terça-feira, 18 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] As lamentações de um poste revoltado

Aparecido Raimundo de Souza

“Eu sou um poste de luz. Ilumino tudo, até a incoerência dos insociáveis”.
Tompson de Panasco, morador de rua, atualmente na Estação Sé do Metrô, São Paulo.

CHEGA, BASTA! Estou no limite. Cansei de ficar aqui parado, ao lado desta praça em frente à matriz da paróquia de Santo Antão, ereto feito um varapau, com os braços cheios de fios e, ainda por cima, segurando uma lâmpada irritante (que fica o tempo todo piscando intermitentemente) sem mencionar um baita transformador chato prá burro, pesado com força, e mais degradante, o troço perto do meu coração. Não pensem, que por eu ser um simples poste de luz de praça, não tenha coração. Embora seja um ser inanimado, feito de cimento armado e areia, (esclarecendo que não ando armado, nem uso revolver nem tenho porte) é preciso que todos saibam que dou vida às coisas.

Levo alegria às famílias e aos lares. Não fosse por mim, a luz elétrica jamais chegaria até a sua casa ou nas dependências da igreja do padre Chinfrânio Quermesse. Quando uma pessoa aperta o interruptor, ou liga a tv, o rádio o aparelho de som, e o chuveiro quente, lá estou eu, levando o conforto, a comodidade e o bem-estar. O meu braço que sustenta a luminária me disse, outro dia, que está de saco cheio de todo santo dia olhar para baixo e ver sempre as mesmas coisas. Concordo com ela, em gênero, número e grau. 

Entretanto, devo deixar esclarecido, que essa luminária, não tem sentimento. Por clarear tudo, se acha melhor que todo mundo.

E o que dizer do meu caso? Os passantes me enfeitam com papeis coloridos. Virei, grosso modo, peça de circo. Faço anúncios de graça de vendas de produtos os mais diversificados, de animais de estimação desaparecidos, de cartomantes que operam milagres, de putas à caça de uma trepada inesquecível, e pasmem, não ganho um centavo nem para um café ali na padaria ao lado do prédio da Caixa Econômica. Mais humilhante é aguentar os pombos, os passarinhos, que chegam nos meus cornos e, de roldão, os cachorros e as cadelas que se abancam nos meus pés com a maior naturalidade, levantam as patas e mijam sem o menor constrangimento.

Quando não fazem coisa pior, tipo soltar o barro, dar aquela cagada descontrolada. Aí, é dose para elefante. Estou pensando, seriamente, (aproveitando as épocas eleitoreiras dos futuros ladrões em busca do poder) em conversar com o atual prefeito e fundar o Sindicato dos Postes Solitários, atrelado ao Serviço de Proteção aos Postes Desamparados. Dia desses, uma BMW veio pra cima da calçada, a toda velocidade, com um cara doido, ao volante. Filho do veado do juiz. Acho que o sujeito estava pra lá de Marrakech e, não contente em me atropelar repetiu a dose com uma velhinha que seguia em direção ao supermercado. Foi um estrondo que fez juntar metade da cidade.

O sujeito da BMW deu uma baita cacetada no meu pé. Filho da mãe! E não parou ai: o desgraçado acertou em cheio o meu calo de estimação. Fiquei torto, meio deitado de lado, quase fui beijar uma poça de água suja. Mas resisti firme o baque, a porrada.  Poste que é poste com “P maiúsculo”, não perde a pose, não dá o braço a torcer, não chora, nem entrega os pontos. Minha mágoa? Não apareceu nenhum filho de Deus, ninguém saiu no portão ou na janela para tentar me socorrer, ou para me levar ao hospital, ou no PA. Enfim, para me dar, sequer, algum tipo de assistência.

Não é trágico? Mais que isso, é humilhante e vexatório. Só quem está no meu lugar, parado dia e noite, sem poder coçar o saco, vinte e quatro horas, igualmente sem comer, beber, descansar ou dar uma namoradinha é que pode avaliar com precisão como é ser um objeto, ou melhor, uma coisa que todo mundo precisa para viver, mas que não lhe dá a mínima importância. Agora, além de tudo, careço de tolerar as piadinhas. Me definiram como um “troço grande, tipo um pau de vara tripa”, que fica o tempo todo no mesmo lugar, e de repente ao ver uma mulher nova, bonita e gostosa, bolino com a luz da luminária piscando intermitentemente. Posso com isso?

Engraçado: as pessoas são estranhas e quando falo em pessoas, generalizo todas. Sem exceção. Elas não entendem, não sabem que tudo o que existe é por uma razão pré-estabelecida no universo de todas as coisas. Eu sou um pobre e infeliz poste, um sofredor, um ser humano diferenciado dos demais. Todavia, cá entre nós, se ao menos alguém me visse com outros olhos... talvez eu não me sentisse apenas um ser inanimado segurando um transformador, com um amontoado de fios, sem falar, mas infelizmente repetindo, nos cachorros que passam e me fazem de banheiro.

Outro detalhe. Agora as empregadinhas das donas de casas próximas de onde vivo, ou melhor, de onde vegeto meus dias, resolveram jogar os sacos de lixos de suas respectivas casas onde trabalham, em meus pés. Por conta, suporto restos de festas, embalagens de miojo, garrafas quebradas, preservativos cobertos de sangue, e até um buquê de rosas murchas que alguém decidiu que não queria mais e enfiou no meio das imundícies. Um velhote teve a cara de pau de deixar uma televisão velha. Se ao menos eu pudesse ligar a geringonça e assistir as novelas... todos os dias, chegam dejetos, sujidades e mais tralhas e badulaques.

Com isso, as consequências de avolumam: ratos, baratas, formigas, lombrigas e outros seres de feições esquisitas sobem pelas minhas pernas, fustigam as minhas costas e barriga. Trepam em minhas partes sem melindres, não mencionando a porra da fedentina horrível deixada pelos rebotalhos alimentados por restos de comidas podres que as empregadas das madames depositam em minha pobre e degradante base todos os finais de tarde. Estou pedindo socorro.

Se de repente do nada, eu fosse derrubado por um vendaval, atirado às rés do chão, ou deitado à Terra pela prefeitura, poderia deixar de ser uma geringonça inútil somente para recepcionar os mais variados monturos de inutilidades.

Quem sabe servir de banco (seria uma boa, sem sombra de dúvidas) e, como tal, receber as pererecas, as bundas e as bundinhas das mais variadas figuras, bem ainda os “sentadores fundilhados” dos namorados apaixonados, das velhinhas fofoqueiras, dos mentirosos, dos contadores de histórias... obviamente, como banco deitado, esticado e encompridado, esse evento me daria um prazer enormemente grande e por que não, um delirar majestoso e sobejamente incomensurável? Pois é!      

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, capital, 18-8-2026 

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