Aparecido Raimundo de Souza
Ao seu lado, uma garota de uns quinze anos lembrava a Liesel Meminger,
aquela órfã que roubava livros e havia chegado de bicicleta fazendo um pequeno
barulho ao cruzar por ele, como se a sua passagem espalhasse folhas secas pelo
chão enladrilhado. O vento ameno que vinha da porta de entrada onde ficava o
forno trouxe o cheiro de pão recém‑saído, e por um instante, em
vista do pequeno barulho, Berredo Maciel fechou os olhos e deixou o aroma
envolver seu peito pensando que talvez a paz não fosse um destino final,
mas um ponto de parada inesperado entre um suspiro e outro. Lembrou que não
precisava de um funeral pomposo tipo o de Elvis Presley, ou mais recentemente
do Renner, da dupla com Rick. Bastava um momento calmo de silêncio acolhedor,
um copo grande de café com leite e açúcar e a certeza de que ainda havia algo
que cheirava a vida.
Quando a porta do “vai e vem” se abriu, (voltando, de novo a mocinha parecida com a Liesel Meminger) dando acesso ao interior do estabelecimento, recordou momentaneamente que com ela entrou uma réstia tênue de luz clara vinda, tipo assim, de uma tarde que insistia em ser quente mesmo no inverno que cobria a cidade. Ele se levantou, passou no caixa, pagou o café e saiu. Se foi sem saber se a frase ainda ecoava dentro de seu “eu” interior, ou se fazia pulsante com aquela sensação de que, talvez, só talvez, a paz fosse simplesmente caminhar ao lado dele, devagar, de modo que pudesse andar despreocupado, sem pressa de chegar à lugar nenhum. Nesse cenário, Berredo Maciel entre o barulho da avenida e o cheiro de pão, numa espécie de estalo vindo de algum lugar desconhecido, aprendeu, ou melhor se deu conta entendendo que “morrer em paz” poderia ser só um jeito de viver um pouco mais... um pouco mais livre, leve e solto.
Coisa de vinte minutos depois, Berredo Maciel deixou definitivamente o
lugar onde estava e com os passos ainda meio arrigados, o coração batendo num
ritmo menos pesado. Logo adiante, mesma calçada, uma multidão se estranhos se
movia como um rio que nunca parava, e ele, por uns segundos, se permitiu ser
apenas mais uma gota (ou algo parecido) naquele fluxo intermitente. Ao virar a
esquina, avistou a velha biblioteca municipal, colada ao prédio da prefeitura,
aquela que ainda tinha o cheiro inebriante de papel velho misturado ao perfume
de rosas que a bibliotecária, dona Maria Celeste sempre deixava no hall de
entrada. Ele ingressou, e o silêncio pesado e ao mesmo tempo mavioso, lá
dentro, lhe fez pensar num abraço que ele não sabia que naquele instante precisava.
Sem ser convidado, passou a mão num livro e se sentou numa das mesas.
Escolheu um Mário Quintana e se acomodou numa pequena mesa com duas cadeiras de
madeira. Ao se acomodar, o assento rangeu. Só então ele abriu o livro ao acaso
e leu: “A paz não é a ausência de ruídos, mas a capacidade de encontrar
melodias no que conhecemos como caos.” Essa frase ficou assim, ecoando na sua
cabeça se remexendo em seu cérebro como um sussurro que não conseguia apagar.
Enquanto lia, a luz forte que entrava por uma janela de fundo, desenhava
sombras que pareciam dançar ao aconchego de um velho samba de Adoniram Barbosa
que vinha possivelmente do barzinho do Nicanor, do outro lado da rua frenteado
à prefeitura. Cada nota parecia dizer que a vida, mesmo nos seus dias mais cinzentos,
ainda tinha ritmo e conservava um resto de felicidade. Ele fechou o livro, se
levantou e caminhou vagarosamente até a janela.
Lá fora, um garoto descalço vendia balões coloridos. Um deles lhe escapou
das mãos e subiu, subiu... se foi assim, até desaparecer no céu de fim de
tarde. O balão, leve como um pensamento, fez Berredo Maciel sorrir. Pensou que
talvez a paz fosse exatamente isso: deixar que as coisas que não podia segurar
subisse e aceitar que, enquanto houvesse alguém para observar, ainda haveria
espaço para a esperança. Saltitante e tentando despistar o choro, voltou para a
rua, agora com o sol da tarde se pondo em tons de esperança. Uma esperança
envolvente e indescritível. Percebeu que
o barulho da pequena cidade já não era mais um grito. Se assemelhava numa
canção envolvente de fundo enternecedor. Cada passo que dava, se emanava a um
verso que ele ainda não sabia que estava escrevendo.
E, ao chegar na sua rua e ao se pegar em casa, ao fechar a porta da sala,
vagarosamente, sussurrou para si mesmo:
— Talvez eu não precise morrer em paz. Quem sabe, eu só careça avivar um
pouco mais o silêncio terno dentro de mim.
Seguiu até seu quarto, deitou a cabeça no travesseiro, respirou fundo, e,
pela primeira vez naquele fim de dia, sentiu o peso da frase “eu só queria
morrer em paz”. Por pura magia, ou algo parecido, seu resto de dia se
transformou em algo mais leve: “eu só queria viver e morrer em paz”. Naquele
simples ato de respirar, incrivelmente extasiado, Berredo Maciel encontrou a
tranquilidade que tanto buscava.
Envolto nela, ficou ali deitado acobertado pela penumbra do quarto,
enquanto a frase que havia carregado por tanto tempo ainda ecoava nos cantos e
recatos da sua mente: “morrer pedindo perdão às minhas ex, às minhas filhas e
filhos que abandonei…”.
O peso das palavras parecia apertar o peito, mas, ao mesmo tempo, lhe
trazia uma estranha clareza de espírito. A mesma que certo dia invadiu a mente
sonhadora do francês Júlio Verne e fazer seus sonhos imorredouros se tornarem
reais na pele do doutor Samuel Ferguson. Pensou nos rostos que ainda habitavam
seus devaneios, reviu as imagens das mulheres que partiram, (ou melhor dito,
das que ele não soube dar uma vida mais decente e expressiva) avivou os
sorrisos tímidos das filhas que não sabiam como chama-lo de “pai”.
Reacendeu a ausência do único filho homem, que igualmente desde garoto
cresceu e aprendeu a andar sem ele. Cada lembrança se fazia um ponto de luz que
furava a escuridão tênue do quarto, mas também trazia um lembrete doloroso do
tempo que se esvaía cada vez mais escasso.
Então se levantou devagar, deu luz a um abajur, sentou na beira da cama
e, com a mão trêmula, pegou o velho caderno que mantinha guardado num
criado-mudo. Começou a escrever, grafar sem pretensão de arte, apenas para
colocar para fora o que ainda não tinha dito:
“Perdão, se ainda houver alguém que me escute. Não há desculpas que
justifiquem o que fiz, mas nesse momento preciso confessar que ainda me
questiono se um dia poderei ser mais do que a sombra negra que deixei estrada à
fora”.
Fez uma breve pausa e continuou: “A vocês, a todos vocês que carregam o
peso da minha falta de presença, e a escassez grandiosa de uma ausência sem
explicação, eu humildemente ofereço o que resta de mim: e o que é? A promessa
de tentar, mesmo que inexplicavelmente tardio, ser alguém um bocadinho melhor.”
Enquanto a tinta da caneta esferográfica se fazia avivada, ouviu o canto
distante de um galo anunciando um novo amanhecer. Ele adormeceu e nem sentiu o
peso do sono. O som, simples e puro, trouxe uma sensação de recomeço. Não seria
fácil, nem instantâneo, mas ali, naquelas folhas de caderno, ele se deparou com
as primeiras linhas de um pedido sincero de socorro. Berredo Maciel em face do
sono, pegou o caderno que havia caído no chão ao lado da cama. Respirou fundo
e, pela primeira vez, em muito tempo, sentiu dentro de si que talvez a paz não
fosse um destino final, mas uma senda infinda e ainda não usada que poderia
trilhar, tipo um passo de cada vez, suportando o remorso enorme e pesado do
arrependimento, mas também, igualmente, com a esperança imorredoura à flor da
pele, de encontrar, lá no distante da curva desse carreiro, ainda com vida e
pulsante, os pedaços espalhados de seu coração.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 6-10-2026
[Aparecido rasga o verbo] Aconteceu na lua de mel
Batendo frontalmente nas bases dos “ladrões do povo” haveriam diferenças gritantes desses “enganadores” para os demais “maquiavélicos” e “safardanas” que enlameiam os eternos carentes de proteção?
Teoria da gaveta

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-