Carina Bratt
NA SALA cheia de vozes, eu sou a única que não fala nada. Sou o silêncio. Em sua melhor forma de expressão eu sou o silêncio. Todos falam, riem, opinam, e eu… eu apenas existo. Ou penso que existo. Será que existo? Carrego nos olhos cansados um pedido de socorro que ninguém lê, um grito forte que não atravessa o ar. Tipo assim, como se as minhas palavras fossem feitas de fumaça: se desfazem antes de chegarem a qualquer ouvido, ou melhor dito, de qualquer ouvido.
O mundo ao meu redor me pede força, mas
não percebe o peso que me dobra. Eu sorrio para não incomodar, concordo para
não atrapalhar, finjo para não ser descoberta. Penso que estou morta por
dentro. E por fora também. É uma morte lenta, gradativa, pesada, chata,
pegajosa, Dentro de mim há um incêndio que ninguém vê, uma tempestade que
ninguém escuta, principalmente os que não tem os ouvidos grampeados no lugar
certo. Cada vez que tento falar, o eco que sai da minha garganta me devolve o
silêncio.
O socorro que peço não é barulhento. É
discreto, quase paralítico, usa um par de muletas invisíveis, uma tira nos
olhos tímida como uma lagartixa numa cadeira de rodas sem rodas, ou pior, como
quem pede desculpas por existir sem existir. Mas é um pedido urgente. É o tipo
de urgência urgentíssima que não aparece em sirenes, porém corrói devagar, come
pelas beiradas. É uma urgência cínica, vagabunda, prostituta. Parece aquela
idiota sentada no próprio rabo em frente ao STF, uma imbecilóide que desgasta,
como ferrugem grudada na alma dos boçais e ‘caraminguados’.
Talvez mais tarde, daqui a pouco, amanhã no pior dos mundos, um dia, sei lá, alguém perceba o meu desconforto. Talvez role um olhar mais atento ou uma alma caridosa descubra que o meu sorriso é uma máscara mal costurada. Oxalá, ou oxacá, uma mão amiga se estenda antes que eu me afunde de vez num mar de águas profundas. Até lá, sigo aqui: invisível, inaudível, sigo devagar, quase parando, mas ainda viva e respirando. Não sei por quanto tempo, mas viva. E como viva, eu vivo!
E mesmo que ninguém me ouça, euzinha
continuo pedindo socorro. Há dias em que o silêncio se torna denso, pesa mais
do que qualquer palavra. Principalmente aquelas palavras ‘despalavreadas’ que
não foram ditas. Eu caminho comigo mesma, me empurro de mãos dadas, sei lá com
quem. Sigo entre pessoas, atravesso conversas, mas continuo invisível, como a
justiça excrementosa que impera no ‘brazzzil’. O que digo não encontra eco, o
que sinto não encontra espaço. A coisa toda rola como se a minha voz fosse
feita de vidro: transparente, frágil, prestes a se quebrar.
O socorro que peço não é um espetáculo.
Não tem sirenes, não tem alarde. É um pedido discreto, quase imperceptível,
escondido nos gestos, ocultados, nos olhares, incrustrados nos intervalos entre
frases que nunca foram escritas. Mas é real. E cada vez que não sou ouvida, o
vazio dos meus ouvidos, cresce e se agiganta como uma sombra imensurável, uma
nuvem grudenta, tipo chiclete em boca de bêbada que se alonga ao fim da tarde.
Talvez seja mais fácil acreditar que
estou bem. Quem sabe seja mais confortável ignorar o peso que carrego. Mas
dentro de mim, bem lá dentro, há uma urgência que não se cala, uma necessidade
de ser vista, de ser reconhecida, de ser acolhida, de ser tocada. Não por
piedade, mas por humanidade. Entre tapas e beijos, sigo aqui, tentando.
Tentando transformar o silêncio em palavras, a dor em gesto, a invisibilidade
em presença. Mesmo que ninguém perceba, ou me veja aos peidos fedorentos,
continuo pedindo socorro porque pedir é também uma maneira de resistir. E
resistir, às vezes, é a única forma de existir não existindo.
No geral, eu me mostro que estou
fisicamente aqui, mas emocionalmente apagada. O silêncio aparece como algo
ativo, quase opressor. Ao dizer ‘o silêncio pesa mais do que qualquer palavra’,
eu transformo o silêncio em uma força que sufoca. Vocês, caras leitoras e
leitores das minhas ‘Danações’, entenderão que o pedido de socorro não é ouvido
porque o silêncio domina. E a cera acumulada, atrapalha. E coça. Você mostra
que o socorro não é barulhento, mas urgente. A ideia, pois, de ‘um pedido
discreto, quase imperceptível, mas real’ transmite que há uma tensão constante.
Às vezes essa tensão se transforma em tesão.
Vocês, minhas leitoras queridas da
‘Grande Família Cão que Fuma’ perceberão que a urgência não está no tom alto,
mas na insistência silenciosa. Nesse meu repetir que continua implorando
socorro, mesmo sem resposta, se cria um ritmo e uma insistência ímpar. Isso dá
aos meus leitores a sensação de que o pedido é contínuo, quase desesperado. O
meu texto, em resumo, mostra que o ato de pedir ajuda é uma forma de
sobrevivência. O leitor e a leitora entenderão que há urgência porque esse
pedido é a última barreira contra o meu desaparecimento total.
Uma lâmpada acesa em pleno dia, que não
ilumina nada. Um relógio que continua marcando o tempo, mas ninguém olha. Um
avião que não voa porque a galera da FAB (Força Aérea dos Bandoleiros) sumiu
com as asas. Enfim, esses detalhes concretos ajudam os meus leitores a sentirem
o que eu disse todo esse tempo, quase fisicamente, o que significa estar
pedindo socorro sem ser ouvida. Pedir socorro sem ser ouvida é a mesma coisa
que latir e não ser ouvida. Resumindo essa ‘Torre de Babel’, tudo me leva a
crer e acreditar que o que ‘escrevinhei’ nessa crônica não vai além da sensação
gostosa de invisibilidade e urgência. Entenderam?
Título e Texto, Carina Bratt, de
Vila Velha, no Espírito Santo, 22-3-2026 [As danações de Carina]
[As danações de Carina – Extra] Dezenove de março, aniversário de Aparecido Raimundo de Souza, seguidos de 73 velinhas que serão apagadas logo mais à noite
Onde nós conversamos com nossos silêncios
Nada mais me irrita, nem eu mesma, quando estou sozinha...
Monogamia*
Enfim, a chegada tão esperada de Heitor se fez real

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-