domingo, 26 de abril de 2026

[As danações de Carina] Prisão sem grades

Carina Bratt

SEU ANSELMO do apartamento 701, do meu prédio, lá na Borges de Medeiros, foi preso num domingo. Calma. Eu explico. Foi preso não por roubar, não por matar, ou por cometer qualquer tipo de crime hediondo. Nada disso. Seu Anselmo foi preso pelo silêncio. O bom velhinho dos cabelos brancos e ralinhos tinha 86 anos, morava sozinho desde que dona Flora, sua esposa, veio a óbito.

Dia seguinte ao sepultamento dela, ao se despedir dos filhos, noras e netos, e dos vizinhos condôminos, se trancou no apartamento por dentro. Não saiu mais. As janelas da sala, dos quartos e até a da porta que acessava a varanda, se fizeram fechadas. Imaginem, (no sétimo andar a carecer de se aferrolhar feito um bicho raivoso!).  Até o radinho que ganhara de dona Flora se quedou desligado.

Os vizinhos estranharam. Bateram na porta, tocaram a campainha. Seu Edu, o porteiro e seu Carvalho, o vigia da noite, ligaram da portaria, acionaram o celular, nada. Chamaram a polícia. Quando arrombaram a porta, acharam Seu Anselmo sentado na cadeira de balanço, na sala, lúcido, e o mais engraçado, tomando uma taça de vinho. Perguntas surgiram de todos os lados:

— Por que o senhor não atendeu, Seu Anselmo?  — Indagou dona Lurdes do 201.

— Ficamos preocupados, — soou forte a voz de dona Bete do 902.

A todos que fizeram indagações, ele respondeu com um sorriso radiante:

— Não atendi ninguém, porque eu me prendi... 

E diante do espanto dos inquilinos e locatários, acrescentou:

— Cumpri 50 anos de casamento. Agora estou fazendo o mesmo com o luto...

O policial que estava à frente e ajudara na hora do arrombamento coçou a cabeça:

— Senhoras, senhores, não tem artigo em nenhum código para se agir, ou se punir alguém sobre esse fato que estamos presenciando. Eu e meus policiais estamos nos retirando...

Apesar dos prós e contras, toda a comunidade do prédio decidiu que Seu Anselmo estava preso mesmo. Encarcerado naquele apartamento enorme, naquela cadeira de balanço tomando a sua taça de vinho, cercado por uma ausência branda, suave, envolvente e acolhedora. Silvinha, a filha do síndico, (menina na época em que o casal e seus filhos vieram de mudança para o edifício), lembrou que muito tempo atrás, mas muito mesmo, passeava na calçada com seu cachorrinho e cumprimentava seu Anselmo.

Todos os dias, à tarde, ele mais a esposa, saiam para a rua. Levavam o lixo, jogavam no latão em frente ao prédio, e, em seguida, se punham a caminhar de mãos dadas pelo calçadão espiando para as bandas da Lagoa. Rotina de dois idosos que nada mais tinham a fazer. Um dia, Silvinha criou coragem. Gritou para ele:

— Seu Anselmo, o senhor não vai fugir, não é? Nem deixar dona Flora sem sua companhia. O Cristo Redentor está de olho no senhor...

Ele riu pela primeira vez. Coisa de um ano e pouco depois, já sem dona Flora, ao vê-lo jogando o lixo, ela perguntou alguma sobre viver sozinho. Ao que ele deu uma resposta meio estranha: 

— Menina, essa prisão onde eu moro agora, não tem grades. Tem só saudade. E de saudade ninguém foge. Apenas cumpre...

Com o decorrer dos anos, os moradores tentavam de alguma forma soltar seu Anselmo dessas grades que ele tanto falava. Dona Marlene do 101 levava bolo, seu Miguel uma vez convidou um cantor de músicas antigas. Seu Abigail mais a esposa, dona Doralice levaram os netos. Qual o quê! Seu Anselmo recebia a todos, sem distinção, na porta, agradecia, fechava. Cumpria a pena que ele mesmo dera a seu destino. Durou dois anos. Num sábado chuvoso, a porta definitivamente não mais se abriu. Arrombaram de novo. Ele estava na cadeira, desta feita com uma taça emborcada na mão. Vazia. Pior, jazia morto. Em cima da mesa um bilhete: ‘Cumpri. Agora, por favor, podem me soltar.’

O prédio inteiro fez vaquinha. Enterraram seu Anselmo no Cemitério do Caju, onde dormia o sono eterno a sua esposa. A sepultura deles, imaginem, é a única que tem diferenciado dos outros, em face de uma janelinha. De vidro, bem pequena, virada para o poente. Dona Doralice jura que sempre nos dias de finados, quando vai lá, leva flores. Limpa tudo. Acende velas. Ora. Segundo relatos dela, a janelinha de vidro embacia por dentro. Tipo assim, como se alguém soprasse um hálito quente do outro lado.

Porque não sei se as minhas leitoras de todos as ‘Danações’ que escrevo aos domingos aqui na ‘Grande Família Cão Que Fuma’ sabem: tem prisão que a lei não vê. Tem pena que a gente mesmo assina. E tem liberdade que só chega quando a saudade aperta. Falo sério, acreditem, quando a saudade se faz presente, se mostra pesada, dura, obesa, vem e dá as caras e de lambuja assina o alvará, só nos resta pedir ao Pai Maior que dê ao seu Anselmo e a esposa dele, a dona Flora, o descanso eterno.

Título e Texto: Carina Bratt, de Venda Nova do Imigrante, ES, 26-4-2026

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