sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Por que a esquerda ataca a família, a religião e a lei


Leandro Ruschel

Episódios recentes, como a utilização do carnaval para promover narrativa política e atacar valores tradicionais, costumam ser tratados como manifestações culturais ou, no máximo, como provocação ideológica. Essa leitura erra o essencial.

Não se trata de estética. Trata-se de estratégia.

Para compreender esse tipo de movimento, é necessário ir além do episódio e observar a estrutura de pensamento que o sustenta. Ao longo do último século, a tradição marxista estabeleceu como objetivo central a destruição das bases da sociedade vigente para a construção de uma nova ordem. Não uma reforma gradual, mas uma substituição completa.

Essa diferença é fundamental.

A visão conservadora parte da ideia de continuidade: a sociedade é imperfeita, mas deve ser aprimorada com base em tradições, instituições e regras que se provaram funcionais ao longo do tempo. Já a visão revolucionária parte do pressuposto oposto: a estrutura existente é essencialmente injusta e, portanto, precisa ser destruída.

A partir dessa premissa, torna-se possível entender os alvos.

A família é uma das principais células da organização social. É nela que se formam vínculos, responsabilidades e incentivos de longo prazo, como a preservação de patrimônio e a transmissão de valores. Essa estrutura cria autonomia em relação ao Estado. Quanto mais forte a família, menor a dependência de um poder central.

Por isso, ela precisa ser enfraquecida.

O mesmo se aplica à religião, especialmente a tradição cristã. Ao estabelecer uma ordem moral superior ao poder terreno, a religião impõe limites. Introduz a ideia de responsabilidade individual, de certo e errado independentes da conveniência política. Para uma visão materialista, na qual não há dimensão espiritual, essa referência externa é um obstáculo.

Se não há uma autoridade moral acima do homem, resta apenas a disputa por poder.

E é nesse ponto que surge o conceito de moral revolucionária. Não existe um bem ou mal universal. Existe apenas aquilo que favorece ou prejudica o avanço do projeto político. Se determinada ação fortalece a revolução, ela é justificada. Se a enfraquece, deve ser combatida.

Essa lógica explica a facilidade com que corrupção, manipulação e até violência são relativizadas. Não como desvios, mas como instrumentos.

A ordem legal também não escapa. O direito deixa de ser um conjunto de regras aplicadas de forma impessoal e passa a ser utilizado como ferramenta. Normas são reinterpretadas, princípios são flexibilizados e instituições são instrumentalizadas para atingir objetivos políticos específicos. O critério deixa de ser a lei. Passa a ser a utilidade.

Nesse ambiente, o único crime real é a oposição.

Família, religião e lei não são atacadas por acaso. São obstáculos estruturais a um projeto que depende da concentração de poder. Enfraquecer esses pilares significa ampliar a capacidade de intervenção do Estado e reduzir a autonomia do indivíduo.

O episódio recente apenas torna visível algo que já opera há muito tempo.

A dificuldade de compreensão desse processo leva a análises superficiais, focadas em eventos isolados. Mas não é possível enfrentar um movimento dessa natureza sem entender sua lógica interna.

Não se trata de reagir a manifestações culturais.

Trata-se de compreender um projeto de poder que exige, como condição, a dissolução das estruturas que limitam esse próprio poder. 

Título, Imagem e Texto: Leandro Ruschel, Newsletter, 19-2-2026

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