Aparecido Raimundo de Souza
Uma gaveta feita sob medida, com nome e endereço, e nenhuma se mistura
com a outra. Essa teoria nos leva a acreditar piamente que o tempo é o grande
armário. E nós, sem perceber, vamos arrumando tudo lá dentro, acertando com
cuidado ou às vezes às pressas, empurrando, guardando, fechando a porta do
armário, esperando que fique tudo quieto, que não incomode, que não volte mais.
Tem gaveta que abrimos com facilidade, assim meio de leve, como quem dá
um sopro, ou toca uma flor. Ali ficam as coisas leves: o riso de quem amamos,
um dia de sol vindo diretamente das profundezas da infância, uma palavra de
amor, de carinho, de felicidade, de lembranças que alguém nos disse quando mais
precisávamos.
A porta desse armário abre sempre quando menos se espera. E quando isso
ocorre, às vezes escancara o que queremos, e o ar que sai de dentro dela é bom
é benfazejo, traz calor, traz lembrança e o melhor de tudo, renova aquela
esperança imorredoura que acolhe. Tem outras ocasiões, porém, que ficam
pesadas, se deterioram com a madeira já inchada de tanta umidade e choro
guardado.
Choro sentido, lacrimoso, e plangentemente duradouro. Ali nessas lágrimas
dolentes, estão os trocentos erros que cometemos, as despedidas que doeram, os
amores que se foram sem nenhuma explicação plausível, bem ainda as promessas
que quebramos ou que despedaçaram conosco. Essas gavetas, todas elas a gente
empurra com força, para a barriga, impulsiona, estimula, bate a tampa, às vezes
até sem percebemos, trancamos e como se nada tivesse acontecido.
O fato é que a gente segue adiante, caminha fingindo que não existe, que está vazia, ou que o armário é pequeno e não cabe mais nada. Mas a regra maior dessa teoria é esta: nenhuma gaveta some, desaparece, cria asas e voa porque a gente esquece ou fecha e esquece dela e no pior dos mundos, abandona. Ela continua ali, no mesmo lugar, gruda no sangue, se faz intacta, com tudo o que tem dentro, ou seja, nem envelhece, nem perde o sentido, nem deixa de ser uma parte de nós.
O que muda é só a gente. Com isso, crescemos, aprendemos, ganhamos calos
e paciência. Resumindo, um dia, sem querer, sem percebermos, passamos por ali e
a mão toca novamente o puxador. Às vezes abrimos o armário inopinadamente sem
querer e vemos que aquilo que parecia o fim do mundo, hoje é só uma história
contada com calma, com um quê de esperança e felicidade.
O que parecia anormal, aperreador e insuportável, ou ainda infernal e
tresloucado, agora cabe na palma da nossa mão. O que parecia não ter saída,
escape, perdão, num piscar de olhos ganhou compreensão. Descobrimos,
estarrecidos e atônitos, que não precisamos jogar nada fora, absolutamente
nada, porque até o que doeu se construiu com energia renovada.
Palavras sábias da escritora Telma Guimarães Castro Andrade, autora do
livro “Viver um grande amor”, publicado pela Editora Scipicione. Percebam: Ela
arremata: “Com isso nos refazemos em tudo o que somos hoje”. Há quem diga
também que “viver é justamente isso: encher o armário e aprender a organizar”.
Créditos destas linhas da escritora Marcia Leite, autora do livro “Enfim
sós”. Entre tapas e beijos, beliscões e bordoadas, “devemos separar dentro de
nossas gavetas, tudo o que serve de lição, o que serve de lembrança, o que
serve de exemplo para não repetir os erros de um ontem ainda presente.
Devo observar que devemos ter em mente e sobretudo entender que nenhuma
gaveta é inútil, mesmo aquela que guarda perdas, perdões tardios,
arrependimentos e caminhos que não deram certo. Nessa confusão toda, qual o
melhor da teoria? Bem, o melhor da
teoria é um só: Ninguém leva o armário inteiro quando parte.
Mas em contrapartida, deixa gavetas abertas para os outros encontrarem um
conselho, um gesto, um jeito de amar, uma história que ensina algo de bom e
aproveitável. E quando alguém, anos depois, abrir aquela porta do armário ou
escancarar uma simples gaveta, vai encontrar um pouco de nós, ainda vivo,
respirando, como se tivéssemos ficado ali esperando, só para dizer: “estive aqui, vivi isso, e tudo o que vivi e
passei, valeu a pena”.
No fim das contas, somos indubitavelmente o conjunto de todas as gavetas
que carregamos. E o que realmente importa, o que realmente faz toda a diferença
não é o que guardamos fechado, mas o que aprendemos a levar dentro da alma, no
interior do coração, algo leve, solto, sem dores e aborrecimentos, bem ainda
sem precisar trancar tudo a sete chaves. Trancar tudo a sete chaves, nunca
mais.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES,
25-9-2026
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