Em dois dias, assessor de Putin passou por Defesa, Itamaraty, Marinha, Arsenal Naval e UFRJ, num roteiro que está longe de parecer uma simples conversa sobre fertilizantes
Leandro Ruschel
Na terça-feira, 4 de agosto, o presidente da República recebeu no Palácio do Planalto um homem que dirigiu o serviço secreto russo. A reunião não constava da agenda oficial da Presidência. Quem contou não foi o Planalto. Foi a embaixada da Rússia.
O nome dele é Nikolai
Patrushev. E, se alguém acha que isso foi apenas um encontro sobre
fertilizantes, precisa olhar para a agenda inteira. Em dois dias, esse homem
entrou no Ministério da Defesa, no Itamaraty, no comando da Marinha, no Arsenal
de Marinha do Rio, na UFRJ e a bordo do maior navio de guerra da América
Latina.
E, no meio disso tudo, o
ministro da Defesa do Brasil disse em público que, se os Estados Unidos
quisessem invadir o país, ele abriria o portão.
Patrushev não é um secretário
de comércio exterior. Ele dirigiu o FSB, o serviço de segurança da Rússia,
herdeiro direto da KGB. Depois foi secretário do Conselho de Segurança russo,
cargo que deixou em 2024. Hoje é assessor direto de Putin e preside o Conselho
Marítimo da Rússia.
O Kremlin não mandou ao Brasil
um vendedor de navio cargueiro. Mandou um homem da estrutura de segurança do
Estado russo. E o Brasil abriu tudo.
A lista conta a história. Primeiro, a reunião com Lula, fora da agenda oficial. Depois, o ministro da Defesa, José Múcio. O comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen. A secretária-geral do Itamaraty. Celso Amorim, no Planalto. Em seguida, Patrushev foi ao Rio de Janeiro: Arsenal de Marinha, Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico, UFRJ e inauguração de uma exposição dedicada ao almirante soviético Sergey Gorshkov.
Gorshkov não foi um nome
qualquer. Foi o homem que construiu a marinha de guerra soviética para desafiar
os Estados Unidos no Atlântico. Portanto, essa homenagem não é detalhe
decorativo. É recado.
Três dias depois de deixar o
Brasil, em Jaipur, na Índia, a Rússia ofereceu formalmente aos países do BRICS
cooperação em drones. O vice-ministro russo da Indústria e Comércio foi
explícito: não se tratava apenas de vender equipamentos. O pacote incluía desenvolvimento
conjunto, fabricação, software, algoritmos e sistemas de controle.
Navegação autônoma, visão
computacional, controle de voo e comunicação têm aplicação civil e militar.
Quem entrega o ecossistema inteiro não está apenas vendendo. Está criando
dependência.
No mesmo dia 4 de agosto, José
Múcio fez uma piada num evento da CNI. Perguntado sobre o que faria se os
Estados Unidos quisessem invadir o Brasil, respondeu que abriria o portão,
porque o país não teria equipamento para enfrentá-los nem dinheiro para consertar
o portão. Todo mundo riu.
Mas o portão importante não é
esse.
Os Estados Unidos não precisam
desembarcar um soldado para provocar uma crise histórica no Brasil. O Pix
continuaria funcionando e a dívida pública é interna. Isso blinda alguma coisa.
Mas não blinda o essencial: para importar máquina, pagar fornecedor lá fora ou
financiar comércio, banco brasileiro precisa estar plugado no sistema
financeiro internacional.
Washington já mostrou, contra
a Rússia, que também pressiona banco de terceiro país. E banco nenhum espera
ser proibido. Corta antes, por precaução. O dano chega sempre maior do que a
medida escrita no papel.
Reserva internacional também
não resolve tudo. O Brasil tem centenas de bilhões de dólares em reservas, e
reserva resolve falta de dólar. Não resolve recusa de contraparte.
Suba uma camada. Um chip não
precisa ser fabricado nos Estados Unidos para ficar sujeito às regras
americanas. Basta um elo americano em qualquer ponto da cadeia. Foi esse
instrumento que Washington usou contra a Rússia.
Não existe um botão mágico
capaz de desligar o Brasil. Existe algo pior: existem vários botões. Apertados
juntos, uma falha alimenta a outra: dólar, inflação, juros, crédito,
investimento, importação. O impacto no PIB seria avassalador.
Não se trata de torcer por
isso. Trata-se de entender que quem administra um país nessa condição não tem o
direito de provocar.
Ministro, o senhor está
preocupado com o portão errado. Ele não fica na fronteira. Passa por bancos,
data centers e fábricas de semicondutores a milhares de quilômetros do Brasil.
E não precisa ser arrombado. Basta começar a ser empurrado.
Nada disso é episódio
diplomático isolado. O mundo já vive uma Guerra Fria 2.0. E é preciso
compreender uma diferença importante: do outro lado não existe um bloco
disciplinado como no século passado. China, Rússia e Irã não têm tratado de
defesa mútua entre si. O BRICS não conseguiu sequer emitir uma posição única
durante a guerra do Irã. Não é a OTAN contra o Pacto de Varsóvia.
É pior.
O mundo não está apenas se
dividindo em dois. Está se estilhaçando. E, num mundo que se estilhaça, quem
não tem tecnologia própria, capital próprio nem poder militar próprio não
escolhe lado. É escolhido.
Lula passou a vida montando
rede. Em 1990, com o Muro de Berlim no chão, fundou o Foro de São Paulo ao lado
de Fidel Castro, para recuperar na América Latina o que o socialismo havia
acabado de perder no Leste Europeu. E nunca escondeu isso. Em 2012, em vídeo de
apoio à reeleição de Chávez, disse que, quando criaram o Foro, nenhum deles
imaginava que chegariam tão longe; naquela época, a esquerda só estava no poder
em Cuba, e hoje governavam um grande número de países.
Repare na primeira pessoa do
plural.
Quem governa, na fala dele,
não são presidentes eleitos. É o Foro.
Só que essa rede está sendo
desmontada. Maduro foi sacado do poder e está numa cela em Nova York. A GAESA,
o cofre militar da ditadura cubana, foi sancionada. Díaz-Canel foi sancionado
nominalmente. Visa e Mastercard pararam de funcionar em Cuba, que está
literalmente às escuras porque praticamente não consegue mais importar
combustível. O trabalho de uma vida desfeito em seis meses.
E agora chega a parte que
quase ninguém está dizendo: nada disso acontece em ano qualquer. Acontece em
ano eleitoral.
Repare na assimetria. A briga
com Washington é transmitida ao vivo. Tarifa vira soberania nacional. Visto
revogado vira agressão à pátria. Cada atrito com os Estados Unidos é
transformado em palanque, porque isso rende voto.
Já a aproximação com Moscou é
escondida.
Reunião fora da agenda. Sem
nota do Planalto. Sem foto oficial. Sem explicação ao eleitor. Quem informa o
brasileiro sobre o que aconteceu dentro do Palácio do Planalto é a embaixada de
outro país.
Divulgam o que elege. Escondem
o que condena.
E, se escondem, é porque
sabem. Sabem que o brasileiro não aprovaria.
Ou seja: a posição estratégica
do Brasil no mundo está sendo movida sem o eleitor saber, em função da
sobrevivência política de um projeto socialista autoritário. A conta não chega
para eles. Chega para o empresário que perde acesso a componente, para o trabalhador
que perde emprego quando a fábrica para, para o aposentado que vê o câmbio
comer o benefício.
Na primeira Guerra Fria, o
Brasil ficou do lado do Ocidente e prosperou. Agora está sendo empurrado para o
lado dos que perderam aquela guerra, sem ganhar nada em troca, porque a Rússia
não tem o que oferecer na escala do que o Brasil arrisca perder.
Ele escolheu por você, sem
consultar você. E escolheu o lado que não escolhe nada.
Há algo ainda mais grave que o
dano econômico. O Brasil está cada vez mais autoritário, com censura e
perseguição política. Alinhar o país a modelos totalitários reforça exatamente
a trajetória de concentração de poder e fim das liberdades individuais.
É isso que o povo brasileiro
quer?
Título, Imagem e Texto: Leandro Ruschel, Substack, 10-8-2026
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