Acredite se quiser, ele atacou os garis em mais uma frase preconceituosa
Rogerio Pires
Quatro e meia da manhã na Tijuca. O
caminhão entra na rua ainda no escuro, e um homem salta da traseira antes mesmo
de ele parar. Levanta um saco de trinta quilos, joga na caçamba, corre atrás do
veículo, repete. Faz isso centenas de vezes por turno. Quando você abre a
janela e vê a calçada limpa, ele já está a três quarteirões dali.
Esse homem tem nome, tem crachá, tem
filho matriculado na escola. E no sábado ele ouviu do presidente da República
que o trabalho dele é “uma coisa pobre de quem não pode estudar”.
A frase foi dita em Belo Horizonte, no
ato nacional Mulheres com Lula, na Serraria Souza Pinto. Assisti ao vídeo mais
de uma vez porque não queria acreditar que fosse corte editado. Não era. As
palavras estão lá, na sequência, sem tesoura: “Eu, quando eu passo na rua e eu
vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre,
porque não é uma profissão que dá orgulho [falar que é] ‘Eu sou lixeiro’. O
cara tem orgulho de falar, ‘eu sou engenheiro’, ‘eu sou médico’. Mas lixeiro é
uma coisa pobre de quem não pode estudar.”
Depois ele tentou emendar. Disse que o
pobre é tratado como invisível, que ninguém enxerga o gari até a semana em que
o lixo não é recolhido. É verdade. Só que quem tinha acabado de chamar a
profissão de coisa pobre era ele.
O detalhe que torna tudo pior
Ninguém na política brasileira transformou a própria escolaridade em credencial como Lula transformou. A biografia inteira é essa: o retirante que não passou do primário, que fez curso no Senai, que virou torneiro mecânico e perdeu um dedo na prensa antes dos vinte anos. Foi assim que ele se vendeu ao país por quatro décadas. O homem que não precisou de diploma para chegar ao Planalto.

































