sexta-feira, 28 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Esses outros “medos” que me perseguem

Aparecido Raimundo de Souza

DECIDIDAMENTE, cheguei à cruel e insólita conclusão que eles não têm rosto, não têm voz. Não têm forma humana definidamente conhecida. Apesar disso, estão sempre aqui, colado ao meu lado, caminhando comigo, ombro a ombro, como pulgas num cachorro adoentado, como um câncer raro estropiando um corpo saudável, ou dito de forma mais clara, tipo uma sombra espúria e negra, que o sol, por mais bonito que seja, nunca consegue afastar por completo. Chegam, esses “Medos malévolos”, como sempre, de mansinho, sem dar sinais de presença. Não batem na porta, não tocam a campainha, e sem que eu queira, se instalam no meu peito na raça, se desfraldam como hóspedes indesejados que nunca pensam em ir embora.

Há em mim um outro “Medo”, ou melhor, um “Medo paralelo” com o semblante ameno, sociável, cortês, hospitaleiro, e lhano, me mostrando que eu não fui suficiente. Ou dito de outra forma, de não ter sido capaz o bastante. Mas me acolhe. Me abraça, me aquece. Não é o mesmo “Medo” de ter chegado até aqui e, no fim, me descobrir incapaz ou inapto ou pior, o de me pegar “abestalhadamente” beócio e atônito, pelo fato de que durante toda a minha vida errônea não fiz o bastante, não amei o suficiente, ou que não vivi em nenhum momento vendo a vida por uma visão mais amena e cálida. Apesar disso, esse “Medo bom”, me bota pra cima, me enaltece e me acalma. Me tranquiliza.

Esse meu “Medo bom” e acessível, aparece quando o silêncio se alonga, quando olho para trás e vejo caminhos diferenciados que não tomei, palavras adocicadas que não disse, abraços que não troquei com as pessoas que faziam parte ativa do meu “eu” diário.  Nessas horas amargas e difíceis, esses “Outros Medos” os fétidos e devassos, caem matando, enquanto o meu “Medo bom” e sublime me chama a atenção o tempo todo: 

— Aparecido, tenha calma. Acredite, olhe para cima. Pense em Deus. Sua paz chegará o mais rápido que possa imaginar...

Os outros “Medos”, os desafortunados da sorte aproveitam esse meu estado de fraqueza com incidência emocional para aquele buraco maior e mais complexo notadamente o de perder realmente quem verdadeiramente dentro do meu coração eu amo. De um dia à frente, acordar e perceber que alguém partiu, que a presença dos que faziam parte do meu cotidiano virou lembrança, que o som da voz dessas criaturas se calou para sempre. Esse é o mais silencioso e o mais doloroso dos meus “outros medos”. Eles se escondem atrás de cada despedida, se engrandecem em cada noite que cai, criam uma espécie de vida paralela a cada vez que o telefone demora a tocar.

Me faz abraçar mais forte o meu passado, mas também me leva a tremer por dentro, sabendo que não posso segurar ninguém para sempre dentro do meu mundinho de merda. Meu “Medo bom”, acredito, não tem a intranquilidade amuada de ficar aprisionado. Sei que ele é forte, ou pelo menos a mim dessa forma poderosa me mostra um novo porvir. Isso às vezes é bom, mas, em paralelo, o fato de me sentir que não sou visto, não sou ouvido, me leva às raias da loucura neurastênica. De roldão, vem esses “medos” ignóbeis e assustadores de me deixar caminhar pela vida e largar em meu chão apenas pegadas que o vento não apagará logo em seguida. Igualmente tenho medo, obviamente, de chegar ao fim e descobrir na hora do derradeiro final “que ninguém sentiu a minha falta.

E esse meu “Medo bom” então se faz gigantesco, se agiganta, se perpetua, tendo em vista o desassossego agitado e desinquieto de não conseguir segurar as minhas perturbações e sobressaltos. De olhar para a estrada à frente e sentir que a caminhada é longa demais, pesada em excesso, íngreme e tormentosa além de cheia de intervenções supliciosas que, em algum lugar dessa jornada, me assustará de forma tenebrosa. De me fazer acreditar que não tenho forças hercúleas para me levantar no próximo amanhã e que os problemas vindouros se farão maiores do que eu, da mesma forma que me farão titubear e apostam, esses medos, entre si, que cairei ao chão, antes de chegar onde realmente quero. Esses “medos diabólicos” insistem em sussurrar aos pés dos meus ouvidos:

— Cara, desista dos seus intentos, você não vai conseguir. Entregue os pontos.

Esses medos me perseguem diuturnamente. O meu “Medo bom” e plausível, luta, peleja, não desonra aos objetivos a que veio. Meus medos esquizofrênicos, correm ao meu lado, às vezes à frente, às vezes atrás. E o meu “Medo bom”, sempre cuidadoso e gentil, esbraveja, me chama para a realidade:

— Tenha calma, tenha fé, tenha confiança... tudo se ajeitará para melhor... 

Entre tapas e beijos, porradas e beliscões, aprendi algo deveras importante. Eles, os “Medos infames”, correm e eu também. Não sou mais quem foge deles, tampouco sou quem deixa que eles parem a minha caminhada. Aprendi, no mesmo passo, que a coragem não é a ausência de medo, mas a certeza pujante de seguir em frente a cabeça erguida, ainda que com todas as forças contrárias apertando os dilaceramentos do meu íntimo mais profundo.

Hoje, ainda agora, eles os “Medos ruins”, os vindos do mais longínquo inferno, ainda me perseguem. Mas eu não paro. E a cada passo que dou, percebo algo que eles tentam esconder: quanto mais eu caminho, menor eles ficam. E quanto mais eu vivo, mais eu descubro que apesar de todos os meus flagelos e agonias, suplícios e judiações, dolências e açoites, eu sou maior do que qualquer um deles.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, no Espírito Santo, 28-8-2026

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