Carina Bratt
SEREI BREVE nas minhas ‘Danações’ de hoje. Reparem. Nesses tempos modernos, em que vivemos, um saco de gatos miando desordenadamente surgem com doenças velhas, incômodos e enfermidades maquiadas com rostinhos de santinhos do pau oco. Faço referência aqueles padecimentos que não aparecem em exames, que não tem nome médico definido, ou remédio milagroso que especialista, por mais estudado que seja, em aviar uma receita, chega perto do privilégio da cura. E que doença é essa?
É a doença de simplesmente ser ‘mulher’.
Mulher doente, no sentido de ter ao seu lado um homem que, em vez de cama, faz
dela um campo de batalha. Elas deitam com febre, com dor nos ossos, com a alma
cansada e estuporada de lutar, de pelejar com unhas e dentes contra o próprio
corpo e em vez de uma mão caridosa na testa, umas palavras suaves, um copo de
água trazida com a calma necessária, recebem um ajuntamento de cobranças, um
calhamaço de silêncios que pesam, que ferem, que mortificam, seguidos sempre de
comentários infames que cortam mais fundo que qualquer cirurgia conhecida nos
campos da medicina.
’Você só quer atenção.’ ‘Isso é frescura.’ ‘Já cansei de cuidar de você.’ ‘Vá para os quintos do inferno e leve o diabo junto’. Frases impróprias que não saem de uma boca de quem ama, mas de um vomitador nojento, de um desgraçado insano de quem se acha deus e por conta disso, vê a esposa como um objeto vulgar e que pelo fato de ter parado de funcionar, carece, com certa urgência ser substituída por outra. De preferência, mais nova.
O procedimento cruel não é feito com
bisturi. É feito dia após dia, com pequenas facadas invisíveis: o desprezo a
ausência, o esquecimento quando ela mais precisa, a indiferença diante da dor,
a comparação com outras mulheres que ‘nunca ficam doentes’, a raiva por ver que
a vida a dois deixou de ser festa e passou a ser também de cuidado. Ele nessa
hora esquece que o amor não é só para os dias de saúde e riso. É também e
principalmente para os dias todos da febre teimosa, de choro convulso, de medo
tétrico e do terror sem fronteiras do que vem ou possa vir pela frente. Muitas
vezes, a doença do corpo é menor do que a chaga de viver ao lado de quem não
respeita a fragilidade humana.
E assim, elas curam o corpo, espantam a
doença, mas a alma, ah, a alma fica à mercê de um vazio. Um vazio imenso,
intransponível, tipo um buraco negro incomensurável que dia após dia se torna
uma ferida incurável difícil de ser afastada de modo definitivo. Apesar disso,
elas voltam a andar, a trabalhar, a sorrir, mas por dentro, algo se partiu para
todo o sempre. Porque o pior da enfermidade não é a dor que o corpo sente: é
descobrir que, quando essa mulher mais precisou de um porto seguro, de uma mão
amiga, encontrou no lugar (falo no lugar dele), apenas mais uma ‘fustigosa’ e
flagelada tempestade. Uma admoestação que parece não tem princípio nem fim.
Homens que fazem isso não sabem: a mulher
perdoa a doença, perdoa a dor, perdoa a sorte. Contudo, não perdoa ter sido
abandonada em sua própria cama, por quem deveria ter ficado a seu lado,
seguindo ombro a ombro. E um dia, quando a tempestade passa, ela se levanta, e
ao se pôr de pé, fecha a porta do coração, e ele o marido, o amante, o ficante,
o ‘quebra galho’, o machão, o senhor do pedaço, percebe tarde demais: em
epítome, se conecta com a sua vidinha medíocre e não vendo solução plausível,
percebe que a ficha caiu. Nessa hora, sabe, ou melhor entende, tem consciência
que perdeu não uma doente, mas jogou na lata de lixo, a mulher verdadeiramente
boa e leal, sincera e amorosa, aquela companheira que o amava de verdade.
Título e Texto: Carina Bratt, de Nova
Venécia, no Espírito Santo – ES, 6-9-2026
Pequeno tratado sem fins comerciais para o que hoje conhecemos como ‘fuga’
Onde irei achar a minha felicidade?
Quanto tempo falta?
No dia dos pais, minha mãe...
[As danações de Carina] E se dissesse tudo o que eu sinto, você ainda me olharia assim?
‘Esdruxulidades’ para ninguém botar defeitos

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