Embaixada brasileira em Havana afirma acompanhar o caso, mas não faz qualquer esforço pelo brasileiro
Allan Dos Santos
Marcelo Scampini está em prisão preventiva e responde a processo por espionagem. Documento cubano obtido pela Timeline prevê penas que podem chegar à prisão perpétua ou, em tese, à morte.
Um cidadão brasileiro está preso em
Cuba e é investigado pelas autoridades do regime por espionagem, em um processo
mantido integralmente sob sigilo e que envolve, segundo seu advogado,
equipamentos eletrônicos utilizados para captar sinais nas proximidades de
instalações consideradas estratégicas.
Documentos obtidos com exclusividade
pela Revista Timeline identificam o brasileiro como Marcelo Scampini e mostram
que o processo tramita sob o número PN260302100257. O contrato oficial de
serviços jurídicos emitido pela Organización Nacional de Bufetes Colectivos
(ONBC), estrutura à qual pertencem os advogados cubanos, registra expressamente
como assunto: “ESPIONAJE, ART. 116.1.2.3.4.6”.
O mesmo documento classifica Scampini
como “imputado, acusado o sancionado” e informa que o caso está vinculado à
unidade de investigação da PNR de Villa Marista, em Havana.
Villa Marista não é um endereço
qualquer dentro do sistema cubano: é historicamente associada aos órgãos de
Segurança do Estado.
A Timeline teve acesso também a uma
extensa manifestação escrita do advogado cubano Manuel Alejandro Alonso Díaz,
contratado pela família para representar Scampini.
E é nesse documento que aparecem os
elementos mais graves do caso.
O que Marcelo teria admitido
Segundo Alonso Díaz, o processo está submetido à chamada “reserva del examen de las actuaciones”, mecanismo que mantém secreta a investigação. O próprio advogado afirma não ter acesso ao conjunto do inquérito.
Por isso, ressalva que as informações
conhecidas até agora derivam principalmente do que lhe foi relatado pelo
próprio Scampini e pelas autoridades cubanas.
De acordo com o advogado, Marcelo
reconheceu que estava em posse de um telefone celular com tecnologia capaz de
captar sinais radiofônicos e/ou radioeletrônicos, além de uma laptop que teria
sido entregue para finalidade semelhante.
O relato vai além.
Segundo a manifestação da defesa,
Scampini teria declarado que equipamentos dessa natureza lhe foram fornecidos
em diferentes ocasiões desde 2019 até sua viagem mais recente a Cuba.
O advogado escreve que os aparelhos
teriam sido entregues inicialmente por uma pessoa chamada “Fred” ou,
posteriormente, por um indivíduo que Marcelo acreditava ser norte-americano.
Ainda segundo a versão registrada pelo
defensor, Scampini recebia orientação para se hospedar em locais próximos a
“edificios y embajadas de interés estratégico”, mencionando especificamente:
“China, Rusia, etc.”
O advogado afirma ainda que Marcelo
teria reconhecido a realização dessa atividade e o recebimento de
aproximadamente US$ 2 mil ou US$ 3 mil, além das despesas de viagem e
hospedagem.
Esses pontos são particularmente
importantes: não representam ainda fatos provados em julgamento. São a
descrição feita pelo advogado sobre aquilo que seu cliente teria declarado
durante a investigação.
E existe uma diferença decisiva entre
executar determinada atividade e saber que ela integrava uma operação de
espionagem.
É justamente nessa diferença que a
defesa pretende concentrar sua estratégia.
Defesa diz que brasileiro não sabia o
que estava fazendo
O advogado afirma que Scampini
reconhece ter realizado determinadas atividades, mas sustenta que o brasileiro
não conhecia a verdadeira finalidade delas nem para quem trabalhava.
“Ele reconhece ter feito alguma
coisa, mas sem conhecer o alcance do que estava fazendo e, muito menos, para
quem estava fazendo”, afirmou o advogado.
A estratégia, explica Alonso Díaz,
consiste em afastar a existência de dolo direto — isto é, tentar demonstrar que
Marcelo não sabia que participava conscientemente de uma atividade de
espionagem.
A própria defesa chama atenção para um
detalhe da declaração.
Scampini teria dito que, durante
passagem pelo aeroporto do Panamá, encontrou um homem que acreditava ser
norte-americano e que lhe teria entregue equipamentos e dinheiro para a viagem
mais recente.
O advogado questionou o cliente sobre
como sabia a nacionalidade daquele homem: se havia visto seu passaporte ou se o
próprio indivíduo havia dito ser americano.
Segundo Alonso Díaz, Marcelo respondeu
negativamente.
Para a defesa, portanto, até mesmo a
nacionalidade dessa pessoa permanece sem comprovação.
Isso impede, neste momento, qualquer
conclusão responsável sobre quem eventualmente estaria por trás da atividade.
Não há, nos documentos obtidos pela
Timeline, prova que permita afirmar que Scampini trabalhava para o governo dos
Estados Unidos, para alguma agência de inteligência estrangeira ou sequer que
soubesse quem era o destinatário final das informações supostamente coletadas.
Investigação inteira está sob segredo
Outro elemento incomum é o grau de
sigilo.
O advogado afirma repetidamente que
todo o expediente está secreto, por determinação da Fiscalía General de la
República, citando o artigo 176 da Lei do Processo Penal cubana.
Isso significa que nem mesmo a defesa
conhece, neste estágio, a totalidade das provas reunidas contra Scampini.
Alonso Díaz diz trabalhar praticamente
“às cegas” e depender das informações fornecidas pelo próprio preso e pela
família.
O defensor acredita que as autoridades
estejam submetendo os equipamentos apreendidos a perícia e reconstruindo as
viagens anteriores de Marcelo a Cuba.
Entre as diligências que ele considera
prováveis estão a verificação das entradas e saídas do país, identificação dos
lugares onde o brasileiro se hospedou e depoimentos de proprietários ou
responsáveis pelas acomodações.
O advogado considera os equipamentos
eletrônicos potencialmente centrais para a futura tese da acusação.
Prisão pode se prolongar
Segundo a defesa, Scampini permanece
submetido à prisão preventiva.
O advogado explica à família que, no
sistema cubano, essa medida não possui necessariamente um prazo determinado
semelhante ao encontrado em outros ordenamentos.
Questionado sobre a possibilidade de
pedir a liberdade provisória, ele responde que a hipótese existe juridicamente,
mas considera que fazê-lo agora seria pouco realista diante da gravidade da
imputação e do risco de fuga que provavelmente seria invocado pela acusação.
Também não existe data marcada para
julgamento.
A estimativa do defensor é que um
processo dessa natureza possa levar “não menos de um ano”, embora reconheça que
a duração dependerá da extensão das perícias e demais diligências.
Advogado menciona pena de 10 a 30
anos, perpétua ou morte
É neste ponto que o documento assume
sua dimensão mais dramática.
Ao responder à família sobre os riscos
jurídicos enfrentados pelo brasileiro, Alonso Díaz afirma que o delito
investigado está sujeito, segundo o artigo 116 do Código Penal cubano, a
sanções de:
10 a 30 anos de prisão, prisão
perpétua ou pena de morte.
Quando a família pergunta qual seria o
“pior cenário possível”, o advogado responde sem rodeios: “o pior cenário
possível seria a pena de morte.”
Ele próprio, porém, imediatamente
relativiza essa possibilidade prática.
Segundo o defensor, embora a pena
capital continue prevista na legislação cubana para determinadas infrações
extremamente graves, Cuba mantém há muitos anos uma moratória de fato sobre sua
aplicação. Por isso, diz considerar “impensável” que esse seja o desfecho do
caso de Marcelo.
A referência à pena de morte,
portanto, deve ser compreendida como possibilidade prevista no enquadramento
legal descrito pelo advogado, e não como indicação de que a Promotoria cubana
tenha pedido ou pretenda pedir essa pena.
O fator político
Há ainda uma passagem particularmente
reveladora.
Perguntado sobre o cenário mais
provável para o brasileiro, o advogado diz ser impossível fazer uma previsão
porque, em um delito dessa natureza, não entram em jogo apenas questões
jurídicas.
Segundo ele: “Entram em jogo fatores
de natureza estatal e política que poderiam levar a outros cenários.”
E conclui: “Em um assunto dessa
natureza, qualquer cenário é possível.”
A declaração ajuda a explicar outra
informação contida nos documentos obtidos pela Timeline.
Em mensagem enviada à Embaixada
brasileira em Havana, um familiar de Scampini relata que, após conversar com o
advogado, ouviu que “a melhor saída será a política e não a judicial”.
O familiar pede então auxílio ao
governo brasileiro, que até agora nada fez pelo brasileiro.
Itamaraty reconhece “extrema
gravidade”
A resposta veio do setor de Assistência
Consular da Embaixada do Brasil em Havana, em mensagem datada de 28 de julho de
2026.
No e-mail, cuja imagem foi obtida pela
Timeline, a representação brasileira afirma:
“Temos presente, desde o primeiro
momento, a extrema gravidade do caso.”
A Embaixada acrescenta que continuará
prestando assistência consular a Marcelo, procurando resguardar sua integridade
e a observância de seus direitos de acordo com o ordenamento jurídico cubano.
A representação diplomática também
orienta que demandas que ultrapassem a esfera estritamente consular sejam
encaminhadas formalmente ao Ministério das Relações Exteriores em Brasília.
A mensagem é significativa porque
constitui uma confirmação documental de que o governo brasileiro conhece e
acompanha o caso.
Ela não significa, entretanto, que o
Itamaraty concorde com a acusação de espionagem ou com a versão apresentada
pelas autoridades cubanas.
Família preparou dossiê
Outra correspondência obtida pela
Timeline mostra que familiares estavam preparando no Brasil um dossiê sobre a
vida de Scampini.
O material incluiria documentos sobre
profissão, renda, extratos bancários, fotografias familiares e registros com
amigos.
O objetivo coincide exatamente com a
orientação posteriormente detalhada pelo advogado: construir elementos que
demonstrem a vida profissional e pessoal do acusado, a inexistência de
antecedentes criminais e, sobretudo, sustentem a tese de que ele não possuía conhecimento
sobre a real dimensão da atividade que executava.
O defensor pediu, inclusive,
antecedentes criminais brasileiros traduzidos e documentos capazes de
demonstrar a ocupação profissional de Marcelo.
Um personagem ainda não explicado
Os documentos também introduzem um
personagem cuja identidade e papel permanecem obscuros.
O advogado refere-se repetidamente a
alguém chamado apenas de “Fred”.
Segundo a manifestação, Marcelo teria
dito que Fred participou inicialmente do fornecimento dos equipamentos.
O defensor chega a afirmar à família
que Fred poderia ser uma pessoa importante para compreender o caso:
“evidentemente Fred sabe o que está
ocorrendo.”
O documento não fornece sobrenome,
nacionalidade ou qualquer elemento suficiente para identificar esse indivíduo.
Por essa razão, qualquer tentativa de
atribuir uma identidade a “Fred” neste momento seria especulativa.
Contrato confirma formalmente a
acusação
Independentemente das declarações do
advogado, existe um documento cubano que estabelece um ponto objetivo.
O contrato de representação jurídica
da ONBC, datado de 29 de junho de 2026, identifica formalmente:
“ASUNTO: PN.079.006 - T4CFP -
ESPIONAJE, ART. 116.1.2.3.4.6.”
O documento designa Manuel Alejandro
Alonso Díaz como advogado e registra Marcelo Scampini como cliente brasileiro.
Também estabelece honorários de US$ 6.240, calculados inicialmente sobre 40
horas de trabalho a US$ 156 por hora.
O contrato informa ainda que o
defensor deverá representar o acusado perante o órgão de Delitos contra la
Seguridad del Estado.
Esse é, até aqui, o elemento
documental mais direto de que o brasileiro não enfrenta uma acusação criminal
ordinária: seu caso está formalmente enquadrado pelas autoridades cubanas como
espionagem e segurança do Estado.
O que ainda não sabemos
Há perguntas fundamentais sem
resposta.
A Timeline ainda não teve acesso ao
expediente criminal, à perícia dos equipamentos, à acusação integral da
Fiscalía nem às provas técnicas que sustentariam a imputação.
Também não está estabelecido
documentalmente quem teria contratado Marcelo, qual seria o destino dos dados
supostamente captados, que informações efetivamente foram coletadas, se
chegaram a ser transmitidas a terceiros ou se alguma organização ou governo
estrangeiro estava envolvido.
E existe outra questão central: o que
exatamente os equipamentos apreendidos faziam?
A afirmação de que um celular e uma
laptop seriam capazes de captar sinais radiofônicos ou radioeletrônicos aparece
no relato do advogado sobre a investigação. Sem acesso aos aparelhos e às
perícias, não é possível determinar tecnicamente sua capacidade, configuração
ou utilização.
Um brasileiro está preso em Cuba,
responde formalmente a um processo por espionagem contra a Segurança do Estado,
e sua própria defesa relata que ele admitiu ter recebido dinheiro, viagens e
equipamentos para realizar atividades nas proximidades de instalações
estratégicas, embora sustente que desconhecia a verdadeira finalidade da
operação.
Ela chega ao Itamaraty — que já
reconheceu por escrito a “extrema gravidade do caso” — e pode transformar-se em
um problema diplomático para Brasília.
A Revista Timeline procurará o
Ministério das Relações Exteriores para saber desde quando o governo brasileiro
acompanha a prisão, quantas visitas consulares foram realizadas, qual é a
situação atual de Scampini e se Brasília iniciou tratativas políticas com
Havana. O espaço permanece aberto para manifestação das autoridades
brasileiras, da defesa e da família.
NOTA — Pressão dos Estados Unidos
sobre Cuba
O caso de Marcelo Scampini ocorre em
meio a uma nova ofensiva diplomática dos Estados Unidos contra o regime cubano
por causa da situação dos presos políticos na ilha.
Washington vem exigindo a libertação
de mais de 700 presos políticos mantidos em Cuba.
O secretário de Estado americano,
Marco Rubio, também celebrou recentemente a chegada a Miami do artista e
dissidente cubano Luis Manuel Otero Alcántara, uma das figuras mais conhecidas
da oposição ao regime.
Otero Alcántara passou anos preso em
Cuba após sua atuação no Movimiento San Isidro, coletivo de artistas e
ativistas que se tornou símbolo da contestação ao governo cubano. Sua prisão foi
denunciada internacionalmente por organizações de direitos humanos.
O artista deixou a prisão e chegou aos
Estados Unidos após aceitar o exílio, decisão que lhe permite continuar seu
trabalho artístico e sua atuação fora de Cuba.
A posição de Washington é de que a
libertação de Otero Alcántara não encerra a questão. O governo americano
continua cobrando de Havana a libertação dos mais de 700 presos políticos que,
segundo os Estados Unidos, permanecem detidos na ilha.
Título, Imagem e Texto, Allan dos
Santos, Timeline,
8-8-2028
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