sábado, 29 de agosto de 2026

[Versos de través] Carta a Telémaco









Manuel Cândido Pimentel

Dormes, porventura, ausente de cuidados,
longe do destino comum dos mortais, amando nausícaa.
Feneceu na haste a mais bela das romãs, para sempre
se perdeu o útero que te gerou, ó nobre telémaco.
Nesse dia abriu-se o céu e abriu-se a terra, monstros choveu o ar
e todos os corações foram revolvidos, não sobrou quem na casa tua
não chorasse a partida de tua mãe e rasgasse as próprias vestes…
miserando Ulisses em negócios com caronte almejando vê-la
naquela outra margem de onde se não volta.
Teu pai é hoje um cisne perdido num imenso lago sem fronteiras.
Que os deuses te sejam favoráveis,
ó nobre telémaco.

Manuel Cândido Pimentel, Casa da Calçada, 7-2-2024 

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