Carina Bratt
SEMPRE ALIMENTEI dentro de mim a ideia ou melhor, sempre pensei que fugir de alguma coisa, era correr para longe. Cruzar fronteiras, pegar uma estrada ao acaso sem olhar para trás. Deixar na poeira a cidade onde a vida toda morei, as pessoas que orbitavam ao meu redor, e onde tenho, de forma imutável, ou imudável, o meu cotidiano.
Achava que sumir e deixar na poeira do
retrovisor das desilusões e sentir dentro da alma cansada o alívio dos
desgostos e das frustrações, se fazia o certo. Imaginava que ao agir dessa
forma, havia me livrado de tudo o que apertava o pescoço do meu santo protetor
de forma contundente. Achava, ainda, que a fuga estava no movimento, na
velocidade, no chão cheio de buracos e que ao virar as costas, tudo, sem tirar
nem pôr, desapareceria sob os meus pés.
Hoje já bem mais madura chacoalhada, as
ideias diferenciadas de alguns anos atrás, cheguei à conclusão de que fugir
pode ser também uma espécie meio abestalhada de ficar parada, estática, feito
uma múmia paralitica. Fugir não é só tapar os ouvidos, é fechar os olhos quando
alguém fala demais. É olhar pela janela do nosso cotidiano enquanto a vida
acontece aqui, do lado de dentro, e eu, por motivos os mais diversos, por me
achar divorciada, do lado de fora, ou muito longe, sem ter saído do lugar, me
quedaria tranquila.
Ledo engano! Fugir é um ato tresloucado
de sorrir sem ouvir, concordar sem entender, estar presente sem estar lá de
verdade, ao vivo e a cores A fuga mais silenciosa é aquela que a gente faz e
cria como um ser vivo dentro de nós mesmos, e ninguém percebe que em algum
momento, num ‘vapt sem vupt’, nós, de alguma maneira, fomos embora.
Euzinha já fugi de amores enrolados, de paixões que doíam demais, de conversas fora de esquadro que me consumiam, de medos tétricos e insanos, que cresciam maiores do que eu mesma poderia imaginar. Já debandei várias vezes, nem sei quantas, de mim mesma, mergulhei num labirinto quando o que eu via não me agradava. Nessa aventura sem começo, meio e fim, sumi do mapa correndo para caminhos que pareciam leves.
Todavia, algum tempo a frente, descobri
que carregava comigo tudo aquilo de que tentava escapar, e fazia isso porque a
bagagem não estava numa mala de viagem, tampouco na minha mochila. Ela se fazia
grudada no meu peito. Aprendi que não adianta mudar de lugar se a gente não
consegue se amoldar de vez, ou desaparecer para sempre, de dentro do que
conhecemos como ‘nosso interior’.
Às vezes a fuga pretendida é só uma
pausa. Um jeito de respirar, de limpar a mente, de ganhar distância para
enxergar melhor. Devemos ter em mente
que há fugas esquisitas que viram prisão. Por exemplo, quanto mais a gente
corre, mais o encarcerado feito um presídio de segurança máxima permanece
colado na nossa pele e o que a gente tentava com unas e dentes, facas e
tesouras, pontapés e bofetões, deixar para trás, nos atazana, nos tolhe os
passos. O que foge de nós, acreditem, caras leitoras das minhas ‘Danações’ de
todos os domingos, o que desassocia de nós, nunca chega a nenhum lugar de
verdade.
E então vem o dia, aquele dia ‘tri legal’
em que a gente estanca, mete o pé no freio e para. Se esquiva para uma margem
do vulgarizado inocente, não porque cansou de correr, mas porque entendeu que o
lugar de onde a gente fugia desesperadamente não se fazia tão ruim quanto
parecia, e que o paraíso com rosto de ‘Terra Virginal’ para onde pretendíamos
ir não se fazia, em nenhum momento, tão perfeito e majestoso quanto
supostamente imaginávamos.
Descobrimos, a duros golpes na porra da
alma, que a verdadeira coragem não está em partir, fugir, debandar, cair fora,
se afastar, mandar tudo para a puta que pariu, mas a verdadeira coragem, a
excelente se molda no voltar. Isso mesmo. No voltar, no retornar, no regredir e
ficar. Ficar sempre, haja o que houver
E logicamente não só ficar, permanecer,
se perpetuar. Também, e principalmente em olhar atentamente para tudo, espiar
de frente, sem medo, sem receios, sem traumas. Encarar de frente, cabeça
erguida, e dizer, ou gritar: ‘Viva, viva, eu estou aqui’. Fugir é fácil. O
difícil é voltar. Mais difícil ainda é aquietar o facho, ficar pianinho, manso,
calado, e se livrar das ideias pecaminosas.
Cristalino, nítido, diáfano, e cândido
sem dúvida alguma é o ficar. Talvez esse
ficar seja o mais penoso de tudo. A gente chega a se imaginar diante de uma
coisa quase impossível, embora não pareça. Ficar é ainda mais ‘elasticioso’,
delatado e esticado. Por ser assim, traz à baila, o encontrar ou o reencontrar
o caminho de volta para casa, ou a senda, a estrada, o trilho, o carreiro, tudo
isso que eu trouxe à um tipo de dança lisérgica, se amoldando dentro do interior
escondidinho a sete chaves ancorado em nosso incomensurável ‘eu desconhecido’.
Título e Texto: Carina Bratt, de
Belo Horizonte, nas Minas Gerais, 30-8-2026
Onde irei achar a minha felicidade?
Quanto tempo falta?
No dia dos pais, minha mãe...
[As danações de Carina] E se dissesse tudo o que eu sinto, você ainda me olharia assim?
‘Esdruxulidades’ para ninguém botar defeitos
Buraco de tatu
O meu maior desejo vem exatamente daquilo que sequer tenho coragem de revelar

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