José Miguel Roque Martins
A saída de Viktor Orbán do poder em Budapeste, selada pela frieza de um boletim de voto e aceite com a normalidade institucional de quem reconhece as regras do jogo, é o funeral de uma narrativa que alimentou milhares de carreiras académicas, editoriais e burocráticas durante duas décadas. Mas não se enganem: não esperem da intelligentsia europeia um momento de introspecção, um pedido de desculpas ou o reconhecimento honesto de que o seu "alarme fascista" era, afinal, um defeito de fabrico do seu próprio radar moral.
O
Vício do Pânico como Modelo de Negócio
A casta dos
"especialistas em democracia" sofre de uma cegueira selectiva que é,
simultaneamente, o seu ganha-pão. Durante dezasseis anos, descreveram a
Hungria como uma antecâmara do inferno totalitário, um buraco negro onde a
liberdade seria sugada para nunca mais voltar. Agora que o suposto
"autocrata" arruma as gavetas e sai pelo próprio pé após uma derrota
eleitoral, a dissonância cognitiva instala-se nos gabinetes de Bruxelas e nas
redacções de Paris.
Será que vão admitir o
exagero? Será que vão reconhecer que Giorgia Meloni não foi a reencarnação de
Mussolini, mas apenas uma gestora assertiva de um Estado em crise? Claro que
não. A honestidade intelectual é um luxo que esta elite não pode permitir-se;
admitir o erro significaria admitir a vacuidade dos seus próprios diagnósticos.
A
Mutação Infinita do Perigo
A táctica é tão velha
como a própria sofísticação: quando um lobo se revela um cão de guarda —
barulhento, sim, mas doméstico —, a intelligentsia não
questiona a sua capacidade de identificar predadores. Limita-se a apontar para
o monte vizinho e a gritar que o "verdadeiro" lobo é o que virá a
seguir.
Se Orbán falhou o guião da autocracia sangrenta, eles inventarão rapidamente uma nova taxonomia para salvar a face: o "autoritarismo resiliente", a "democracia iliberal de Schrödinger" ou qualquer outro neologismo oco que lhes permita continuar a caça às bruxas. O rótulo de "fascista" deixou de ser uma descrição técnica para se tornar um estigma de excomunhão laica. Serve para impedir que se discuta o essencial: por que razão as populações preferem, repetidamente, o "lobo" à esterilidade das soluções que esta mesma elite lhes tenta impor goela abaixo?

























