quarta-feira, 26 de agosto de 2026

[Língua Portuguesa] Tudo o resto OU Todo o resto?


A expressão «tudo o resto»

Esta questão já foi aqui apresentada por outro consulente e a vossa resposta foi «Penso que deve dar preferência ao uso da expressão "tudo o resto"». 

Eu mantenho as minhas dúvidas, até porque quem respondeu não o fez com convicção ao usar o «penso que». Pois eu penso que deve ser «todo o resto», entendido como a totalidade da parte restante. Por exemplo, hoje, na capa de A Bola, lê-se que Fernando Santos fala «sobre a Liga das Nações e sobre tudo o resto». 

No meu ver, estes dois conceitos são contraditórios: se fala sobre tudo, não sobra resto para acrescentar ao que fala. Ela fala, com certeza sobre a Liga das Nações e sobre a totalidade da parte restante (de matérias de futebol, certamente) que vão além do assunto principal. 

Agradeço a vossa atenção.

António Antão, Professor (aposentado), Braga, Portugal 

 

Resposta:

Carlos Rocha

A dúvida apresentada diz respeito a uma expressão que o uso fixou e que os dicionários registam. 

Terá origem no galicismo tout le reste, pelo menos, como tradução literal convergente com a locução «tudo o mais»: da sinonímia de «o mais» com «o resto» terá resultado «tudo o resto», expressão que é ou foi discutível1, mas que ocorre há bastante tempo no nosso idioma, como abonam exemplos de uso até por escritores portugueses: 

(1) “O amor-próprio já eu o tinha perdido há muito tempo. E o orgulho, a vergonha, tudo o resto!” (David Mourão-Ferreira, Tal e Qual o que Era, 1963

(2) “Venho a parte principal de minha família e bagagens em Londres tudo o resto disperso e sem ordem.” (Almeida Garrett, Cartas, 1835

São de notar, porém, que, também, entre escritores, ocorre a expressão «todo o resto» como variante de «tudo o resto»: 

(3) “O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus existe, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão fútil, que reclamo mais dor, mais sofrimento, mais fome.” (Raul Brandão, Húmus, 1917

Poderá considerar-se que «todo o resto» é mais correto que «tudo o resto», argumentando que resto é um nome e, portanto, o quantificador terá de concordar com a palavra a que se associa. Contudo, apesar de o que se diz sobre «todo o resto» ter sentido à luz de princípios lógicos e do conhecimento do mundo, o certo é que se diz e escreve tudo com expressões de valor neutro, tudo, e não todo: «tudo isto», «tudo o mais». 

Deste modo, sobre a génese de «tudo o resto» e a sua fixação, atuaram mais a analogia com outras expressões fixas e a força do uso do que a coerência lógica da expressão, lembrando que, na constituição de uma língua, nem tudo o que se diz ou escreve procede de regras, mas também decorre da cristalização de formas menos ou nada regulares. 

Em suma, aceitam-se as duas formas da expressão, «todo o resto» e «tudo o resto». Esta última pode ter menos justificação por critérios sintáticos e lógico-semânticos, mas tem uma tradição de uso que a legitima. 

1 O Dicionário Houaiss (s.v. resto) anota que «a locução de resto foi considerada estrangeirismo por alguns autores».

Carlos Rocha, inCiberdúvidas da Língua Portuguesa”, 28-6-2019 

Colunas anteriores:
A origem da língua portuguesa 
Essa ou esta: entenda as diferenças de uso 
História ou estória 
Eminente ou Iminente 

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