Em entrevista exclusiva, Stéphane Luçon — jornalista francês radicado na Romênia — detalha as alegações de interferência russa. Comparamos até onde o caso romeno parece com o brasileiro
David Ágape
Em 24 de novembro de 2024, Călin
Georgescu venceu o primeiro turno da eleição presidencial da Romênia. Pouco
mais de uma semana depois, em 2 de dezembro, a Corte Constitucional validou o
resultado. Em 4 de dezembro, o então presidente Klaus Iohannis tornou públicos documentos dos serviços de inteligência sobre possível
interferência estrangeira. Dois dias depois, a mesma Corte anulou
toda a eleição.
Georgescu deveria enfrentar Elena
Lasconi no segundo turno. Não enfrentou. Quando a eleição foi refeita, em 2025,
tentou registrar novamente sua candidatura e foi impedido de concorrer. A nova disputa terminou com a eleição de Nicușor
Dan, centrista pró-União Europeia e defensor da permanência da Romênia no eixo
da UE e da OTAN. A anulação continua cercada por controvérsias sobre a extensão
da influência russa, a atribuição das operações digitais a Moscou e a relação
entre as irregularidades apontadas e o resultado da votação.
Quase dois anos depois, parte da
discussão que antecedeu a anulação romena já aparece na eleição brasileira de
2026. Em 17 de setembro, Eduardo Bolsonaro disse ter alertado autoridades americanas para o risco, em sua
avaliação, de o STF anular uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Citou como
precedente a anulação romena, após alegações de interferência russa. Não
apresentou evidências de que o Brasil seguirá o mesmo caminho.
From Bucharest to Brazilia: What Brazil Can Learn From Romania’s Canceled Election
Alexandre de Moraes afirmou neste mês que um relatório da Polícia Federal sobre suas relações com Daniel Vorcaro teria sido produzido com auxílio de agentes externos, “provavelmente estrangeiros”, e classificou o episódio como uma “clara tentativa de interferência externa nas eleições brasileiras de 2026”. O ministro não identificou publicamente qual país, órgão ou autoridade estaria por trás da suposta operação.
Na mesma crise, Flávio Dino vinculou o
julgamento às eleições e às pressões vindas dos Estados Unidos. Ao defender a
interrupção da discussão, citou as ameaças de novas sanções americanas contra
ministros do Supremo e falou na necessidade de impedir “pressões externas”.
Pouco depois, ao justificar seu pedido de vista, advertiu: “A 15 dias de uma
eleição, o tribunal se expõe a isto.”
O próprio Dino foi acionado pelo PT
nesta semana dentro da ADPF 1.178, ação que ele já relata. O processo foi
ajuizado originalmente pelo Instituto Brasileiro de Mineração para contestar a
atuação de municípios brasileiros em processos de indenização na Justiça
inglesa relacionados ao desastre de Mariana. Agora, a campanha de Lula quer
usar o mesmo processo para investigar uma suposta operação estrangeira em favor
de Flávio Bolsonaro.
A petição cita suspeitas envolvendo a
americana Rockbridge Network, conteúdos do Brasil Paralelo e do Estúdio Quinto
Elemento disponibilizados na Academia da Direita e publicações pagas de perfis
no X sobre o desempenho de Flávio na Polymarket. O PT pediu à Polícia Federal a
abertura de investigação, depoimentos e medidas de busca e apreensão contra o
comitê de campanha e a sede nacional do PL. As suspeitas de financiamento
estrangeiro ainda não foram demonstradas publicamente.
O PT não se limitou ao Supremo. Também
acionou o TSE contra Flávio e Eduardo Bolsonaro por abuso de poder político,
econômico e dos meios de comunicação, alegando articulação com o governo Donald
Trump para interferir na eleição. Além da inelegibilidade dos dois, a legenda
pediu a cassação dos registros de Flávio e de seu candidato a vice.
A ofensiva ocorre depois que a Abin
produziu um relatório reservado sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” e
classificou como crítico o risco de escalada da pressão dos Estados Unidos
sobre o Brasil. O documento foi encaminhado ao Palácio do Planalto, ao TSE e ao
Ministério da Justiça. O governo também passou a monitorar quatro frentes que
considera possíveis formas de influência americana: pressão política direta,
impulsionamento de perfis, suspeitas de financiamento e contatos com
influenciadores brasileiros.
Lula incorporou a interferência
estrangeira ao discurso de campanha. Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de
setembro, afirmou que alguns candidatos se alinham a interesses estrangeiros
contrários aos do país e disse que o Brasil não permitirá que “inimigos da
democracia, internos ou externos” atentem contra a vontade popular.
O tema tampouco surgiu em 2026. Quando
presidia o TSE, Luís Roberto Barroso já advertia sobre a possibilidade de
ingerência estrangeira nas eleições por meio das redes sociais. Em 2021, ao ser
questionado sobre manipulação eleitoral por plataformas digitais, citou o caso
americano de 2016 e afirmou: “Nos Estados Unidos, ficou comprovada a
interferência estrangeira a favor do presidente Trump. Pode acontecer em
qualquer lugar do mundo.”
Foi nesse contexto que entrevistei
Stéphane Luçon, jornalista francês radicado há mais de duas décadas na Romênia.
Nos conhecemos no Westminster Free Speech Forum, em Londres, encontro
organizado pelo jornalista americano Michael Shellenberger. Enquanto eu vinha
investigando no Brasil o Twitter Files Brazil, a série Vaza Toga e a expansão
de estruturas de monitoramento político dentro do Judiciário, Luçon passou a
reconstruir o que ocorreu nos bastidores da eleição romena e o sistema europeu
que reúne plataformas, reguladores, fact-checkers, organizações privadas e
instituições da União Europeia no combate à desinformação.
A conversa se transformou numa
entrevista dupla. Primeiro, tentei entender com Luçon como uma eleição já
validada chegou a ser anulada quatro dias depois, quanto da alegada
interferência russa havia sido efetivamente demonstrado e qual foi o papel do
Rapid Response System, mecanismo europeu usado para acelerar a sinalização de
conteúdos durante períodos eleitorais. Depois, ele me entrevistou sobre o
Brasil e sobre as estruturas que investigamos desde o Twitter Files Brazil.
Os dois casos são institucionalmente
diferentes. A Romênia já anulou uma eleição; o Brasil ainda vai votar em 4 de
outubro. Mas a interferência externa já deixou de ser uma hipótese distante:
entrou nos relatórios da inteligência, nas manifestações de ministros do
Supremo, nas ações judiciais da campanha governista e no próprio discurso
eleitoral de Lula.
Precisamos de você
Esta reportagem foi disponibilizada
gratuitamente graças ao apoio dos nossos assinantes. Considere se tornar um
assinante pago para garantir que este trabalho continue. É apenas R$ 15 por
mês.
Além de entrar para nossa comunidade
de assinantes, você ainda recebe conteúdos exclusivos.
Da interferência à atribuição
A primeira objeção de Luçon é à
narrativa segundo a qual Georgescu teria surgido do nada. O salto de um
candidato tratado como irrelevante nas pesquisas para o primeiro lugar ajudou,
segundo ele, a sustentar a ideia de que o resultado seria inexplicável sem uma
operação externa.
Georgescu, porém, já circulava havia
anos na política romena e tinha sido cogitado para o cargo de
primeiro-ministro. Luçon lembrou que o ex-presidente Traian Băsescu, um dos
políticos mais associados à integração da Romênia à OTAN, declarou posteriormente
que Georgescu não era um “fantoche russo”. Duas semanas antes da eleição, disse
Luçon, as buscas por Georgescu no Google Trends já superavam as dos principais
adversários.
Também houve sinais de coordenação
política digital em torno da candidatura. O Digital Forensic Research Lab, ligado ao Atlantic Council, identificou grupos no
Telegram que distribuíam vídeos prontos, instruções de publicação e estratégias
para impulsionar Georgescu no TikTok. O próprio relatório ressalvou que
coordenação política não é, por si só, ilegal e que outra investigação seria
necessária para estabelecer a extensão de uma eventual influência russa.
A decisão de 6 de dezembro da Corte Constitucional apontou manipulação do eleitorado,
desequilíbrio entre candidatos, uso não transparente de tecnologias digitais e
financiamento não declarado. Ela não atribuiu expressamente a campanha de
Georgescu ao governo russo. Essa diferença entre o fundamento escrito da
anulação e a atribuição política feita depois é central para a apuração de
Luçon.
“Os romenos ainda estão esperando por
provas sólidas do que exatamente aconteceu, por provas sólidas do envolvimento
russo nisso. Não há atribuição formal porque as provas reais estão faltando”,
disse Luçon.
Em artigo posterior,
Luçon voltou ao tema da atribuição e relatou ter sido incluído numa lista
intitulada “Quinta Coluna”, mantida por um grupo de combatentes romenos na
Ucrânia. Para ele, o episódio ilustra o risco de tratar críticos da narrativa
oficial como aliados de Moscou antes de examinar suas evidências. A existência
da lista é um episódio distinto da investigação sobre a eleição e não
demonstra, por si, como se formou o voto de 2024.
Luçon considera exagerada a imagem de
uma população romena facilmente conduzida por Moscou. Uma pesquisa realizada em
dezembro de 2024 mostrou que 87,5% dos entrevistados consideravam que a Romênia
deveria se orientar para o Ocidente — UE, Estados Unidos e OTAN — enquanto 4,1%
preferiam o eixo Rússia-China. Para ele, a desconfiança em relação a Moscou tem
raízes na experiência do país sob influência soviética.
O ponto não é descartar a
possibilidade de atuação russa, mas separar fenômenos diferentes: propaganda
russa, uma campanha coordenada, uma operação atribuível ao Estado russo e uma
operação capaz de alterar o resultado eleitoral. No caso romeno, Luçon sustenta
que esses elos foram tratados como partes de uma mesma explicação antes de a
cadeia completa estar demonstrada.
De uma conta ligada a Dugin ao
dinheiro do PNL
Um episódio ocorrido entre os dois
turnos mostra como a atribuição digital podia ser mais complexa do que parecia.
Em 2 de dezembro de 2024, a conta @Agdchan no X, identificada com o nome e a
fotografia de Aleksandr Dugin, publicou que “a Romênia será parte da Rússia”. A
mensagem provocou reação do Ministério das Relações Exteriores romeno e foi
inicialmente reproduzida como uma declaração do ideólogo russo.
Pouco depois, pesquisadores de OSINT
contestaram a atribuição pessoal da conta a Dugin. Segundo eles, o perfil seria
operado por um brasileiro identificado como Antonio Andreas da Silva Pires.
Isso, porém, não encerra a relação entre @Agdchan e o filósofo russo. Em uma
entrevista ao canal Estúdio 5º Elemento, o próprio Dugin aparece identificado
na tela com a arroba @Agdchan. Canais ligados a ele também continuaram
associando esse nome à sua estrutura de comunicação.
Os registros sugerem uma associação de
@Agdchan ao entorno de Dugin, mas não permitem determinar quem operava
pessoalmente a conta do X quando a mensagem sobre a Romênia foi publicada. Por
causa da entrevista com Dugin, integrantes do Estúdio 5º Elemento passaram a
ser chamados de “duginistas” por adversários. Agora, o mesmo canal aparece em
uma ofensiva do PT sobre suposta interferência estrangeira nas eleições
brasileiras de 2026, desta vez dentro de acusações de atuação alinhada ao campo
beneficiado pelo governo Trump. O PT cita conteúdos do Quinto Elemento
disponibilizados na Academia da Direita, mas isso, isoladamente, não demonstra
financiamento ou comando estrangeiro.
Outro caso envolveu uma campanha no
TikTok associada à ascensão de Georgescu. Segundo apuração do Snoop, a campanha que deu origem à #EchilibrușiVerticalitate havia sido
financiada pelo Partido Nacional Liberal, o PNL, uma das principais legendas do
establishment romeno. Cerca de 130 influenciadores participaram da ação,
executada pela Kensington Communication. A empresa afirmou que a campanha
original não tinha como objetivo promover Georgescu e que as hashtags e os
comentários favoráveis a ele não integravam o material que havia encomendado. A
origem do dinheiro, portanto, esclarece uma parte da campanha, mas não explica
sozinha quem a adaptou nem afasta a hipótese de outras operações digitais.
“Se você não consegue fazer a
atribuição, talvez não seja a Rússia. Talvez sejam os seus próprios caras.
[...] Você precisa de atribuição. Precisa saber quem fez aquilo”, disse Luçon.
O RRS e a caixa-preta da eleição
Ao mesmo tempo em que os serviços de
inteligência examinavam a campanha de Georgescu, funcionava outro sistema
voltado à integridade eleitoral. O Rapid Response System, ou RRS, permite que
organizações participantes e fact-checkers sinalizem rapidamente às plataformas
conteúdos, contas e tendências considerados problemáticos durante períodos
eleitorais.
O mecanismo não dá a uma ONG poder
formal para ordenar ao TikTok ou à Meta a retirada de uma publicação. A decisão
continua sendo da plataforma. A diferença está no canal privilegiado e
acelerado criado especificamente para períodos eleitorais.
Luçon passou a investigar quem tinha
acesso ao RRS, o que era encaminhado às plataformas e por que o público não
podia auditar essas decisões enquanto a eleição acontecia.
“O Rapid Response System poderia ser
uma ferramenta se houvesse transparência. Mas, na prática, você não sabe o que
eles estão sinalizando”, afirmou Luçon.
Parte dessa informação só apareceu em
2026, depois que a Comissão Judiciária da Câmara dos Estados Unidos intimou
plataformas digitais. O relatório da comissão afirma que a organização romena Funky Citizens sinalizou pelo
menos 334 vídeos no TikTok em novembro e dezembro de 2024. Ao menos 153 foram
removidos globalmente por violações das regras da plataforma, enquanto outros
sofreram restrições geográficas. Segundo os documentos obtidos, representantes
da Comissão Europeia eram copiados nas solicitações.
Luçon encontrou nesse material uma
sinalização feita em 3 de dezembro, depois da validação do primeiro turno e
três dias antes da anulação. O motivo registrado era “Political Propaganda for
Călin Georgescu”. Ele publicou o documento no Francezul.
A classificação não dizia que o
conteúdo era falso, não o atribuía à inteligência russa nem apontava
manipulação por inteligência artificial. O motivo registrado era propaganda
política em favor de um dos candidatos que ainda disputavam legalmente a Presidência.
Bruxelas também atuava sobre o
ambiente digital. Em 29 de novembro, a Comissão Europeia pediu informações ao
TikTok sobre manipulação e exploração automatizada da plataforma. Em 5 de
dezembro, um dia antes da anulação, ordenou ao TikTok que preservasse dados
relacionados à eleição. No dia 6, o European Board for Digital Services
reuniu-se extraordinariamente para discutir a eleição romena.
A Comissão afirmou que suas medidas
tratavam das obrigações das plataformas sob o DSA e não da validade jurídica da
eleição. Não há documento conhecido que demonstre uma ordem de Bruxelas para a
anulação. A cronologia mostra, porém, que a decisão da Corte ocorreu enquanto
serviços de inteligência, instituições europeias, reguladores, plataformas e
organizações privadas atuavam simultaneamente sobre o ambiente informacional do
pleito.
Luçon chama atenção ainda para uma
entrevista concedida mais de um ano antes da eleição por Anton Rog, chefe da
área de segurança cibernética do serviço de inteligência romeno. Segundo Luçon,
Rog explicou que, diante de uma campanha externa capaz de comprometer a
“sinceridade” do voto, o serviço poderia obter autorização e bloquear
rapidamente sites e contas.
“Podemos fazer isso em uma hora.
Recebemos o mandato e fechamos tudo em uma hora: sites, contas, tudo”, recordou
Luçon.
Se o aparato romeno dizia possuir
instrumentos para interromper rapidamente uma operação estrangeira, permanece a
pergunta sobre quais sinais foram identificados antes do primeiro turno, quais
providências foram tomadas e por que a medida mais grave veio somente depois de
conhecido o vencedor.
O precedente americano de 2016
A controvérsia romena tem um
antecedente conhecido. Na eleição americana de 2016, a investigação de Robert
Mueller documentou operações russas destinadas a interferir no processo
eleitoral, incluindo campanhas nas redes sociais e invasões de sistemas ligados
ao Partido Democrata.
Outra acusação, porém, era mais ampla:
a de que a campanha de Donald Trump teria conspirado ou coordenado com Moscou
nessas operações. O relatório Mueller não estabeleceu coordenação entre
integrantes da campanha e o governo russo para interferir na eleição.
A expressão Russian collusion hoax foi
adotada por Trump e seus aliados para descrever a tese de conluio. O ponto
factual mais restrito é que a existência das operações russas não demonstrou
participação consciente da campanha Trump nelas.
No caso romeno, Luçon identifica um
problema parecido: atividade digital suspeita, propaganda alinhada a Moscou e
redes coordenadas foram reunidas em uma explicação mais ampla antes de estarem
demonstrados todos os elos entre origem, comando, participação consciente e
efeito eleitoral.
Essa distinção interessa diretamente
ao Brasil de 2026. Uma ação oficial do governo americano é facilmente
atribuível aos Estados Unidos; demonstrar que brasileiros atuam sob comando
americano exige outro conjunto de provas.
Quando a Romênia virou exemplo para
outros países
Depois da repetição da eleição, Luçon
passou a observar como autoridades romenas apresentavam a resposta dada à
crise. Segundo ele, um integrante do Ministério do Interior afirmou que
serviços de inteligência estrangeiros estudavam a experiência e mencionou o
interesse de um colega tcheco.
“Ele achava que aquilo era uma coisa
boa. Eu achei que era um pesadelo. Pensei: eles vão tentar fazer a mesma coisa
em outros países”, disse Luçon.
Luçon passou então a acompanhar a
eleição da República Tcheca ao lado da jornalista Cecilie Jilkova. Quando
surgiram acusações sobre contas pró-Rússia no TikTok, os dois começaram a
cobrar plataformas, fact-checkers e autoridades sobre a origem das contas e o
funcionamento dos sistemas de sinalização ainda durante a campanha.
A investigação alcançou também a
atuação francesa. Luçon reuniu no Francezul declarações, contatos diplomáticos
e episódios envolvendo o governo Emmanuel Macron e passou a questionar por que
determinadas ações estrangeiras eram classificadas como interferência quando
atribuídas à Rússia, mas recebiam outra leitura quando partiam de governos
ocidentais.
Na entrevista, citou manifestações de
políticos franceses durante a repetição da eleição, uma visita do embaixador
francês à Corte Constitucional pouco antes de Georgescu ser impedido de
concorrer e as acusações posteriores de Pavel Durov sobre pressões francesas
contra canais do Telegram. Esses episódios não demonstram, sozinhos, uma
operação francesa para determinar o resultado, mas colocam a definição de
“interferência estrangeira” sob o mesmo problema de atribuição que Luçon aponta
no caso russo.
O problema brasileiro
Para o leitor de A Investigação, a
capacidade das instituições brasileiras de intervir sobre plataformas e
usuários não é novidade. O Twitter Files Brazil revelou ordens e pedidos
enviados por autoridades às redes sociais; posteriormente, a Vaza Toga mostrou
o uso de estruturas de combate à desinformação para produzir informações sobre
cidadãos e alimentar procedimentos judiciais. Eu e Michael Shellenberger
depusemos no Senado sobre parte desse material.
A novidade de 2026 está na acusação de
interferência estrangeira. Moraes já classificou o relatório da Polícia Federal
sobre ele como possível produto de agentes externos “provavelmente
estrangeiros”, voltado, segundo o ministro, a interferir na eleição. A Abin
também apontou risco de influência americana a um “nível de criticidade”, e a
campanha de Lula acionou o ministro Flávio Dino no STF para investigar uma
alegada articulação estrangeira em favor de Flávio Bolsonaro.
O argumento já alcança fatos bastante
diferentes entre si: pressão diplomática dos Estados Unidos, possíveis novas
sanções, contatos com influenciadores, suspeitas de financiamento externo,
conteúdos hospedados em plataformas brasileiras e publicidade política nas
redes. Algumas dessas ações são públicas e documentadas; outras são suspeitas
que ainda precisam ser demonstradas.
No caso brasileiro, parte da atuação
americana sequer precisa ser inferida. Em 2025, o governo dos Estados Unidos
aplicou sanções Global Magnitsky contra Alexandre de Moraes e posteriormente as
retirou. Se Washington voltar a adotá-las durante a campanha, haverá uma ação
estrangeira pública e oficial.
Daí não decorre que todo brasileiro
favorável às sanções integre uma operação americana. Um político apoiar uma
decisão de Washington não demonstra que receba ordens do governo americano. Uma
reportagem brasileira ser citada por autoridades estrangeiras não transforma
seus autores em agentes externos. Influenciadores participarem de reuniões em
uma embaixada ou compartilharem conteúdos produzidos nos Estados Unidos também
não prova, sem elementos adicionais, comando, financiamento ou coordenação
clandestina.
A comparação com a Romênia começa
exatamente aí. No caso romeno, campanhas no TikTok, redes coordenadas, contas
associadas a figuras russas e relatórios de inteligência foram reunidos antes
da anulação; parte da atribuição continuou controversa depois dela. No Brasil,
o mesmo tipo de linguagem já está sendo usado antes da votação.
“Se qualquer grupo de pessoas que se
organiza junto passa a ser interferência, você pode alegar isso em qualquer
ocasião”, afirmou Luçon.
A Comissão de Veneza, órgão consultivo do Conselho da Europa, examinou as regras
gerais aplicáveis à anulação de eleições depois do caso romeno, sem julgar o
acerto daquela decisão. Seu parecer diz que a medida deve ser excepcional e
depender de irregularidades relevantes o suficiente para poder afetar o
resultado, com garantias de um procedimento justo e objetivo.
A experiência romena não permite
antecipar o desfecho brasileiro. Ela permite exigir, antes de qualquer
consequência eleitoral, a demonstração dos mesmos elos que Luçon cobra na
Romênia: quem comandou a operação, quem participou conscientemente, como ocorreu
a coordenação e qual foi sua relevância concreta para o resultado.
A repercussão da entrevista
Em 25 de setembro de 2026, o YouTuber
Ricardo Albuquerque Pinto, conhecido como Ancapsu, publicou um vídeo que
ultrapassou 200 mil visualizações. Ao comentar minha entrevista com Luçon,
contestou a comparação entre Romênia e Brasil e chamou o jornalista francês de
“russete”. Afirmou que Georgescu era “um agente russo” e que a anulação romena
se justificava por compra de votos e cooptação de mesários.
Na resposta que publiquei,
também divulgada no X, critiquei a desqualificação de Luçon e a diferença no
tratamento dado às duas alegações de interferência estrangeira. A entrevista
não apresentava Georgescu como candidato isento de investigação nem negava a
existência de campanhas coordenadas. Discutia o que as investigações
conseguiram atribuir a agentes russos e os fundamentos usados para anular a
eleição.
Luçon também se manifestou. “Pessoas
muito belicosas em relação à guerra entre Ucrânia e Rússia, que passam o tempo
procurando traidores atrás do teclado, tendem a atacar quem expõe a falta de
provas de interferência russa por trás da votação de Georgescu”, escreveu. É
uma crítica dele à forma como o debate sobre a guerra passou a influenciar a
leitura do caso eleitoral.
Em um artigo sobre o
tema, Luçon relatou ter sido incluído numa lista chamada “Quinta Coluna”,
mantida por um grupo de combatentes romenos na Ucrânia. Segundo seu relato, a
lista também reúne outros jornalistas e figuras políticas rotulados como
adversários. O episódio ajuda a entender por que ele considera perigoso
equiparar o questionamento das provas a uma colaboração com Moscou. A denúncia
sobre a lista é distinta da apuração eleitoral e não resolve a controvérsia
sobre a origem da campanha digital de Georgescu.
A decisão da Corte Constitucional tratou de financiamento não declarado, publicidade digital irregular e desigualdade de condições entre candidatos. Não afirmou que Georgescu era agente do governo russo nem apresentou a alegada compra de mesários como fundamento da anulação.
Um recado ao YouTuber tudologista Ricardo Albuquerque Pinto, o Ancapsu
Título, Imagem e Texto: David Ágape,
A Investigação, Substack,
1-10-2026
30-9-2026: Oeste sem filtro – Embaixador brasileiro orienta Lulinha na mudança para Madrid + Vorcaro organiza almoço “mui simples” para m.
Nova Padroeira
“Lula fala muito. E, cada vez mais, quando fala, é uma metralhadora de bobagens”
🚨Urgente: quem pediu ao Instagram para censurar minha reportagem no Brasil?
29-9-2026: Oeste sem filtro – Fux derruba decisão de Dino e proíbe notícias falsas sobre a Padroeira + Nunes Marques critica interferência do STF no TSE
28-9-2026: Oeste sem filtro – Dino atua, desbragadamente, como cabo eleitoral + Gilmar tenta paralisar investigações sobre o Master
Do 7 de outubro à Padroeira, com escala na adega

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-