Em 48 horas, a Casas Bahia apagou 298 endereços do mapa e mandou 1,9 mil pessoas para casa. O que veio depois é pior
Rogerio Pires
Em Ponta Grossa, no Paraná, os
31 funcionários de uma loja da Casas Bahia na Avenida Doutor Vicente Machado
foram orientados a comparecer às 7h30 desta sexta-feira. Chegaram no horário.
Uniforme, crachá, café tomado em casa, a rotina de sempre. A loja não abriu
mais.
A mesma cena se repetiu em
cidades do Paraná, da Bahia, de Pernambuco, do Mato Grosso do Sul. Em alguns
pontos, um cartaz colado na porta avisava apenas que não haveria expediente.
Imagine perder o emprego
dentro de uma casa que já está endividada. Agora pare de imaginar. É o que
aconteceu com milhares de brasileiros nas últimas 48 horas.
O número que a empresa não
quis comentar
A Casas Bahia fechou 298 lojas
entre quinta e sexta-feira, segundo apuração do Valor Econômico. São 28,7% de
toda a rede física da companhia no país, que tinha pouco mais de mil unidades.
Cerca de 1,9 mil pessoas foram demitidas: 600 na quinta, entre 1,3 mil e 1,4
mil na sexta. Pelo relato do jornal, o total pode chegar a 3 mil.
Para dar dimensão do choque:
nas gestões anteriores, a empresa fechava de 20 a 30 lojas por ano. Nos doze
meses até março, o grupo tinha encolhido em 26 unidades no saldo entre
aberturas e fechamentos. Agora foram 298 em dois dias.
A companhia vem de prejuízo de
quase R$ 1,1 bilhão só no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro da perda
do mesmo período do ano anterior, depois de fechar 2025 com cerca de R$ 3
bilhões no vermelho. Passou por recuperação extrajudicial em 2024 para
renegociar cerca de R$ 4 bilhões em obrigações. Procurada pela imprensa, não se
manifestou até a publicação das reportagens.
E não é um caso isolado.
A fila
O Grupo Mateus, terceira maior
rede de varejo alimentar do país, fechou 28 lojas e cortou 6.673 postos de
trabalho entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026. O quadro caiu de 47,9 mil
para 41,2 mil funcionários, quase 14% da força de trabalho, concentrado no
Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia. Tudo isso em uma empresa que
faturou R$ 43,5 bilhões em 2025.
A CVC fechou o segundo
trimestre com prejuízo contábil de R$ 72,5 milhões, alta de 56,2% sobre o mesmo
período do ano passado, com receita em queda e uma reorganização que já
eliminou três vice-presidências e produziu custos de rescisão que a própria empresa
detalhou no balanço.
A Raízen, gigante do etanol e
dos combustíveis, registrou prejuízo de R$ 1,64 bilhão no trimestre encerrado
em junho e fechou o período com dívida líquida de R$ 56,87 bilhões, 15,5% maior
do que um ano antes. A empresa está em recuperação extrajudicial. Nos
trimestres anteriores, os números foram ainda mais duros: R$ 15,6 bilhões de
prejuízo entre outubro e dezembro, R$ 7,3 bilhões no trimestre seguinte, com
rebaixamentos de rating pelas três principais agências.
A Estrela, a fábrica de
brinquedos que atravessou gerações com o Banco Imobiliário, o Autorama e o
Genius, entrou em recuperação judicial em maio, com dívida de R$ 115 milhões e
prejuízos acumulados acima de R$ 660 milhões. No pedido, a empresa registrou
que o quadro de funcionários caiu de cerca de 10 mil, no auge dos anos 1980,
para 1,5 mil hoje. A própria petição chama a redução de “medida extrema, porém
indispensável”.
A Americanas segue em
recuperação judicial. A Oi está na segunda. Só a Serede, braço de serviços da
Oi, foi à falência deixando 4,8 mil demitidos.
O recorde que ninguém
comemora
Nada disso é obra do acaso, e
os números macro provam.
Em 2025, o Brasil registrou o
maior número de empresas em recuperação judicial da série histórica da Serasa
Experian: 2.466 CNPJs envolvidos, alta de 13% sobre 2024. Foram 977 processos,
o maior volume desde 2016. E aqui mora o detalhe que arrepia: em 2016, no auge
da recessão, os processos envolveram 1.738 empresas. Agora envolvem 2.466. Há
mais empresas em apuros hoje do que na pior crise da última década, sem que
ninguém tenha decretado recessão.
Em janeiro de 2026 havia 8,7
milhões de CNPJs negativados no país, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de
sete restrições por empresa inadimplente. Inadimplência, historicamente, é o
prelúdio da recuperação judicial. Nos primeiros três meses deste ano, só no
agronegócio, foram 474 pedidos, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025.
Do outro lado do balcão, a
situação das famílias é gêmea. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras
declararam ter algum tipo de dívida, o maior percentual de toda a série da
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, iniciada em
2010. Foi o sexto mês seguido de alta. Entre as famílias que ganham até três
salários mínimos, quase quatro em cada dez já estão com contas em atraso. O
cartão de crédito é o vilão citado por 84,6% dos endividados, com rotativo que
passa de 400% ao ano.
Duas curvas subindo juntas.
Empresas quebrando e famílias se endividando. Elas se encontram exatamente na
porta de uma loja que não abriu.
De quem é a conta
As empresas apontam o mesmo
conjunto de causas: juros elevados por tempo prolongado, crédito seletivo,
custo do dinheiro, consumo fraco. Cada setor tem sua particularidade, e é
honesto reconhecer. A CVC apanhou da alta de 52,4% nas tarifas aéreas em doze
meses. A Raízen apanhou do preço do açúcar e do clima. A Estrela apanhou da
concorrência chinesa e dos jogos digitais. O varejo físico apanha do comércio
eletrônico há uma década.
Mas há um denominador comum, e
eu considero que ele não pode ser varrido para debaixo do tapete: o custo do
dinheiro no Brasil é uma escolha, não um fenômeno meteorológico. Juros altos
por tempo prolongado são a resposta clássica a um governo que gasta mais do que
arrecada e joga a conta do desequilíbrio fiscal para o Banco Central resolver
sozinho. Quem paga essa fatura não é o Planalto. É o dono do pequeno comércio
que não consegue rolar a dívida, é a rede de varejo que fecha 298 pontos de uma
vez, é o trabalhador que chega às 7h30 e encontra a porta trancada.
O que fica
Por trás de cada porta fechada
existe alguém voltando para casa sem saber como vai pagar as contas de
setembro.
Existe a mãe que ia começar a
pagar o material escolar em outubro. Existe o pai que acabou de financiar a
geladeira em doze vezes. Existe o rapaz de 22 anos que estava no primeiro
emprego com carteira assinada e agora vai bater na porta de uma loja que também
está fechando.
O barulho mais assustador da
economia brasileira hoje não vem da Faria Lima nem do plenário do Congresso.
Vem da grade de metal descendo pela última vez numa loja de bairro, às sete e
meia da manhã, diante de 31 pessoas de uniforme que não sabiam de nada.
Isso não é só economia. São
famílias. São vidas. E são números que o governo precisa explicar.
Compartilhe este texto. Porque
por trás de cada emprego perdido existe uma família lutando para não perder
também a esperança.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
15-8-2026
Rogerio Pires é professor,
pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na
área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de
Janeiro.

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