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sábado, 3 de outubro de 2026

A desinformação e a impotência do eleitor: como mudar o atual enquadramento?

Gastão Reis

Acompanhar o desenrolar das campanhas eleitorais nas ruas e na televisão é quase um exercício de masoquismo, dado o grau de desinformação com que os eleitores são tratados. Tomemos, inicialmente, o caso das ruas e suas bandeirolas; em seguida, as propagandas na TV com as inserções de falas breves, nas quais somos informados sobre nomes e números, mas raramente sobre os partidos a que os candidatos pertencem.

As pessoas contratadas para segurar as bandeirolas nas ruas parecem não receber treinamento algum sobre como manejá-las eficientemente. Há casos em que as giram como se desenhassem no ar o símbolo do infinito — aquele oito deitado. Quem passa a pé ou de carro simplesmente não consegue ler o nome ou o número do candidato. Há também os que parecem nos dar adeus com o artefato, movendo-o rapidamente de um lado para o outro como limpadores de para-brisa sob chuva forte. E nada de conseguir ler.

Outro grupo se posiciona nas vias do lado errado de quem passa em uma determinada direção. Novamente, a leitura se torna impossível. Quanto aos partidos, as letras de suas siglas são diminutas, refletindo sua desimportância no mar de legendas que dominam os parlamentos municipais, estaduais e federais.

Melhor seria se os contratados segurassem as bandeirolas como se fossem placas, ou se os mastros tivessem um suporte em forma de “L” invertido para mantê-las esticadas, facilitando a leitura de quem transita. Nesse sentido, funcionam bem melhor os grupos que circulam ou ficam parados com mochilas equipadas com uma plaqueta acima da cabeça, exibindo a foto e o número do candidato. Ainda assim, o partido continua desprestigiado por letrinhas minúsculas de difícil identificação.

Vamos e venhamos: a informação recebida por quem passa é muito pobre para permitir um conhecimento real das propostas. Alguém poderia argumentar que cabe ao eleitor buscar mais dados na internet. No entanto, a oferta brutal de nomes e números deixa o cidadão atordoado e desanimado diante da tarefa hercúlea de garimpar tantas opções até escolher seu voto.

A propaganda na televisão não difere muito na carência de conteúdo, embora seja mais fácil memorizar o rosto, o número e o nome do candidato nos breves segundos disponíveis. Eles assumem sempre algum tipo de compromisso genérico com melhorias na segurança pública, na educação e na saúde, tratando temas complexos de forma superficial.

Caminhar pelas ruas observando a reação dos passantes aos panfletos evidencia o desinteresse e a desilusão generalizados com políticos e partidos, fruto de um ambiente marcado pela corrupção e pelo corporativismo — salvo raras e honrosas exceções. Mas o sintoma mais grave da nossa pobre vida política é o sentimento de impotência dos eleitores para mudar essa situação em direção ao interesse público, e não aos privilégios de indivíduos focados em suas próprias agendas.

Domina aquele sentimento difuso de que "a política é assim mesmo" e não teria jeito. Será mesmo? Na verdade, este quadro desanimador nos permite examinar a falta de mecanismos que tornariam a população a dona do pedaço, e não um joguete de agentes mal-intencionados. Países bem-sucedidos, nos quais os eleitores comandam o processo, dispõem de dois instrumentos eficazes: o voto distrital puro e o recall (a revogação de mandatos). Vejamos como funcionam.

O voto distrital puro, que o Brasil já adotou no período do Império, foi esquecido há mais de um século. O conceito é simples. Tomemos o caso de uma cidade: ela é dividida geograficamente em distritos eleitorais. Se a câmara municipal tiver 21 vereadores, teremos 21 distritos, e cada um deles elegerá apenas um representante. Um grupo de bairros pode ser agregado para formar um distrito. A grande vantagem é que, em princípio, você conhecerá os candidatos daquela região, pois eles moram no seu bairro ou no entorno. É o "olho no olho", permitindo um voto bem informado.

No caso de deputados estaduais e federais, os distritos serão geograficamente maiores. Embora para o cargo federal seja necessário agregar dois ou três municípios para formar um único distrito, os eleitos ainda serão pessoas da sua região que você, mal ou bem, conhece. É o oposto da situação atual, na qual votamos em números e rostos que raramente vimos ou dos quais nunca ouvimos falar.

A grande inovação seria exigir por lei que, uma vez por mês, os vereadores e deputados comparecessem aos seus distritos para prestar contas do que estão fazendo nos parlamentos, permanecendo sob o controle direto da população.

Esse sistema se torna ainda melhor quando combinado ao recall, que é a capacidade de os eleitores substituírem seus representantes entre as eleições quando estes "pisarem na bola", por meio de uma votação restrita ao distrito.

As regras variam entre as nações. Nos Estados Unidos, onde vigora o voto distrital puro, na metade do mandato de quatro anos de um deputado federal, por exemplo, ele pode ou não ser reconfirmado para os dois anos restantes. Em filmes americanos sobre política, é perceptível o cuidado com que os parlamentares tratam suas bases eleitorais, justamente por saberem que serão demitidos se o desempenho deixar a desejar.

Nada disso existe no Brasil de hoje. Obviamente, não será fácil mudar o atual cenário. Mas, se nada for feito, continuaremos no limbo da desinformação e da impotência permanentes. Mãos à obra.

Título e Texto: Gastão Reis, O Dia, 3-10-2026

Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: Você no comando”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=pB8MRrtGRPs

Gastão Reis é economista, palestrante e escritor

Contato: gastaoreis2@gmail.com  

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