Aparecido Raimundo de Souza
Se do nada eu não aparecesse
mais, nem para mim mesmo e, em via paralela, não mandasse mensagens, saísse do
WhatsApp, do Facebook, e não atendesse o telefone celular, enfim, se eu não
deixasse nenhum rastro, quem em sã consciência e os pés no chão, sairia do
conforto da sua casa, deixando a sua novela favorita, bem ainda seus filmes
antigos na Rede Brasil de Televisão e se aventuraria a me procurar? Será que
uma alma caridosa perceberia a minha falta no primeiro dia? Ou, via outra, as
pessoas que fazem parte ativa do meu dia a dia só notariam a minha ausência
quando precisassem de algo imprescindível?
Quando menciono “precisassem
de algo”, sinalizo uma “minuciosidade pormenorosa” e iminente, algo que mudasse
a rotina e parasse de funcionar, ou por outra, no momento em que alguma rotina
cotidiana comum a todos se quebrasse, ou ainda, quando uma obrigação
considerada urgente ficasse por fazer? Será que alguém, o vizinho do lado, o
velhote do apartamento contíguo ao meu, a gostosona do 501, que praticamente
todo final de noite bate na minha porta pedindo uma xícara de açúcar sentiria o
vazio de não ouvir a minha voz, ou apenas lhe toldasse a mente o inconveniente
do rotulado “pau pra toda obra” não se achar no pedaço na hora em que o pronto
socorre carecesse de um adjutório imediato?
Imagino aquelas criaturas que dizem que me amam. “Eu te amo, eu te adoro, não suportaria ficar sem você...” será, meu Deus, será que correriam atrás, perguntariam por mim, bateriam em inquilinos de outros apartamentos, ligariam para desconhecidos, amigos, porteiros e parentes, ou no pior dos mundos, revirariam os lugares onde eu costumava frequentar? Ou no pior dos mundos, todos permaneceriam abobalhados e se quedariam apenas esperando, ou achando que era só mais um momento de distância e que eu voltaria a dar o ar da graça quando me cansasse de estar em lugar incerto e não sabido?
Penso nos meus filhos, nos meus netos, nas minhas ex, naqueles rebentos que um dia segurei no colo e sonhei em ver crescer. Será que eles assimilariam temerosos que por algum motivo inexplicável faltava uma parte de mim dentro deles? Ou com o tempo o meu nome se tornaria apenas uma palavra distanciada e um patronímico sem força de maiores apreensões e cairia tudo num vulgar insosso, atrelado a uma história que se conta de passagem, até que ninguém mais se lembrasse, ou vez ou outra, fosse trazido à baila?
Igualmente me acorre os
amigos, os companheiros, as pessoas que passaram pela minha vida e deixaram
marcas — ou que eu achei erroneamente que construí algo sólido que perdurasse.
Quantos e quantas dariam por mim, quantos e não sei quantas estancariam os afazeres
de seus mundinhos particulares, abandonariam as suas vidinhas medíocres para me
buscarem, ou seguiriam por sendas e trilhas inversas, apenas iluminados com
suspiros tediosos e um simples e fracassado refrão... "que pena, cá entre
nós, o Aparecido, cara, o Aparecido era uma boa pessoa!...”
Nessa hora certamente
borbulharia à tona a bomba do horror maldito, o desespero de mãos dadas com um
silêncio constrangedor: e se ninguém por algum motivo não viesse? E se eu
sumisse no sentido látego da palavra e o mundo sem porteira continuasse girando
do mesmo jeito, as pessoas seguindo as suas vidas, os dias se sucedendo, e eu
ficasse apenas como um mísero detalhe? Algo sem valor, tipo uns amontoados de
bostas fedorentas e insignificantes que aos bocados poucos se veriam enterradas
pela poeira do dia a dia, ou pior, se apagassem como fotos antigas dos tempos
do ronca, igualitárias as efígies e estampas que de tão envelhecidas e
amareladas se desmanchariam, como os corpos de um bom punhado de brasileiros
nos idos da ditadura militar e a galera me esqueceria no para sempre nos
cafundós do nunca mais?
Por vezes, penso diferente
consultando os meus botões: talvez eu esteja redondamente errado. Quem sabe,
hajam olhos arregalados de silêncio e espanto que procurariam por mim antes
mesmo de eu perceber que estou longe do meu convívio. Corações tresloucados que
amargariam a minha ausência e, que por conta, bateriam no meu encalço como se
fossem oriundos da própria falta que eu deixei. Pessoas amigas para quem eu sou
mais do que eu mesmo consigo ver em mim ou enxergar com aquela clareza
cristalina quando estou com essas idéias sem pé nem cabeça dentro da minha
insanidade...
Mas há uma pergunta que não me
larga, que não se aparta, enfim, prevalece a indagação brutal e esquizofrênica
que não quer calar. Essa filha de uma rapariga continua aqui, segue dentro de
meu “eu”, se faz quieta, parada, algemada e se embrenha pesarosa nos cantinhos
ocultos da minha alma: se eu sumisse de vez… caramba, quem viria até o fim do
mundo para me procurar e me trazer de volta?
Talvez a resposta mais primorosa e ao mesmo tempo mais dolorosa e
verdadeira, seja essa ou fosse essa: eu queria acreditar que muitos, muitos
viriam. Muitos mesmos. Um bom punhado.
Todavia, no fundo, no mais
cavernoso, a bem de uma realidade nua e crua, ou de uma autenticidade o que eu
realmente esperaria é que houvesse, pelo menos, um ser caridoso que se
importasse. Apenas um filho de Deus, uma alma de concepção elevada que não desistisse,
que não parasse, que me procurasse incansavelmente até me encontrar, não
importando o buraco negro onde eu estivesse, ou em que longínquo fétido e
pútrido atoleiro eu me achasse escondido. Quem sabe, cá entre nós, eu,
renascesse dos restos de uma vida sem sentido, desagasalhado e amedrontado,
cativo dos meus próprios receios criados à revelia imaginosa e sinistra dos
escombros retorcidos de tudo aquilo que um dia, num ontem esquecido, sobrou de
mim mesmo.
Título e Texto: Aparecido
Raimundo de Souza, de Nova Venécia, no Espírito Santo, 8-9-2026
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