Paulo Hasse Paixão
A Universidade de Cambridge decidiu que até o
Capuchinho Vermelho é demasiado perigoso para os frágeis cérebros e a
sensibilidade susceptível dos jovens.
Contos de fadas para adultos?
O Capuchinho Vermelho é um conto erótico?
O seminário, parte de um curso
desenvolvido para preparar os alunos do ensino secundário para os estudos
universitários, incentivou os participantes a “lerem para além da superfície”
das histórias de ninar. As notas oficiais do curso advertem:
“Aviso de conteúdo: Note
que esta sessão envolverá a discussão de algum conteúdo para adultos, incluindo
temas de violência, com referência a contos de fadas.”
Cambridge University slaps Little Red Riding Hood with trigger warning over 'themes of violence'
— GB News (@GBNEWS) August 11, 2026
https://t.co/6TUushF83Y
Na versão original da fábula
de Charles Perrault, de 1697, o lobo come a avó e a menina. A versão posterior
dos Irmãos Grimm mantém a tensão entre o lobo e as personagens humanas, mas
permite que um caçador as salve. Certas adaptações modernas intensificaram
ainda mais a atmosfera sombria.
Mas seja como for, este conto preenche a imaginação das crianças desde essa altura e ninguém vai ficar traumatizado com uma história deste género, fantasista e própria do imaginário infantil. Ainda assim, Cambridge tratou-a como um potencial evento traumático para os adolescentes.
Alertar para a violência do
conto de Perrault é como advertir que as fábulas de La Fontaine podem incluir
cenas de maus tratos a animais.
Lord Toby Young, da Free
Speech Union, desmascarou o absurdo:
“Colocar avisos de conteúdo
sensível nos contos de fadas é infantilizante, até para Cambridge.”
O professor Dennis Hayes, diretor
da Academics For Academic Freedom, há muito que alerta para as
consequências deste tipo de paternalismo patético e comentou a circunstância
nestes termos:
“Depois de alguns avisos de
conteúdo sensível, os professores deixam de apresentar qualquer coisa que seja
controversa. Gradualmente, não há mais discussão crítica”.
O comentador Adam Brooks
captou a reação geral num pequeno vídeo que tem circulado na web. Chamou à
medida “ridícula”, questionou o que está errado numa cultura que cria vítimas
perpétuas e acusou as universidades de fazerem lavagem cerebral aos estudantes,
transformando-os em flores de estufa no processo.
O que antes era um alerta
infantil, pedagógico, sobre os perigos de falar com estranhos foi
reclassificado como material para adultos que exige proteção institucional.
A mensagem para a próxima
geração é clara: o mundo é demasiado assustador para ser enfrentado sem
orientação oficial, e as histórias que outrora fortaleciam o carácter devem
agora ser tratadas com extrema delicadeza.
Este é apenas o mais recente
capítulo de uma longa campanha para envolver a cultura clássica no revestimento
sanitário da insanidade moderna.
Por exemplo, a Disney colocou avisos sobre representações culturais
“ultrapassadas” nos seus próprios filmes mais antigos, e as editoras começaram
a imprimir livros clássicos com alertas de “conteúdo sensível”.
Como o ContraCultura documentou em
2022, a editora Wilder não foi capaz de publicar a monumental obra crítica de
Kant sem um introito politicamente correcto, repleto de advertências
estapafúrdias e monumentais disparates.
Num cúmulo do ridículo e da
alienação, o filme Wicked foi ridicularizado por alertar o público para a discriminação das
pessoas com pele verde…
A universidade de
Massachusetts chegou mesmo a interditar a própria expressão “aviso de
conteúdo sensível” porque as palavras podiam ser perturbadoras.
Uma empresa tecnológica
progressista tentou eliminar a “linguagem violenta” do discurso
quotidiano, enquanto uma edição comemorativa dos 75 anos de “1984”, de Orwell,
foi publicada com os seus próprios alertas de conteúdo sensível e discursos sobre
o herói “problemático” do livro.
As peças de Shakespeare têm
sido sistematicamente infestadas com os mesmos avisos e destruídas com
versões mutiladas para as “audiências modernas”. A Royal Shakespeare
Company chegou mesmo a alertar o público de que As Alegres Comadres de Windsor
contêm “humilhação corporal”. E em 2024, um “estudo” financiado pelo governo
“conservador” britânico, que custou aos contribuintes um milhão de
libras, concluiu que
a obra de Shakespeare é racista, nacionalista e homofóbica.
As universidades que antes se
orgulhavam de formar adultos, especializam-se agora em fabricar fragilidades
múltiplas nas crianças e nos adolescentes.
A verdade é que, comparado com
esta gente que habita as academias contemporâneas, o Lobo Mau é completamente
inofensivo.
Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 17-8-2026

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