Gastão Reis
Política e mentira têm um
parentesco muito próximo. Talvez seja um exagero afirmar que sejam irmãs
gêmeas, mas não estaríamos muito longe do que realmente são. Na vida dos povos,
é importante saber com que grau de tolerância ela foi tratada; em que períodos
foi aceita em maior ou menor grau e aqueles em que não foi tolerada, bem como
saber as consequências provocadas por cada uma dessas posturas em relação à
mentira na política.
Uma pequena volta à nossa
História do século XIX é salutar para verificar a quantas andavam as mentiras
na política daqueles tempos. Em linhas gerais, tinham pernas curtas, bem
diferente do que ocorre hoje, cujas pernas são longas e andam a passos largos.
Por volta de 1915, Ruy Barbosa, já completamente desiludido com a República,
afirmava: “O Parlamento do Império era uma escola de estadistas; o Congresso da
República virou um balcão de negócios”. Observe, caro(a) leitor(a), que o
balcão já comemorou mais de 100 anos de roubalheiras e desrespeito ao dinheiro
público.
Obviamente, isto não quer
dizer que os políticos do Império nunca mentiram. Mas eles se policiavam muito
porque sabiam da existência do Poder Moderador, sempre atento aos desmandos do
"andar de cima", o que incluía as mentiras. Tudo isso mudou,
repentinamente, na primeira década republicana (1890-1899), com a enganação por
atacado no chamado Encilhamento. A liberação de emissão de moeda pelos bancos e
o crédito fácil deram-se as mãos para um processo de especulação em alta dose,
sem a fiscalização adequada. Ao longo da chamada República Velha (1889-1930),
ainda houve alguns presidentes responsáveis no trato do dinheiro público.
Curiosamente, os três melhores foram antigos conselheiros do Império, época em
que se levava a sério essa questão. Depois veio a ditadura de Getúlio Vargas
(1930-1945), aquele que a verve dos cariocas chamava de "pai dos pobres e
mãe dos ricos". É fato que Vargas, pessoalmente, foi muito diferente de
Perón, cuja fortuna pessoal, após sua queda em 1955, bateu em 200 milhões de
dólares atuais. A ressalva a Vargas não implica que não tenha havido favores e
corrupção em seu período ditatorial.
Mas a verdade é que os tempos republicanos não foram nada exemplares no trato do dinheiro público. Os dias atuais são caso de vergonha nacional sem a devida punição. Chegamos mesmo ao que podemos chamar de mentira institucional no 8 de Janeiro, que tentaram rotular de tentativa de golpe de Estado orquestrada pelo ex-presidente Bolsonaro, que estava nos EUA. Pensar em dar um golpe, algo muito comum na tradição golpista republicana brasileira, virou um golpe que não houve. E foi assim que se instituiu o crime de pensamento — que pode ou não ter ocorrido —, duramente criticado pelo ministro Fux em seu longo voto de mais de 9 horas em sessão solene do STF.
Mas, em matéria de mentiras na
política, o campeão hors-concours é, sem dúvida, o sr. Luiz Inácio Lula
da Silva. Ele mesmo já admitiu ter mentido aqui e lá fora. Uma das mais famosas
declarações na Europa foi afirmar que havia no Brasil mais de 40 milhões de
jovens perambulando pelas ruas do país, algo que jamais houve. Mas o ponto alto
das mentiras seriais se deu em sua entrevista como candidato a presidente dada
à Rede Globo, em 27/8/2022. Vamos a ela. Antes de mais nada, cabe ressaltar que
existe algo de profundamente errado com o Patropi quando um candidato a
presidente se sente à vontade para mentir, em dose cavalar, diante de uma
expressiva parcela da população atenta ao que via e ouvia na telinha de suas
TVs. Uma breve pesquisa via Google nos fornece números que deveriam enrubescer
o semblante do atual presidente. Mas a cara de pau que ostenta não permite que
fique avermelhada.
Uma consulta ao Google para
saber dos percentuais de mentiras e meias verdades nos dá a resposta. Em apenas
40 minutos, Lula conquistou facilmente o primeiro lugar dentre os presidentes
mais mentirosos do mundo; teria lugar de destaque no Guinness Book. As falas de
Lula foram classificadas da seguinte forma: 26% falsas (inverdades e mentiras);
26% parciais (meias verdades); 37% verdadeiras (respaldadas por dados
oficiais); e 11% não verificáveis.
Se somarmos as declarações
falsas (26%) com as meias verdades (26%), chegamos a 52%. Ou seja, na maior
parte do tempo da entrevista, Lula mentiu ou afirmou meias verdades. Um
absoluto desrespeito à população que assistiu à entrevista. Tal desfaçatez em apenas
40 minutos é impensável para qualquer presidente ou primeiro-ministro europeu.
Como são países parlamentaristas, um voto de desconfiança os mandaria para casa
no dia seguinte. É invejável a velocidade da punição em um regime parlamentar,
que foi o nosso até 1889...
Alguns exemplos revelam o
desrespeito aos fatos. Afirmou que o PIB só voltou a crescer acima de 2% ao ano
após sua volta à presidência quando, em 2021 e 2022, os percentuais de
crescimento foram, respectivamente, de 4,76% e 3,02%. Não satisfeito, emendou
outra mentira ao se referir ao déficit fiscal herdado em janeiro de 2023 como
sendo de 2,8%, quando de fato recebeu um superávit primário de 0,6% em 2022. Ao
declarar que não conhecia a lobista Roberta Luchsinger, três fotos dos dois
estampadas em um jornal mostraram que ela era sua queridinha. A erradicação da
fome, sempre proclamada por Lula, é mais uma mentira dele.
A questão maior envolvida no
episódio da (des)entrevista, onde mais enganou do que propôs, é realmente
séria. No fundo, Lula apostou na desmemória nacional e no clima de
"vale-tudo" na política brasileira. Ele, obviamente, é adepto do
“política é assim mesmo”, jargão muito comum nas rodas de cafezinho diário
Brasil afora. Em outras palavras, para ele, sua proposta política de quinta
categoria, com muita mentira e roubalheira, mal ou bem, tem sido tolerada sem
punições.
A situação se assemelha à
resposta dada pelo Barão de Itararé quando lhe perguntaram o que era o Estado
Novo de 1937, de Getúlio Vargas. Ele foi curto e grosso na resposta: “É o
estado a que chegamos!”. Estamos na mesma situação. Cabe a nós, brasileiros e
brasileiras, dar um enfático NÃO a este estado de coisas para abrir espaço para
outros horizontes realmente decentes na política.
Nota: Digite no
Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: O que a revista VEJA não viu”.
Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=qS3-k352Ktc&t=3s
Contato: gastaoreis2@gmail.com
Título, Imagem e Texto: Gastão Reis, O Dia, 5-9-2026, 0h
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