domingo, 6 de setembro de 2026

[As danações de Carina] Mulheres enfermas e seus maridos portadores de procedimentos cruéis em decorrência de uma vida a dois deteriorada e sem futuro

Carina Bratt

SEREI BREVE nas minhas ‘Danações’ de hoje. Reparem. Nesses tempos modernos, em que vivemos, um saco de gatos miando desordenadamente surgem com doenças velhas, incômodos e enfermidades maquiadas com rostinhos de santinhos do pau oco. Faço referência aqueles padecimentos que não aparecem em exames, que não tem nome médico definido, ou remédio milagroso que especialista, por mais estudado que seja, em aviar uma receita, chega perto do privilégio da cura. E que doença é essa? 

É a doença de simplesmente ser ‘mulher’. Mulher doente, no sentido de ter ao seu lado um homem que, em vez de cama, faz dela um campo de batalha. Elas deitam com febre, com dor nos ossos, com a alma cansada e estuporada de lutar, de pelejar com unhas e dentes contra o próprio corpo e em vez de uma mão caridosa na testa, umas palavras suaves, um copo de água trazida com a calma necessária, recebem um ajuntamento de cobranças, um calhamaço de silêncios que pesam, que ferem, que mortificam, seguidos sempre de comentários infames que cortam mais fundo que qualquer cirurgia conhecida nos campos da medicina.

’Você só quer atenção.’  ‘Isso é frescura.’ ‘Já cansei de cuidar de você.’ ‘Vá para os quintos do inferno e leve o diabo junto’. Frases impróprias que não saem de uma boca de quem ama, mas de um vomitador nojento, de um desgraçado insano de quem se acha deus e por conta disso, vê a esposa como um objeto vulgar e que pelo fato de ter parado de funcionar, carece, com certa urgência ser substituída por outra. De preferência, mais nova.

O procedimento cruel não é feito com bisturi. É feito dia após dia, com pequenas facadas invisíveis: o desprezo a ausência, o esquecimento quando ela mais precisa, a indiferença diante da dor, a comparação com outras mulheres que ‘nunca ficam doentes’, a raiva por ver que a vida a dois deixou de ser festa e passou a ser também de cuidado. Ele nessa hora esquece que o amor não é só para os dias de saúde e riso. É também e principalmente para os dias todos da febre teimosa, de choro convulso, de medo tétrico e do terror sem fronteiras do que vem ou possa vir pela frente. Muitas vezes, a doença do corpo é menor do que a chaga de viver ao lado de quem não respeita a fragilidade humana.

E assim, elas curam o corpo, espantam a doença, mas a alma, ah, a alma fica à mercê de um vazio. Um vazio imenso, intransponível, tipo um buraco negro incomensurável que dia após dia se torna uma ferida incurável difícil de ser afastada de modo definitivo. Apesar disso, elas voltam a andar, a trabalhar, a sorrir, mas por dentro, algo se partiu para todo o sempre. Porque o pior da enfermidade não é a dor que o corpo sente: é descobrir que, quando essa mulher mais precisou de um porto seguro, de uma mão amiga, encontrou no lugar (falo no lugar dele), apenas mais uma ‘fustigosa’ e flagelada tempestade. Uma admoestação que parece não tem princípio nem fim.

Homens que fazem isso não sabem: a mulher perdoa a doença, perdoa a dor, perdoa a sorte. Contudo, não perdoa ter sido abandonada em sua própria cama, por quem deveria ter ficado a seu lado, seguindo ombro a ombro. E um dia, quando a tempestade passa, ela se levanta, e ao se pôr de pé, fecha a porta do coração, e ele o marido, o amante, o ficante, o ‘quebra galho’, o machão, o senhor do pedaço, percebe tarde demais: em epítome, se conecta com a sua vidinha medíocre e não vendo solução plausível, percebe que a ficha caiu. Nessa hora, sabe, ou melhor entende, tem consciência que perdeu não uma doente, mas jogou na lata de lixo, a mulher verdadeiramente boa e leal, sincera e amorosa, aquela companheira que o amava de verdade.

Título e Texto: Carina Bratt, de Nova Venécia, no Espírito Santo – ES, 6-9-2026

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