Aparecido Raimundo de Souza
Falo
daquele fogo, que se constituía em minha alegria, no meu motivo, ou mais claro ainda,
na certeza de que o bem imarcescível existia e não só existia, permanecia.
A chama se
moldava plena. Brilhava nos dias comuns e nos dias de festa. Se fazia presente
em cada risada, em cada abraço, em cada palavra dita com carinho e respingos de
afeto. Parecia que nunca se apagaria, que a lenha nunca faltaria, que o vento
sempre seria brando e que aquele brilho se constituiria na luz eterna dos meus
dias num para sempre infindável. Eu vivia também naquela chama uma recepção sem
medo, sem desconfiança, sem ao menos imaginar que o fogo, um dia, poderia
findar.
De fato. O
tempo passou e as coisas foram para o beleléu. Se repaginaram da água para o
vinho. A lenha posta à queima, acabou aos poucos, sem que eu percebesse. A
brasa impetuosa, que antes se mostrava alta e forte, se quedou minguada, foi
decaindo, afundando, estuporando, perdendo o brilho, perdendo a grandiosidade
do calor.
Até que,
sem alarde, sem grande estrondo, se apagou. Deixou de ser fogo e se tornou apenas
num punhado de cinzas.
Cinzas
frias, leves, sem calor, sem brilho, sem vida. Por conta disso, do nada,
inesperadamente, o vento veio não sei bem de onde, mas veio. Chegou de
mansinho, se abancou sem pressa, sem dizer “oi” sem pedir licença, sem sequer
rugir.
E, soprando devagar, levou aquelas cinzas para longe. Carregou tudo o que restou da frágua ensandecida e da intrepidez incandescente. Levou para além dos meus olhos, que hoje já não brilham como antes, e apenas enxergam o mundo esmaecido, sem cor, sem calor, sem as cores espalhafatosas da vida que outrora se fazia imensurável.
O fogo
agora está morto. O que foi feliz, foi. E hoje resta apenas o silêncio
sepulcral e taciturno, onde um dia houve fogo e chama, chama e fogo de
excitação escaldante. Em seu lugar pintou uma saudade que dói, que machuca, que
fere, que amedronta, porque eu sei que aquelas cinzas, levadas pelo vento,
jamais voltarão a ser fogo. Ficou no ar a indagação: o que me restou de tudo?
Quase nada!
Somente o
esperar, um esperar como disse Moacir Franco. “Esperar, sem saber ao certo o
que me aguardava. E, em pleno céu que se espraiou por sobre minha cabeça, por
conta disso, bailou no ar, pairando indefinidamente umas perguntinhas sem
respostas. Quanto tempo faltava para o meu encerramento? Quantas vezes mais eu
abrirei os meus olhos e verei o sol voltar? Quantas manhãs ainda trarei comigo
a felicidade plena que ainda me abraça antes de chegar a última, ou seja,
aquela derradeira em que não haverá mais espaço para eu caminhar? Aprendi uma
coisa importante nesses anos de chamas e cinzas: o tempo não corre com pressa,
nem nos abandona de uma vez.
Ele para.
Estanca, freia, dá um tempo, se abarranca, se obstrui. Grosso modo, ele freia
de repente e espera a gente passar. Faz isso com uma paciência que assusta,
tipo assim, como quem fica de pé à porta, vendo a casa esvaziar, sem chamar
ninguém, sem apressar o passo. O tempo não me diz quantos dias ainda estão
guardados. Não há relógio que marque a hora de minha vida sair de cena. O que
sei de concreto é que cada um que amanhece é tipo o sabor gostoso de um
presente inesperado que chega calado, na surdina, meio triste, como se já
soubesse que o fogo aqui dentro de peito já não aquece como antes. O tempo
espera que a gente passe?
Sim. Mas o
que eu não consigo entender é: quando será que ele irá me esperar do outro lado,
onde não haverá mais cinzas, nem ventos, nem contagem de dias? Até lá, eu fico
aqui, sofrendo, esperando. Como quem sabe que o fim é caminho, não parada. O
que me resta, mudando de pau pra cavaco, o que me resta de tudo isso? Meu Deus,
quanto tempo me falta?
Quantas
vezes mais eu vou abrir os olhos e ver o dia nascer? Quantas manhãs ainda vão
me encontrar aqui antes de chegar a última, a póstuma em que eu não mais
despertarei? Aprendi, com a vida que passou e com a labareda que se apagou, que
o tempo não corre. Ele para. Ele para e fica ali, de olho, de butuca, as
antenas ligadas, esperando a gente passar.
Não nos
empurra, não nos avisa. Só espera, quieto, tranquilo, com a paciência de Jó
como quem fica à porta da casa vendo os cômodos sendo esvaziados. Não me dizem
quantos dias ainda tenho. Ninguém sabe. O relógio não marca a hora exata de
parar. Só sei que o fogo que um dia ardeu forte hoje é cinza fria, e o vento já
levou tudo para onde meus esbugalhos não alcançam.
Mas o danado
do tempo continua ali, segue parado, espiando, olhando e esperando. Esperando,
logicamente, eu passar. Um dia vou, de fato, passar de vez. E o que foi chama,
o que foi riso, o que foi vida, vai ficar só na memória de quem também um dia
há de passar ou via outra, já passou. O que me resta de tudo?
Nada. Só
esperar. Por Deus, quanto tempo falta para o meu encerramento? Quantas vezes
mais amanhecerei? Conscientizei nesse caminho sem sombra e concluí que nesse
mato sem cachorro, aprendi que o tempo para e espera a gente passar. Mas, ainda
assim, a indagação persiste: terei tempo de pedir perdão aos que magoei?
Terei tempo
de implorar pela clemencia dos meus filhos e netos que em tempos idos os
abandonei a própria sorte? Terei a graça de igualmente pedir perdão às
“muitas-ex-minhas-mulheres” que passaram pela minha vida? As que de alguma
forma fiz mal, as que magoei?
Ou, via
outra, o tempo já está acabando, e o perdão também já foi levado para longe,
carregado para além da minha visão esmaecida e sem vida? O tempo espera a gente
passar. Entretanto, será que ele me dará alguns minutos a mais até eu conseguir
dizer para todos que cruzaram os meus caminhos: me perdoem?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), em Brasília, Distrito Federal, 14-8-2026
Anteriores:Quando o assim do nada, o “meu tudo” se engrandeceu
Ficou em mim uma ausência que nunca foi embora
Havia um sol naquele céu...
O amor quando é eterno, cabe nos dias pequenos
Se eu pudesse voltar no meu tempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-