domingo, 17 de maio de 2026

[As danações de Carina] As coceiras que fustigavam no lugar errado

Carina Bratt

JOSÉ PIRIBENTO tinha uma coceira nas partes baixas que incomodava além da conta. A evolução dessa desgraça desconhecida, parecia adivinhar quando ele pegava o ônibus lotado para ir ou para voltar do trabalho. Por conta desse inconveniente não saberia dizer se a coisa atacava por estar o coletivo muito lotado, com gente saindo pelas cuecas do motorista ou se, de fato, se tratava de um entrave descomedido que por mais remédio que usasse, não chegava a uma cura total. Dessa forma, as pessoas ao redor dele, obviamente pensavam que ele estava de sacanagem, fingindo um incômodo qualquer para bolinar com os outros passageiros, notadamente com as moças, mas no final, a bem da verdade, de fato, havia uma coceira maldita que não dava um minuto sequer de trégua.

O infeliz descobriu isso depois de gastar uma grana preta comprando embalagens de Baygon e SBP. Antes de ingressar nos ônibus que o levava até a porta do serviço, (tanto na ida como na volta), antes de sair de casa fosse indo ou voltando, borrifava por todas as roupas que usava, esses remédios que prometiam mandar as pragas para os quintos do inferno. E, de lambuja, as embalagens. Qual o quê! Nada tinham em comum o seu desatino agravoso com esses parasitas. Em face desse despropositado grosseiro, tomou por norma, se policiar, tomar banho frio. Mudou a marca do sabonete, para ver se o aborrascado tempestuoso cessava. Tudo resultou em vão. Num desses dias, dentro do ônibus lotado, a coisa atacou. José Piribento assim que se viu em meio a massa comprimida, passou a se contorcer. A coceira maldita nas partes baixas não lhe dava trégua.

Por conta, a criatura se mexia, ajeitava as calças, tentava disfarçar, mas cada movimento parecia suspeito. Os passageiros ao redor, apertados como sardinhas em conserva devido ao calor, olhavam de lado, as caras moldadas em pinturas de poucos amigos, imaginando que ele estivesse se aproveitando das proximidades para bolinar alguém. O clima nessas horas, ficava pesado, desconfortável, quase acusatório, embora na verdade esses despropósitos se fizessem menos escandalosos descambando para o ridículo. Ninguém imaginava que pudessem ser pulgas insolentes que por algum motivo desconhecido haviam escolhido aquele pobre homem como banquete. E lá estava o desditoso enlouquecido, tentando se livrar da peste invisível, enquanto todos julgavam mal a sua postura.

No fim, a cena culminava em um retrato cruel da vida urbana: ninguém sabia o que realmente acontecia, mas todos estavam prontos para caluniar e não só isso, igualmente malsinar o pobre infeliz como um ‘tarado’. Entre tapas e beijos, a ‘suposta coceira’ atacava somente a ele, todavia, o constrangimento não, e esse fato se agigantava, uma vez que o agravoso e o acrimonio pareciam estar de mãos dadas. Uma jovem estudante de sainha curta deu o alarme:
— Olha lá, seu motorista! O cafajeste de camisa amarela tá se aproveitando da lotação! — Reclamou.

Logo outra menina tomou coragem e abriu o bico:
— Isso é um absurdo. Para aí, motor. Pede alguém pra chamar a polícia!
Uma terceira passageira, bem lá nos fundos, longe de José Piribento berrou, indignada:
— Motor, esse sujeito aqui tem que ser enquadrado!
— Pedófilo, bradou uma jovem com ar de autoridade. Ele levantou a minha saia...
José Piribento, vermelho de vergonha, tentava se explicar:
— Não, não é nada disso! É só uma coceira, uma pulga, ou sei lá que diabos, eu juro...

Mas ninguém acreditava. Os olhares de todos dentro daquele ônibus eram de reprovação, as vozes se levantaram em coro, e o buzu inteiro parecia pronto para linchá-lo.

Enquanto isso, as supostas pulgas invisíveis e implacáveis, seguiam na sua missão, transformando o pobre sujeito em réu de um tribunal improvisado. As cenas se propagaram tragicômica: ou seja, todos enxergavam um homem desesperado por se livrar de uma coceira, e uma multidão se fazia pronta e se levantava para julgá-lo sem saber a verdadeira origem da causa. Ou o motivo. Pulgas? Coceiras? Conclusão: José Piribento acabou preso. Levaram o cidadão se remexendo como se fosse uma cobra em fuga. Prenderam o inocente no auge de uma espécie de dança macabra em face da coceira que, de fato, continuava a lhe açoitar a todo vapor. Se soube, meses depois, em vista do seu desaparecimento, que o coitado se viu condenado por ‘pedofilia’ e ‘importunação sexual’. Está, em dias de hoje, preso e encarcerado num instituto penal longe do bairro e da cidade onde mora.

Pegou vinte anos de cadeia em regime fechado. Disso tudo, a lição de moral certamente cairá como luva de pelica: às vezes, o que parece indecência é apenas uma minúscula partícula da miséria humana — e o julgamento apressado pode ser mais incômodo e, de fato é, mais repulsivo e degradante, mais asqueroso e nojoso que as próprias pulgas ou no pior dos mundos, qualquer outra droga que por ventura leve as pessoas a acreditarem num crime inexistente. O homem, vermelho de vergonha, fora de si e chorando em desabalada tristeza, bem que tentava se explicar:

— Não, não é nada disso! É só uma coceira na minha cueca, uma ou duas pulgas, eu juro. Mas ninguém acreditava. Os olhares vomitavam de reprovação, as vozes se levantavam em coro sacro, e o ônibus inteiro parecia pronto para linchá-lo e enterrá-lo vivo.

Enquanto isso, as pulgas, invisíveis e implacáveis, seguiam na sua missão, transformando o pobre sujeito em réu de um tribunal improvisado. No fim, a cena se quedou tragicômica. Um homem desesperado por se livrar de uma coceira nas genitálias e uma multidão pronta para julgá-lo sem saber a verdade. Ficou, de tudo, a ‘Lição de moral, como luva de pelica’: às vezes, o maior escândalo nasce de uma mentira deslavada, ou de uma miséria banal. E o julgamento apressado dos chamados ‘seres humanos’, cria se um clamor impreciso. A ponto de dar vida abundante a um terror sem volta. Em outras palavras: de uma simples comichão, ou de um acesso promovido por urticárias, grosso modo, (coceiras nas partes íntimas, seja por roupas mal lavadas ou coisas oriundas da própria pele), leva, como levou um inocente a viver uma situação irreal e ilógica. Uma situação entalhadora que pode colocar (como colocou) um inocente atrás das grades. No caso do José Piribento, o seu futuro se tornou desumano e fatal. Tudo assim, por um vazio ‘ouvir dizer’. Resumindo, uma vida foi execrada a própria sorte.

Título e Texto: Carina Bratt, de Pequiá, ES, 17-5-2026 

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