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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O novo anormal: França a ferro e fogo experimenta clima de guerra civil

Paulo Hasse Paixão 

As ruas de França estão novamente em chamas. Mas desta vez as coisas são diferentes do costume

Desde a passada segunda-feira que o país tem sido palco de protestos estudantis por todo o país. Na quinta-feira passada, o governo francês convocou uma reunião de emergência, uma vez que os protestos se tornaram rapidamente violentos, com manifestantes, muitos deles imigrantes, envolvidos em incêndios e outros atos de violência. Em alguns casos, estes “estudantes” foram vistos a entoar cânticos islâmicos e a hastear bandeiras estrangeiras.

Como o Contra já documentou, os incidentes escapam à normal agitação social que a França vive regularmente. Os níveis de violência, o aproveitamento da extrema-esquerda, o protagonismo de grupos de imigrantes e descendentes de imigrantes, bem como a abrangência dos protestos, que transcendem o âmbito estudantil, inauguram um novo patamar de confronto na sociedade francesa.

Os protestos começaram ostensiva e alegadamente como resposta à falta de professores e funcionários escolares, às turmas sobrelotadas, às infraestruturas escolares deficientes e à ventilação inadequada durante as recentes ondas de calor.

O primeiro protesto teve lugar na escola secundária Saint-Exupéry, em Créteil, um subúrbio no sudeste de Paris, na segunda-feira, 21 de setembro. Protestos semelhantes espalharam-se pela região de Paris à medida que as notícias se espalharam pelo Snapchat, Instagram e TikTok. Na terça-feira, 29 de setembro, a União dos Estudantes do Ensino Secundário (USL), o principal sindicato que representa os estudantes do ensino secundário, convocou um bloqueio nacional, interrompendo as atividades normais nos liceus franceses. Desde o bloqueio, cerca de 410 escolas secundárias em toda a França foram palco de algum tipo de protesto. O Ministério do Interior registou cerca de 440 detenções.

Os protestos começaram antes da apresentação do orçamento do governo francês na quinta-feira, 1 de outubro, que incluía cortes nas despesas públicas com o objetivo de reduzir o crescente défice e a dívida pública do país, que se situa atualmente nos 119% do PIB, totalizando aproximadamente 3,6 biliões de euros, e o país apresenta um défice persistente no sector público desde 1974. 

Funcionária que tentou impedir o vandalismo num liceu em Marselha é atingida na cara pelo fogo projetado por uma lata de aerossol

Violência abundante e sem sentido. 

As manifestações intensificaram-se significativamente na quinta-feira, com relatos de escolas incendiadas (incluindo uma com o nome Nelson Mandela, ironicamente) e confrontos violentos entre estudantes e polícia. Houve também destruição de propriedade pública e privada e agressões a professores e funcionários escolares por parte dos alunos. Os bombeiros enviados para apagar os incêndios também foram atacados por estudantes.

Muitas destas agressões não fazem qualquer sentido, no contexto das alegadas exigências dos alunos: Se forem sinceros no seu manifesto, aqueles que se queixam de um número insuficiente de funcionários nas escolas e da degradação das suas infraestruturas e equipamentos não têm interesse em linchar profissionais da educação e pegar fogo aos liceus. Ou a autocarros e carros de bombeiros.

Num caso que se tornou viral, o diretor da Escola Secundária Victor Hugo, em Marselha, no sul de França, foi atingido por gás lacrimogéneo lançado por alunos.

Num outro caso, partilhado pela líder do partido Reunião Nacional, Marine Le Pen, uma agente da polícia foi perseguida e agredida por manifestantes. Le Pen legendou assim a barbaridade:

“A imagem desta jovem polícia, perseguida por uma multidão enfurecida, atirada para o chão e agredida, é insuportável. Estes atos merecem um castigo exemplar. Que ela saiba que, esta noite, milhões de franceses estão a oferecer o seu sincero apoio”.

Um outro professor, ao tentar apagar um incêndio, foi atacado e atirado para o chão. Dez funcionários da educação e vários alunos ficaram feridos num só dia apenas por disparos de projécteis. Em Tours, no centro de França, um jovem foi hospitalizado com ferimentos na cabeça.

Dois incidentes chocantes revelam como as mulheres brancas, nativas, estão também a ser alvo de protestos nas escolas francesas. Num dos casos, uma mulher que tentou impedir o vandalismo num dos liceus visados pelos protestos foi atingida na cara pelo fogo projectado por uma lata de aerossol usada como lança-chamas improvisado.

Noutro vídeo partilhado online, uma supervisora ​​escolar branca foi cercada e agredida durante um bloqueio em Seynod.

Um polícia de alta patente à paisana foi espancado até perder os sentidos na sexta-feira, 2 de outubro, depois de ter sido perseguido e violentamente pontapeado na cabeça por uma multidão multicultural, durante protestos em escolas secundárias na cidade de Belfort. A procuradoria de Belfort abriu uma investigação por tentativa de homicídio doloso de funcionário público em resposta ao incidente.

Na quinta-feira, o diretor de uma escola secundária em Rouen, França, foi atingido por um morteiro de fogo de artifício e a entrada da escola foi incendiada, resultando num incêndio de grandes proporções.

Um dos episódios de violência chocante e gratuita mais mediatizados na web será o de um bombeiro a quem um grupo constituído maioritariamente por jovens migrantes de segunda e terceira geração largou fogo, em Bordéus.

 

Segundo dados do governo francês, entre 28 e 30 de setembro 143 polícias, cerca de 170 alunos e 65 funcionários ficaram feridos, enquanto mais de 100 escolas secundárias sofreram danos graves e mais de 200 foram bloqueadas. Mais de mil das cerca de 3.700 escolas secundárias de França foram afetadas pelos protestos.

Aproximadamente 2.000 pessoas foram detidas só na quinta-feira, a maioria menores de idade. 

Uma “manobra” da extrema-esquerda?

Louis Boyard, deputado francês do partido de extrema-esquerda França Insubmissa (LFI), liderado pelo candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon, participou no protesto inicial em Créteil. Boyard pediu que os protestos se espalhassem, o que foi ecoado por Mélenchon e outras figuras do LFI. Após o anúncio do bloqueio nacional pela USL, os deputados do LFI foram vistos a participar em protestos em frente às escolas secundárias francesas. Na quinta-feira, os serviços de informação franceses caracterizaram o bloqueio e os distúrbios generalizados como uma

“manobra organizada pelo LFI e pelos seus aliados de extrema-esquerda”.

Embora o LFI afirme que as ações recentes representam um esforço espontâneo, o partido está a instrumentalizar politicamente os protestos e tem, alegadamente, ligações próximas com diversos grupos ativistas de extrema-esquerda, conhecidos por criarem agitação social e recorrerem frequentemente à violência. Em fevereiro, a Guarda Jovem Antifascista, uma dessas organizações paramilitares co-fundada pelo deputado do LFI Raphaël Arnault, assassinou Quentin Deranque, um estudante universitário católico de direita de 23 anos em Lyon, uma cidade no sudeste de França. A Guarda Jovem foi dissolvida pelo governo francês em Junho de 2025. 

Escolas encerradas. E a seguir? 

Em resposta à violência, o governo francês convocou uma reunião de emergência. Desde então, anunciou o encerramento de cerca de 400 escolas secundárias ou a transição para o ensino à distância.

Os distúrbios ocorrem após uma conquista histórica para o Rassemblement National nas eleições para o Senado francês, garantindo lugares suficientes para formar um grupo parlamentar pela primeira vez na sua história, e sete antes das eleições presidenciais francesas de 2027, que estão marcadas para decorrer em duas voltas, em abril e maio. Sondagens recentes sugerem que Le Pen e Mélenchon são os candidatos com maior probabilidade de avançar para a segunda volta, com Le Pen a apresentar números favoráveis a uma vitória na segunda volta, enquanto Macron experimenta, no fim do seu mandato, os mais baixos índices de popularidade.

É possível que os distúrbios e o clima de confrontação violenta nas ruas possam prejudicar eleitoralmente Mélenchon, aumentando as hipóteses de um candidato mais alinhado com o estabelecimento se colocar como principal rival de Le Pen. E embora a líder nacionalista seja atualmente a favorita para derrotar todos os seus hipotéticos rivais na segunda volta, as sondagens indicam que um candidato do centro globalista tem mais probabilidades de a vencer do que Mélenchon, visto como extremista por grande parte do eleitorado francês.

Os próximos dias provavelmente esclarecerão se os distúrbios são uma breve erupção de caos ou se vão manifestar-se de forma prolongada nas próximas semanas e meses.

Título e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 5-10-2026

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