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domingo, 4 de outubro de 2026

Falta povo na política

A polarização política tem impedido a construção de consenso capaz de buscar a solução para problemas agudos, que precisam ser resolvidos com urgência

Nuno Vasconcellos

Qualquer que venha a ser o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais — previsto para ser divulgado por volta das 22 horas de hoje —, a verdade é que não se deve esperar mudanças significativas no cenário político depois da apuração dos votos. Isso mesmo! Nem mesmo a eventual vitória de um dos candidatos já no primeiro turno — algo que não acontece desde o pleito de 1998 — teria força para desanuviar o clima político e baixar um pouco a tensão que tem dominado o embate eleitoral no Brasil.

Atenção! A liquidação da fatura já no primeiro turno, embora improvável, não é impossível. Num cenário polarizado como o que se viu este ano, em que os demais postulantes tiveram presença secundária diante do protagonismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição pelo PT, e do senador Flávio Bolsonaro, que disputa a presidência pelo PL, o fato é que o segundo turno apenas prolongará por mais algumas semanas um confronto que tende a ser repetitivo e gerar poucas novidades até o minuto final.

Vença quem vencer, o resultado deverá se dar por uma margem estreita de votos. Em 2022, Lula bateu Jair Bolsonaro, pai de Flávio, por uma diferença de apenas 1,8% de votos. Se o cenário permanecer como está, a situação deve se repetir este ano — acentuando ainda mais a divisão de um eleitorado que, por mais que tenha sido chamado a se manifestar em apoio aos dois principais candidatos, foi tratado como mero coadjuvante ao longo da campanha.

A verdade é que a política no Brasil vem tomando um rumo estranho, para dizer o mínimo, desde que o chamado lawfare — ou seja, o uso e abuso das leis e dos recursos à Justiça como arma política — substituiu o diálogo, a negociação, a busca de entendimento e o respeito pela decisão da maioria no processo de tomada de decisões. O cancelamento do debate que seria realizado pela TV Globo na quinta-feira passada foi apenas um ingrediente a mais no processo que vem mantendo a sociedade cada vez mais afastada da política.


INTERFERÊNCIA JUDICIAL

Sem entrar no mérito das razões que levaram a emissora a cancelar um evento tão tradicional (que fez parte do calendário eleitoral nas nove eleições realizadas no Brasil desde que a escolha do presidente da República voltou a se dar pela via direta, em 1989), o fato é que a interferência judicial exagerada vem empurrando o processo eleitoral brasileiro para uma situação no mínimo incômoda. O cancelamento do debate expôs uma verdade que só não enxerga quem não quer: a política brasileira vem se desenrolando numa ágora cada vez mais hostil e inacessível à participação popular.

Ou melhor: o eleitor tem sido chamado a participar apenas para validar as teses e os pontos de vista de interesse dos políticos — e não para contribuir com a formulação de propostas que farão diferença na vida da sociedade. O fato é que a polarização exagerada (sem espaço para diálogo e sem a hipótese da construção de consensos) se tornou o principal ingrediente da receita que tem afastado o povo da política.

Qualquer que seja o resultado da disputa, é líquido e certo que o lado derrotado não aceitará a vitória do adversário. E, no final das contas, fará tudo o que estiver a seu alcance para dificultar as ações do próximo governo.

MATURIDADE E SERENIDADE

Divergência, como se sabe, é parte do processo político, mas há situações que exigem sensatez e que deveriam ser levadas em conta pelas lideranças. Há limite para tudo — e já está mais do que claro que a polarização atual não produzirá, daqui por diante, resultados melhores do que produziu até agora. O Brasil está cheio de problemas, que terão que ser enfrentados pelo próximo governo, seja qual for o resultado das urnas. São problemas que não se resolvem com a troca de acusações que tem dominado o ambiente político nos últimos anos.

O país, como é público e notório, passa por momento delicado — e o que não faltam são problemas a serem resolvidos. Há, para começo de conversa, uma crise institucional que terá que ser enfrentada com maturidade e serenidade — sob pena de tornar a situação ainda mais difícil do que já está.

Há, também, problemas graves no campo da economia, que exigem soluções difíceis e não podem mais ser remendados ou enfrentados à base de reformas superficiais e de gambiarras, como têm sido nos últimos anos. É voz geral, por exemplo, que a situação fiscal do país chegou a um ponto insustentável — e a falta de medidas que promovam o equilíbrio urgente das contas públicas pode inviabilizar a administração federal.

A impressão que se tem é a de que os dois lados sabem o que precisa ser feito para consertar a situação. O que parece faltar, no entanto, é a disposição política para enfrentar as consequências de decisões que, embora necessárias e urgentes, tendem a produzir resistências e desgastes imediatos. Pelo bem do país, os políticos poderiam pelo menos aproveitar a campanha para o segundo turno para mostrar ao público os programas de governo e as propostas para solução desses problemas, que não foram mostradas até agora.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 4-10-2026 

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