar algumas vezes as palavras “direito internacional” e sair com a consciência devidamente higienizada.

Hoje será a vez de Benjamin Netanyahu falar, e o mundo está esperando. Bibi reduziu sua viagem a Nova York praticamente ao indispensável: chegar, discursar na ONU e voltar para Israel, em meio ao clima criado pelo prefeito Zohran Mamdani, que passou meses falando em prendê-lo com base no mandado do Tribunal Penal Internacional. Mamdani acabou reconhecendo um pequeno detalhe, sem grande importância para o palanque: o prefeito de Nova York não tem autoridade para executar esse mandado. Resolver os problemas da cidade exige trabalho, mas prometer prender o primeiro ministro de Israel, mesmo sem poder fazê-lo, exige apenas uma câmera ligada.

Netanyahu já avisou que irá à ONU para contar a verdade sobre os soldados israelenses e também sobre Mamdani. Algumas delegações talvez deixem o plenário assim que ele começar a falar, repetindo aquela curiosa tradição da diplomacia contemporânea de defender o diálogo, desde que ninguém seja obrigado a ouvir uma versão diferente daquela que já trouxe pronta.

Talvez Israel incomode justamente porque se defende. Porque este país minúsculo, cercado por países árabes, pressionado pela opinião pública mundial, julgado pela imprensa, hostilizado em passeatas e transformado em réu permanente na ONU, continua aqui. Israel não pede desculpas por sobreviver e não aceita o papel que tantos parecem ter reservado para o povo judeu: o de morrer em silêncio, chorar seus mortos e seguir adiante sem reagir, para não desagradar o mundo.

Depois do 7 de outubro, Israel não chorou apenas seus mortos e voltou para casa. Não sossegou enquanto ainda havia um refém em Gaza, porque não importava se ele estava vivo e podia retornar aos braços da família ou se restavam apenas seus ossos para serem sepultados em Israel. Durante 843 dias, o país continuou procurando até trazer de volta Ran Gvili, o último refém. Quantos países seriam capazes de mobilizar soldados, inteligência, recursos e anos de luta para não abandonar nenhum dos seus nas mãos do inimigo, nem mesmo depois da morte?

Do outro lado, existe uma propaganda jihadista que transforma a morte em instrumento político, religioso e publicitário. Quanto maior o número de mortos, mais poderosa a manchete, mais inflamado o discurso e maior a comoção no Ocidente. As estatísticas divulgadas pelas autoridades de Gaza não separam civis de combatentes, mas são imediatamente reproduzidas como verdade pronta. Assim, o Mohammed de 30 anos, integrante de um grupo terrorista e com um fuzil nas mãos, desaparece da categoria de combatente e reaparece diluído naquele total que, no cartaz da passeata do dia seguinte, já virou uma multidão formada apenas por mulheres e crianças.

Na propaganda jihadista, morrer ainda pode ser vendido como passagem gloriosa para o paraíso e suas famosas setenta e duas virgens. Aliás, considerando a quantidade de mortos que essa ideologia vem produzindo e celebrando há décadas, a esta altura deve estar faltando virgem no estoque do paraíso. É uma contabilidade macabra na qual o corpo rende uma fotografia, a morte rende uma narrativa e o número, quanto maior, melhor serve à causa.

Israel não transforma a morte em vitória. Aqui, o morto continua tendo nome, rosto, família e história, porque, segundo a tradição judaica, todo judeu merece um sepultamento digno, como judeu, num cemitério judaico. Por isso Israel arrisca soldados, negocia durante anos e recupera até os restos mortais de seus filhos, para que possam finalmente voltar para casa.

Talvez seja isso que incomode tanto. Para Israel, uma vida não é apenas mais um número numa estatística e um morto não é material de propaganda, porque cada pessoa representa um mundo inteiro. O nosso orgulho não está em contar quantos morreram, mas em poder afirmar diante de amigos, inimigos e de um mundo que tantas vezes prefere não compreender: ninguém fica para trás. Nem os vivos, nem os mortos.

E você, também acredita que Israel incomoda justamente porque se defende, sobrevive e não abandona os seus?

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Título, Imagem e Texto: Leah Levy Cohen Ligia, Facebook, 24-9-2026, 13h24

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