▼

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A conta da gasolina chega depois da eleição

Quem vai pagar e o que acontece com o preço quando o benefício acabar?

Rogerio Pires 

Sexta-feira, 9 de outubro, meio-dia e pouco. Dois ministros de Lula sobem ao púlpito em Brasília e anunciam que a gasolina ficará sem nenhum tributo federal. A desoneração por litro passa de R$ 0,63 para R$ 0,89, o PIS/Cofins e a Cide vão a zero, e a conta é de R$ 5,2 bilhões. O segundo turno é dia 25. Faltavam 15 dias. 

Vamos aos números que o próprio governo apresentou. Segundo o Poder360, o ministro Bruno Moretti, do Planejamento, informou que gasolina e etanol custarão R$ 3,6 bilhões em 30 dias. O etanol hidratado ganha uma subvenção maior, de R$ 0,25 para R$ 0,43 por litro. E nasce uma subvenção nova de R$ 1,40 por litro para o diesel importado, cerca de R$ 1,6 bilhão no período. Somando tudo, R$ 5,2 bilhões. 

A justificativa oficial veio da boca de Dario Durigan, da Fazenda: proteger a renda das famílias dos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre o petróleo. É um argumento que merece ser levado a sério. Combustível caro pesa no bolso de todo mundo, do motorista de aplicativo à dona de casa que vê o feijão subir porque o frete subiu. 

Mas a pergunta que fica no ar é outra: por que agora? A guerra no Oriente Médio não começou na quinta-feira. O petróleo não ficou caro de repente na semana do segundo turno. Ainda assim, o alívio chega quando faltam pouco mais de duas semanas para o eleitor decidir quem governa o país pelos próximos quatro anos. Isso não prova nada sozinho, e cada um tira sua conclusão. Mas o calendário está aí, à vista de todos. 

Pense num síndico que passa três anos sem consertar o elevador e, na véspera da assembleia que vai decidir se ele continua no cargo, aparece com pedreiro, tinta e promessa de obra. O morador agradece a tinta. Só que ele também pergunta quem vai pagar a conta e o que acontece depois da assembleia. É exatamente essa pergunta que o governo precisa responder. 

Moretti disse que o custo sai de receitas extraordinárias do petróleo e que as metas fiscais não serão flexibilizadas. Quais receitas são essas? De quanto estamos falando, e de onde elas vêm? O governo sequer informa como as subvenções serão financiadas. Dinheiro extraordinário, por definição, não se repete. Quem garante que ele estará lá no mês seguinte? 

Há ainda um detalhe de aritmética que o brasileiro precisa guardar. As medidas valem por 30 dias. Contando a partir de 9 de outubro, o prazo vence por volta de 8 de novembro, depois de o segundo turno terminar. Se a desoneração acabar, o imposto volta, e o preço volta junto, a não ser que o governo renove o benefício, o que custaria outros R$ 5,2 bilhões, pelas contas do próprio governo. Ou seja, quem for ao posto em novembro pode encontrar a conta de volta, e o debate eleitoral já terá passado. 

O benefício do diesel já existente, de R$ 2,12 por litro, continua em vigor. Somando o novo subsídio, o Tesouro passa a carregar uma fatia cada vez maior do preço dos combustíveis. Isso é política de preços feita por decreto de ocasião, e não por planejamento. A Petrobras, o mercado e o consumidor aprendem, mais uma vez, que as regras mudam conforme o humor do poder. 

O governo diz que vai fiscalizar o repasse da redução ao consumidor. Ótimo. Mas fiscalizar o posto é fácil de anunciar e difícil de cumprir em um país continental. E a pergunta mais relevante não é se o posto vai repassar o desconto, e sim se o contribuinte vai aceitar pagar R$ 5,2 bilhões por um alívio de 30 dias que coincide, por acaso ou não, com a reta final da eleição. 

Afirmo que isso é no mínimo imoral. Que há motivo de sobra para o eleitor olhar o calendário, olhar a conta e perguntar. Quem decide uma desoneração desse tamanho a 16 dias das urnas tem o dever de explicar de onde vem o dinheiro e o que acontece com o preço no dia 9 de novembro. Enquanto isso não for respondido, o desconto na bomba é só o troco de uma conta que eu e você iremos pagar. 

Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro. 

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 11-10-2026

Relacionados:
118 900 visitas! 🫶 
Será o fim do centrão? 
Profecia ou ameaça? 🤔 
“Lavagem cerebral: a propaganda totalitária, que foi utilizada pelo comunismo, nazismo e fascismo no passado. O petismo utiliza essa mesmíssima técnica” 
Duas cidades, instituições e as eleições de 2026 
9-10-2026: Oeste sem filtro – Nova marqueteira de Lula espalha fake News (e insultos) na internet + Lula zera impostos sobre a gasolina para caçar votos + m. manda prender porteiro condenado a 14 anos 
Não se vá!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-