A polarização política tem impedido a construção de consenso capaz de buscar a solução para problemas agudos, que precisam ser resolvidos com urgência
Nuno Vasconcellos
Qualquer que venha a ser o resultado
do primeiro turno das eleições presidenciais — previsto para ser divulgado por
volta das 22 horas de hoje —, a verdade é que não se deve esperar mudanças
significativas no cenário político depois da apuração dos votos. Isso mesmo!
Nem mesmo a eventual vitória de um dos candidatos já no primeiro turno — algo
que não acontece desde o pleito de 1998 — teria força para desanuviar o clima
político e baixar um pouco a tensão que tem dominado o embate eleitoral no
Brasil.
Atenção! A liquidação da fatura já no
primeiro turno, embora improvável, não é impossível. Num cenário polarizado
como o que se viu este ano, em que os demais postulantes tiveram presença
secundária diante do protagonismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que
busca a reeleição pelo PT, e do senador Flávio Bolsonaro, que disputa a
presidência pelo PL, o fato é que o segundo turno apenas prolongará por mais
algumas semanas um confronto que tende a ser repetitivo e gerar poucas
novidades até o minuto final.
Vença quem vencer, o resultado deverá
se dar por uma margem estreita de votos. Em 2022, Lula bateu Jair Bolsonaro,
pai de Flávio, por uma diferença de apenas 1,8% de votos. Se o cenário
permanecer como está, a situação deve se repetir este ano — acentuando ainda
mais a divisão de um eleitorado que, por mais que tenha sido chamado a se
manifestar em apoio aos dois principais candidatos, foi tratado como mero
coadjuvante ao longo da campanha.
A verdade é que a política no Brasil vem tomando um rumo estranho, para dizer o mínimo, desde que o chamado lawfare — ou seja, o uso e abuso das leis e dos recursos à Justiça como arma política — substituiu o diálogo, a negociação, a busca de entendimento e o respeito pela decisão da maioria no processo de tomada de decisões. O cancelamento do debate que seria realizado pela TV Globo na quinta-feira passada foi apenas um ingrediente a mais no processo que vem mantendo a sociedade cada vez mais afastada da política.
INTERFERÊNCIA JUDICIAL
Sem entrar no mérito das razões que
levaram a emissora a cancelar um evento tão tradicional (que fez parte do
calendário eleitoral nas nove eleições realizadas no Brasil desde que a escolha
do presidente da República voltou a se dar pela via direta, em 1989), o fato é
que a interferência judicial exagerada vem empurrando o processo eleitoral
brasileiro para uma situação no mínimo incômoda. O cancelamento do debate expôs
uma verdade que só não enxerga quem não quer: a política brasileira vem se
desenrolando numa ágora cada vez mais hostil e inacessível à participação
popular.
Ou melhor: o eleitor tem sido chamado a participar apenas para validar as teses e os pontos de vista de interesse dos políticos — e não para contribuir com a formulação de propostas que farão diferença na vida da sociedade. O fato é que a polarização exagerada (sem espaço para diálogo e sem a hipótese da construção de consensos) se tornou o principal ingrediente da receita que tem afastado o povo da política.
Qualquer que seja o resultado da disputa, é líquido e certo que o lado
derrotado não aceitará a vitória do adversário. E, no final das contas, fará
tudo o que estiver a seu alcance para dificultar as ações do próximo governo.
MATURIDADE E SERENIDADE
Divergência, como se sabe, é parte do
processo político, mas há situações que exigem sensatez e que deveriam ser
levadas em conta pelas lideranças. Há limite para tudo — e já está mais do que
claro que a polarização atual não produzirá, daqui por diante, resultados
melhores do que produziu até agora. O Brasil está cheio de problemas, que terão
que ser enfrentados pelo próximo governo, seja qual for o resultado das urnas.
São problemas que não se resolvem com a troca de acusações que tem dominado o
ambiente político nos últimos anos.
O país, como é público e notório,
passa por momento delicado — e o que não faltam são problemas a serem
resolvidos. Há, para começo de conversa, uma crise institucional que terá que
ser enfrentada com maturidade e serenidade — sob pena de tornar a situação
ainda mais difícil do que já está.
Há, também, problemas graves no campo
da economia, que exigem soluções difíceis e não podem mais ser remendados ou
enfrentados à base de reformas superficiais e de gambiarras, como têm sido nos
últimos anos. É voz geral, por exemplo, que a situação fiscal do país chegou a
um ponto insustentável — e a falta de medidas que promovam o equilíbrio urgente
das contas públicas pode inviabilizar a administração federal.
A impressão que se tem é a de que os
dois lados sabem o que precisa ser feito para consertar a situação. O que
parece faltar, no entanto, é a disposição política para enfrentar as
consequências de decisões que, embora necessárias e urgentes, tendem a produzir
resistências e desgastes imediatos. Pelo bem do país, os políticos poderiam
pelo menos aproveitar a campanha para o segundo turno para mostrar ao público
os programas de governo e as propostas para solução desses problemas, que não
foram mostradas até agora.
Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 4-10-2026
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