Paulo Hasse Paixão
As ruas de França estão novamente em chamas. Mas desta
vez as coisas são diferentes do costume
Desde a passada segunda-feira
que o país tem sido palco de protestos estudantis por todo o país. Na
quinta-feira passada, o governo francês convocou uma reunião de emergência, uma
vez que os protestos se tornaram rapidamente violentos, com manifestantes,
muitos deles imigrantes, envolvidos em incêndios e outros atos de violência. Em
alguns casos, estes “estudantes” foram vistos a entoar cânticos islâmicos e a
hastear bandeiras estrangeiras.
Como o Contra já documentou,
os incidentes escapam à normal agitação social que a França vive regularmente.
Os níveis de violência, o aproveitamento da extrema-esquerda, o protagonismo de
grupos de imigrantes e descendentes de imigrantes, bem como a abrangência dos
protestos, que transcendem
o âmbito estudantil, inauguram um novo patamar de confronto na sociedade
francesa.
Os protestos começaram
ostensiva e alegadamente como resposta à falta de professores e funcionários
escolares, às turmas sobrelotadas, às infraestruturas escolares deficientes e à
ventilação inadequada durante as recentes ondas de calor.
O primeiro protesto teve lugar
na escola secundária Saint-Exupéry, em Créteil, um subúrbio no sudeste de
Paris, na segunda-feira, 21 de setembro. Protestos semelhantes espalharam-se
pela região de Paris à medida que as notícias se espalharam pelo Snapchat,
Instagram e TikTok. Na terça-feira, 29 de setembro, a União dos Estudantes do
Ensino Secundário (USL), o principal sindicato que representa os estudantes do
ensino secundário, convocou um bloqueio nacional, interrompendo as atividades
normais nos liceus franceses. Desde o bloqueio, cerca de 410 escolas
secundárias em toda a França foram palco de algum tipo de protesto. O
Ministério do Interior registou cerca de 440 detenções.
Os protestos começaram antes da apresentação do orçamento do governo francês na quinta-feira, 1 de outubro, que incluía cortes nas despesas públicas com o objetivo de reduzir o crescente défice e a dívida pública do país, que se situa atualmente nos 119% do PIB, totalizando aproximadamente 3,6 biliões de euros, e o país apresenta um défice persistente no sector público desde 1974.
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| Funcionária que tentou impedir o vandalismo num liceu em Marselha é atingida na cara pelo fogo projetado por uma lata de aerossol |
Violência abundante e sem sentido.
As manifestações
intensificaram-se significativamente na quinta-feira, com relatos de escolas incendiadas
(incluindo uma com o nome Nelson Mandela, ironicamente) e confrontos violentos
entre estudantes e polícia. Houve também destruição de propriedade pública e
privada e agressões a professores e funcionários escolares por parte dos
alunos. Os bombeiros enviados para apagar os incêndios também foram atacados
por estudantes.
Muitas destas agressões não
fazem qualquer sentido, no contexto das alegadas exigências dos alunos: Se
forem sinceros no seu manifesto, aqueles que se queixam de um número
insuficiente de funcionários nas escolas e da degradação das suas
infraestruturas e equipamentos não têm interesse em linchar profissionais da
educação e pegar fogo aos liceus. Ou a autocarros e carros de bombeiros.
🇫🇷🔴 BREAKING: Migrant student youths have set fire to multiple buses and even fire trucks in the French city of Marseille as chaos spreads. The Marseille transport authority, RTM, said several of its buses "were targeted near high schools in the north and east of Marseille," that "drivers had to leave their vehicles in a hurry and one of them was assaulted." The regional Marseille government said an "unacceptable line" had been crossed at Victor Hugo High School, where "the principal, the deputy principal, the general secretary and the team leader were assaulted and doused with gasoline," according to the Provence-Alpes-Côte d’Azur region, cited by BFMTV. France is descending into chaos as student blockades grip the country. Over 650 arrests have been made. Follow: @RMXnews
— Remix News & Views (@RMXnews) October 1, 2026
Num caso que se tornou viral,
o diretor da Escola Secundária Victor Hugo, em Marselha, no sul de França, foi
atingido por gás lacrimogéneo lançado por alunos.
Num outro caso, partilhado
pela líder do partido Reunião Nacional, Marine Le Pen, uma agente da polícia
foi perseguida e agredida por manifestantes. Le Pen legendou assim a
barbaridade:
“A imagem desta jovem
polícia, perseguida por uma multidão enfurecida, atirada para o chão e
agredida, é insuportável. Estes atos merecem um castigo exemplar. Que ela saiba
que, esta noite, milhões de franceses estão a oferecer o seu sincero apoio”.
L’image de cette jeune policière, poursuivie par une meute qui hurle sa haine, projetée à terre et molestée, est insoutenable. Ces faits méritent des peines exemplaires. Qu’elle sache que ce soir, des millions de Français lui apportent un soutien chaleureux. https://t.co/3yt96dydeH
— Marine Le Pen (@MLP_officiel) October 1, 2026
Um outro professor, ao tentar
apagar um incêndio, foi atacado e atirado para o chão. Dez funcionários da educação
e vários alunos ficaram feridos num só dia apenas por disparos de projécteis.
Em Tours, no centro de França, um jovem foi hospitalizado com ferimentos na
cabeça.
Dois incidentes chocantes revelam como as mulheres
brancas, nativas, estão também a ser alvo de protestos nas escolas francesas.
Num dos casos, uma mulher que tentou impedir o vandalismo num dos liceus
visados pelos protestos foi atingida na cara pelo fogo projectado por uma lata de aerossol usada como
lança-chamas improvisado.
🇫🇷🔴 A woman had her face burned in the French city of Marseille during student blockades. A hooded far-left rioter set the spray from an aerosol can on fire and used it on her face like a flamethrower. Follow: @RMXnews https://t.co/y31pGz8kDF
— Remix News & Views (@RMXnews) October 1, 2026
Noutro vídeo partilhado
online, uma supervisora escolar
branca foi cercada e agredida durante um bloqueio em Seynod.
🇫🇷🔴 A White female supervisor at Baudelaire High School is beaten by a mob of multicultural students during a blockade in Seynod. The woman is completely surrounded when a Black male punches her in the face multiple times. Follow: @RMXnews https://t.co/GGrDgjV4YL
— Remix News & Views (@RMXnews) October 2, 2026
Um polícia de alta patente à paisana foi espancado até perder os sentidos na sexta-feira, 2 de outubro,
depois de ter sido perseguido e violentamente pontapeado na cabeça por uma
multidão multicultural, durante protestos em escolas secundárias na cidade de
Belfort. A procuradoria de Belfort abriu uma investigação por tentativa de
homicídio doloso de funcionário público em resposta ao incidente.
Na quinta-feira, o diretor de uma escola
secundária em Rouen, França, foi atingido por um morteiro de fogo de artifício
e a entrada da escola foi incendiada, resultando num incêndio de grandes
proporções.
Um dos episódios de violência
chocante e gratuita mais mediatizados na web será o de um bombeiro a quem um
grupo constituído maioritariamente por jovens migrantes de segunda e terceira
geração largou fogo, em Bordéus.
Young second and third-generation migrants film a French firefighter after setting him on fire during the school protests in Bordeaux 🇫🇷 https://t.co/QbJmDzyxbn
— Visegrád 24 (@visegrad24) October 2, 2026
Segundo dados
do governo francês, entre 28 e 30 de setembro 143 polícias, cerca de 170 alunos
e 65 funcionários ficaram feridos, enquanto mais de 100 escolas secundárias
sofreram danos graves e mais de 200 foram bloqueadas. Mais de mil das cerca de
3.700 escolas secundárias de França foram afetadas pelos protestos.
Aproximadamente 2.000 pessoas foram detidas só na quinta-feira, a maioria menores de idade.
Uma “manobra” da
extrema-esquerda?
Louis Boyard, deputado francês
do partido de extrema-esquerda França Insubmissa (LFI), liderado pelo candidato
presidencial Jean-Luc Mélenchon, participou no protesto inicial em Créteil.
Boyard pediu que os protestos se espalhassem, o que foi ecoado por
Mélenchon e outras figuras do LFI. Após o anúncio do bloqueio nacional pela
USL, os deputados do LFI foram vistos a participar em protestos em frente às
escolas secundárias francesas. Na quinta-feira, os serviços de informação
franceses caracterizaram o bloqueio e os distúrbios generalizados como uma
“manobra organizada pelo
LFI e pelos seus aliados de extrema-esquerda”.
Embora o LFI afirme que as ações recentes representam um esforço espontâneo, o partido está a instrumentalizar politicamente os protestos e tem, alegadamente, ligações próximas com diversos grupos ativistas de extrema-esquerda, conhecidos por criarem agitação social e recorrerem frequentemente à violência. Em fevereiro, a Guarda Jovem Antifascista, uma dessas organizações paramilitares co-fundada pelo deputado do LFI Raphaël Arnault, assassinou Quentin Deranque, um estudante universitário católico de direita de 23 anos em Lyon, uma cidade no sudeste de França. A Guarda Jovem foi dissolvida pelo governo francês em Junho de 2025.
Escolas encerradas. E a
seguir?
Em resposta à violência, o
governo francês convocou uma reunião de emergência. Desde então, anunciou o
encerramento de cerca de 400 escolas secundárias ou a transição para o ensino à
distância.
Os distúrbios ocorrem após uma conquista histórica para o
Rassemblement National nas eleições para o Senado francês, garantindo lugares
suficientes para formar um grupo parlamentar pela primeira vez na sua história,
e sete antes das eleições presidenciais francesas
de 2027, que estão marcadas para decorrer em duas voltas, em abril e maio. Sondagens
recentes sugerem que Le Pen e Mélenchon são os candidatos com maior
probabilidade de avançar para a segunda volta, com Le Pen a apresentar
números favoráveis a uma vitória na segunda volta, enquanto Macron experimenta,
no fim do seu mandato, os mais baixos índices de popularidade.
É possível que os distúrbios e o clima de
confrontação violenta nas ruas possam prejudicar eleitoralmente Mélenchon,
aumentando as hipóteses de um candidato mais alinhado com o estabelecimento se
colocar como principal rival de Le Pen. E embora a líder nacionalista seja atualmente
a favorita para derrotar todos os seus hipotéticos rivais na segunda volta, as
sondagens indicam que um candidato do centro globalista tem mais probabilidades
de a vencer do que Mélenchon, visto como extremista por grande parte do
eleitorado francês.
Os próximos dias provavelmente esclarecerão se os
distúrbios são uma breve erupção de caos ou se vão manifestar-se de forma
prolongada nas próximas semanas e meses.
Título e Texto: Paulo Hasse
Paixão, ContraCultura,
5-10-2026
Mais de mil detenções e centenas de feridos em onda de protestos violentos nos liceus franceses.


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