sexta-feira, 14 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Fogo morto

Aparecido Raimundo de Souza

HOUVE UM TEMPO lindo, um tempo majestoso em minha vida onde cada segundo vivido, parecia pegar força e alento e se transformar em fogo. Não o que queima e destrói, mas aquela chama suave, quente e constante que brilhava nos olhos de quem amava e que aquecia cada canto da casa, que fazia o tempo parecer mais lento e o mundo mais simpaticamente bonito.

Falo daquele fogo, que se constituía em minha alegria, no meu motivo, ou mais claro ainda, na certeza de que o bem imarcescível existia e não só existia, permanecia.

A chama se moldava plena. Brilhava nos dias comuns e nos dias de festa. Se fazia presente em cada risada, em cada abraço, em cada palavra dita com carinho e respingos de afeto. Parecia que nunca se apagaria, que a lenha nunca faltaria, que o vento sempre seria brando e que aquele brilho se constituiria na luz eterna dos meus dias num para sempre infindável. Eu vivia também naquela chama uma recepção sem medo, sem desconfiança, sem ao menos imaginar que o fogo, um dia, poderia findar.

De fato. O tempo passou e as coisas foram para o beleléu. Se repaginaram da água para o vinho. A lenha posta à queima, acabou aos poucos, sem que eu percebesse. A brasa impetuosa, que antes se mostrava alta e forte, se quedou minguada, foi decaindo, afundando, estuporando, perdendo o brilho, perdendo a grandiosidade do calor.

Até que, sem alarde, sem grande estrondo, se apagou. Deixou de ser fogo e se tornou apenas num punhado de cinzas.

Cinzas frias, leves, sem calor, sem brilho, sem vida. Por conta disso, do nada, inesperadamente, o vento veio não sei bem de onde, mas veio. Chegou de mansinho, se abancou sem pressa, sem dizer “oi” sem pedir licença, sem sequer rugir.

E, soprando devagar, levou aquelas cinzas para longe. Carregou tudo o que restou da frágua ensandecida e da intrepidez incandescente. Levou para além dos meus olhos, que hoje já não brilham como antes, e apenas enxergam o mundo esmaecido, sem cor, sem calor, sem as cores espalhafatosas da vida que outrora se fazia imensurável.

O fogo agora está morto. O que foi feliz, foi. E hoje resta apenas o silêncio sepulcral e taciturno, onde um dia houve fogo e chama, chama e fogo de excitação escaldante. Em seu lugar pintou uma saudade que dói, que machuca, que fere, que amedronta, porque eu sei que aquelas cinzas, levadas pelo vento, jamais voltarão a ser fogo. Ficou no ar a indagação: o que me restou de tudo? Quase nada!

Somente o esperar, um esperar como disse Moacir Franco. “Esperar, sem saber ao certo o que me aguardava. E, em pleno céu que se espraiou por sobre minha cabeça, por conta disso, bailou no ar, pairando indefinidamente umas perguntinhas sem respostas. Quanto tempo faltava para o meu encerramento? Quantas vezes mais eu abrirei os meus olhos e verei o sol voltar? Quantas manhãs ainda trarei comigo a felicidade plena que ainda me abraça antes de chegar a última, ou seja, aquela derradeira em que não haverá mais espaço para eu caminhar? Aprendi uma coisa importante nesses anos de chamas e cinzas: o tempo não corre com pressa, nem nos abandona de uma vez.

Ele para. Estanca, freia, dá um tempo, se abarranca, se obstrui. Grosso modo, ele freia de repente e espera a gente passar. Faz isso com uma paciência que assusta, tipo assim, como quem fica de pé à porta, vendo a casa esvaziar, sem chamar ninguém, sem apressar o passo. O tempo não me diz quantos dias ainda estão guardados. Não há relógio que marque a hora de minha vida sair de cena. O que sei de concreto é que cada um que amanhece é tipo o sabor gostoso de um presente inesperado que chega calado, na surdina, meio triste, como se já soubesse que o fogo aqui dentro de peito já não aquece como antes. O tempo espera que a gente passe?

Sim. Mas o que eu não consigo entender é: quando será que ele irá me esperar do outro lado, onde não haverá mais cinzas, nem ventos, nem contagem de dias? Até lá, eu fico aqui, sofrendo, esperando. Como quem sabe que o fim é caminho, não parada. O que me resta, mudando de pau pra cavaco, o que me resta de tudo isso? Meu Deus, quanto tempo me falta?

Quantas vezes mais eu vou abrir os olhos e ver o dia nascer? Quantas manhãs ainda vão me encontrar aqui antes de chegar a última, a póstuma em que eu não mais despertarei? Aprendi, com a vida que passou e com a labareda que se apagou, que o tempo não corre. Ele para. Ele para e fica ali, de olho, de butuca, as antenas ligadas, esperando a gente passar.

Não nos empurra, não nos avisa. Só espera, quieto, tranquilo, com a paciência de Jó como quem fica à porta da casa vendo os cômodos sendo esvaziados. Não me dizem quantos dias ainda tenho. Ninguém sabe. O relógio não marca a hora exata de parar. Só sei que o fogo que um dia ardeu forte hoje é cinza fria, e o vento já levou tudo para onde meus esbugalhos não alcançam.

Mas o danado do tempo continua ali, segue parado, espiando, olhando e esperando. Esperando, logicamente, eu passar. Um dia vou, de fato, passar de vez. E o que foi chama, o que foi riso, o que foi vida, vai ficar só na memória de quem também um dia há de passar ou via outra, já passou. O que me resta de tudo? 

Nada. Só esperar. Por Deus, quanto tempo falta para o meu encerramento? Quantas vezes mais amanhecerei? Conscientizei nesse caminho sem sombra e concluí que nesse mato sem cachorro, aprendi que o tempo para e espera a gente passar. Mas, ainda assim, a indagação persiste: terei tempo de pedir perdão aos que magoei?

Terei tempo de implorar pela clemencia dos meus filhos e netos que em tempos idos os abandonei a própria sorte? Terei a graça de igualmente pedir perdão às “muitas-ex-minhas-mulheres” que passaram pela minha vida? As que de alguma forma fiz mal, as que magoei?

Ou, via outra, o tempo já está acabando, e o perdão também já foi levado para longe, carregado para além da minha visão esmaecida e sem vida? O tempo espera a gente passar. Entretanto, será que ele me dará alguns minutos a mais até eu conseguir dizer para todos que cruzaram os meus caminhos: me perdoem?

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), em Brasília, Distrito Federal, 14-8-2026 

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