Da carreira como delegada ao drama vivido com as filhas no Brasil e nos Estados Unidos, a trajetória de Rebeca Ramagem e a decisão de transformar dor e adversidade em uma nova missão
Rogerio Pires
Há dias em que a vida muda sem pedir
licença. Para Rebeca Ramagem, um deles começou na porta de um avião.
Era 17 de novembro de 2025. No Galeão,
ela embarcava para os Estados Unidos com as duas filhas, uma de 14 anos e outra
de 7. Na entrada da aeronave, agentes da Polícia Federal apresentaram um
mandado de busca pessoal assinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal.
As malas foram retiradas do voo e
abertas uma a uma. Celular, computadores e outros objetos foram apreendidos.
Segundo Rebeca, até o aparelho da filha caçula foi levado.
Para quem acompanha o noticiário, são
palavras técnicas. Mandado. Busca. Apreensão.
Para uma menina de sete anos, é outra
coisa. É ver estranhos mexendo nas roupas da família. É olhar para a mãe
cercada de agentes e não entender o motivo.
Rebeca contou depois que as filhas
entraram em pânico. Já dentro do avião, gravou um vídeo com as duas ao lado. “A
mamãe tomou uma busca”, disse. E completou: “A gente é forte. Juntas.”
Confesso que, de tudo o que li sobre
esse caso, foi essa palavra que ficou comigo. Juntas.
Quem é Rebeca
Rebeca tem uma trajetória que fala por
si.
Foi delegada da Polícia Civil de Roraima por 12 anos e chefiou a Delegacia de Defesa da Mulher. Passou boa parte da vida do outro lado do balcão, atendendo mulheres em situação de violência e fazendo valer a lei.
Em março de 2015, tomou posse como
procuradora do Estado de Roraima, cargo que ocupa até hoje. Já são portanto 22
anos de serviço público.
Delegada. Procuradora. Mãe de duas
meninas. Dezoito anos ao lado do mesmo homem.
Quando a perseguição atravessou a
porta de casa
Alexandre Ramagem, seu marido é
ex-diretor da Abin e deputado federal afastado pelo atual regime Brasileiro. E
precisa ser chamado pelo que é: mais um exilado político do Brasil.
Não está sozinho. Eduardo Bolsonaro,
outro inocente perseguido pelo regime, vive nos Estados Unidos desde 2025.
Perdeu o mandato de deputado pois foi impedido de participar das votações
remotamente. Em junho, a Primeira Turma do STF o condenou a 4 anos e 2 meses de
prisão e a 8 anos de inelegibilidade por coação no curso do processo. O relator
era Alexandre de Moraes. Nos últimos dias, o Ministério da Justiça do governo
Lula completou o serviço e o demitiu da Polícia Federal. O “crime” de Eduardo,
segundo o Supremo, foi ter buscado nos Estados Unidos sanções contra quem
julgava o próprio pai.
E há um detalhe que, por si só,
deveria envergonhar qualquer tribunal. Eduardo nunca foi notificado
pessoalmente da acusação. Moraes mandou “citá-lo” por edital, uma publicação no
Diário da Justiça, como se ninguém soubesse onde ele morava. No mesmo processo,
o jornalista Paulo Figueiredo, que também vive nos Estados Unidos, foi
comunicado por carta rogatória. Até a Defensoria Pública da União, escalada
para defendê-lo sem que ele a tivesse escolhido, protestou: disse que o edital
é inválido quando o endereço do acusado é conhecido e pediu a carta rogatória.
Moraes negou.
Um homem julgado e condenado sem ter
sido chamado ao processo. Isso tem nome: violação do devido processo legal. É
nulidade absoluta, e um dia terá de ser reconhecida.
Ramagem deixou o país em setembro de
2025, antes do fim do julgamento em que o STF o condenaria a 16 anos, 1 mês e
15 dias de prisão no processo da chamada trama golpista.
Eu conheço Alexandre Ramagem. Afirmo
sem nenhuma hesitação: ele não cometeu crime algum. Foi condenado porque se
tornou alvo do regime de exceção que hoje controla o Brasil, um regime que
escolhe os inimigos primeiro e fabrica o enquadramento depois.
Rebeca não era ré. Não era
investigada. Não respondia a processo algum. Mesmo assim, foi parar na porta
daquele avião.
E o motivo apareceu depois. Segundo a
CNN, os agentes encontraram roupas de Ramagem em cinco das malas. A bagagem de
uma mãe e de duas crianças virou instrumento de caçada. Como nada irregular foi
encontrado, Rebeca seguiu viagem.
Dias depois, publicou outro vídeo.
Nele, as duas meninas atravessam correndo o saguão do aeroporto de Miami para
abraçar o pai.
A calmaria durou pouco. Semanas
depois, Rebeca descobriu que todas as suas contas bancárias estavam bloqueadas
por ordem de Moraes, inclusive a que recebe o salário de procuradora. A defesa
foi ao Supremo dizendo que aquele dinheiro sustentava ela e as filhas. mas o
bloqueio continuou.
Dois dias em Orlando
Em 13 de abril de 2026, Ramagem foi
detido pelo ICE, o serviço de imigração americano, em Orlando. Passou dois dias
em um centro de detenção do Condado de Orange e saiu em 15 de abril, sem
fiança, porque tinha um pedido de asilo em análise.
Não sei o que uma mãe diz a duas
filhas numa hora dessas, longe de casa, em outro idioma. Imagino que Rebeca
também não soubesse.
Cinco dias depois, veio o capítulo que
ninguém esperava. O Departamento de Estado mandou deixar o país o delegado da
PF Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação brasileiro junto ao ICE em
Miami, apontado como peça da detenção. A nota americana foi dura: nenhum
estrangeiro pode manipular o sistema de imigração dos Estados Unidos para
contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao
território americano.
Perseguição política. Não fui eu e nem
foi Rebeca quem usou a expressão. Foi o governo dos Estados Unidos.
Era a confirmação, vinda de
Washington, do que ela dizia havia meses.
A decisão
Algumas pessoas atravessariam tudo
isso querendo sumir. Rebeca escolheu o caminho oposto.
Em 24 de julho de 2026, anunciou que
seria candidata a deputada federal pelo PL do Rio de Janeiro. “Hoje nós vivemos
fora do Brasil, não por escolha, mas porque a injustiça nos trouxe até aqui”,
disse. E fez a promessa que resume a campanha: “Se meu marido não pode retornar
agora, eu vou poder.”
Até o direito de concorrer virou
processo. A Procuradoria Regional Eleitoral contestou o registro, e o relator
no TRE-RJ, Paulo Cesar Salomão Filho, votou contra, por enxergar na candidatura
a continuidade do projeto político do marido.
A pergunta que estava na mesa ia além
dela: uma mulher pode perder direitos políticos pelos atos atribuídos ao
marido?
E ela não vem do nada. Nos últimos
anos, a Justiça Eleitoral se acostumou a decidir quem pode entrar no jogo. Em
junho de 2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos por causa
de uma reunião com embaixadores. No último sábado, 19 de setembro, foi a vez de
Deltan Dallagnol: o ministro Floriano de Azevedo Marques, do TSE, suspendeu
sozinho a campanha dele ao Senado pelo Paraná, atendendo a um pedido da
coligação do PT, dez dias depois de o TRE-PR ter liberado o registro por 4
votos a 3. Deltan ficou proibido de usar o fundo eleitoral, de aparecer na
propaganda de rádio e TV e até de participar de debates. O caso ainda vai ao
plenário.
E quem é Floriano de Azevedo Marques?
Em 24 de maio de 2023, Lula almoçou com Moraes no Planalto, fora da agenda
oficial, para discutir as vagas do TSE. Horas depois, quem anunciou a nomeação
de Floriano no plenário do Supremo não foi o Planalto. Foi o próprio Moraes. O
escolhido é professor da mesma faculdade de Moraes e já declarou em público que
os dois são amigos há 40 anos. Um mês depois da posse, votou para tornar
Bolsonaro inelegível.
Bolsonaro em 2023. Deltan em 2026. O
mesmo ministro nos dois casos.
Na semana passada, no horário
eleitoral, Flávio Bolsonaro disse que Lula dividiu o seu poder com Alexandre de
Moraes. O caminho de Floriano até a cadeira de onde suspendeu Deltan mostra
como essa divisão funciona na prática: um nomeia, o outro anuncia, e os
adversários dos dois vão sendo tirados do jogo.
Com Rebeca, dessa vez, o tribunal
regional respondeu que não. Em 17 de setembro, o tribunal deferiu o registro
por 5 votos a 2. Até a desembargadora que votou contra reconheceu, antes de
votar, que Rebeca tem carreira própria e certidões em ordem.
Hoje ela faz campanha a milhares de
quilômetros do Rio. Nas ruas da cidade, quem pede voto em seu lugar são totens
com a sua foto e voluntários vestindo camisetas com a frase “Faça Justiça”.
Há algo de comovente, e de duro, numa
candidata que só consegue estar na própria cidade em papelão.
O que fica
Para mim, não há zona cinzenta nessa
história. Um homem inocente foi empurrado para o exílio. Sua mulher teve as
malas reviradas diante das filhas e o salário bloqueado.
Quando um regime não se contenta em
calar um homem e passa a alcançar a mulher e as filhas dele, ele revela
exatamente o que é.
Rebeca decidiu responder na urna. A
resposta, agora, é do eleitor.
Ela costuma dizer que caminha pela fé.
Se for da vontade de Deus, como acredita, haverá outro capítulo para contar. E
eu espero que esse capítulo termine com a família inteira de volta para casa.
Mas uma coisa já aconteceu. Rebeca transformou a dor da família em causa, e a causa em candidatura. Longe de casa, ao lado do marido e das filhas, decidiu que a história deles não seria contada só pelos outros.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
24-9-2026
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A emocionante e emocionada "democracia" no Brasil

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