sábado, 5 de setembro de 2026

Lula e a mentira (colossal) na política

Gastão Reis

Política e mentira têm um parentesco muito próximo. Talvez seja um exagero afirmar que sejam irmãs gêmeas, mas não estaríamos muito longe do que realmente são. Na vida dos povos, é importante saber com que grau de tolerância ela foi tratada; em que períodos foi aceita em maior ou menor grau e aqueles em que não foi tolerada, bem como saber as consequências provocadas por cada uma dessas posturas em relação à mentira na política.

Uma pequena volta à nossa História do século XIX é salutar para verificar a quantas andavam as mentiras na política daqueles tempos. Em linhas gerais, tinham pernas curtas, bem diferente do que ocorre hoje, cujas pernas são longas e andam a passos largos. Por volta de 1915, Ruy Barbosa, já completamente desiludido com a República, afirmava: “O Parlamento do Império era uma escola de estadistas; o Congresso da República virou um balcão de negócios”. Observe, caro(a) leitor(a), que o balcão já comemorou mais de 100 anos de roubalheiras e desrespeito ao dinheiro público.

Obviamente, isto não quer dizer que os políticos do Império nunca mentiram. Mas eles se policiavam muito porque sabiam da existência do Poder Moderador, sempre atento aos desmandos do "andar de cima", o que incluía as mentiras. Tudo isso mudou, repentinamente, na primeira década republicana (1890-1899), com a enganação por atacado no chamado Encilhamento. A liberação de emissão de moeda pelos bancos e o crédito fácil deram-se as mãos para um processo de especulação em alta dose, sem a fiscalização adequada. Ao longo da chamada República Velha (1889-1930), ainda houve alguns presidentes responsáveis no trato do dinheiro público. Curiosamente, os três melhores foram antigos conselheiros do Império, época em que se levava a sério essa questão. Depois veio a ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), aquele que a verve dos cariocas chamava de "pai dos pobres e mãe dos ricos". É fato que Vargas, pessoalmente, foi muito diferente de Perón, cuja fortuna pessoal, após sua queda em 1955, bateu em 200 milhões de dólares atuais. A ressalva a Vargas não implica que não tenha havido favores e corrupção em seu período ditatorial.

Mas a verdade é que os tempos republicanos não foram nada exemplares no trato do dinheiro público. Os dias atuais são caso de vergonha nacional sem a devida punição. Chegamos mesmo ao que podemos chamar de mentira institucional no 8 de Janeiro, que tentaram rotular de tentativa de golpe de Estado orquestrada pelo ex-presidente Bolsonaro, que estava nos EUA. Pensar em dar um golpe, algo muito comum na tradição golpista republicana brasileira, virou um golpe que não houve. E foi assim que se instituiu o crime de pensamento — que pode ou não ter ocorrido —, duramente criticado pelo ministro Fux em seu longo voto de mais de 9 horas em sessão solene do STF.

Mas, em matéria de mentiras na política, o campeão hors-concours é, sem dúvida, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva. Ele mesmo já admitiu ter mentido aqui e lá fora. Uma das mais famosas declarações na Europa foi afirmar que havia no Brasil mais de 40 milhões de jovens perambulando pelas ruas do país, algo que jamais houve. Mas o ponto alto das mentiras seriais se deu em sua entrevista como candidato a presidente dada à Rede Globo, em 27/8/2022. Vamos a ela. Antes de mais nada, cabe ressaltar que existe algo de profundamente errado com o Patropi quando um candidato a presidente se sente à vontade para mentir, em dose cavalar, diante de uma expressiva parcela da população atenta ao que via e ouvia na telinha de suas TVs. Uma breve pesquisa via Google nos fornece números que deveriam enrubescer o semblante do atual presidente. Mas a cara de pau que ostenta não permite que fique avermelhada.

Uma consulta ao Google para saber dos percentuais de mentiras e meias verdades nos dá a resposta. Em apenas 40 minutos, Lula conquistou facilmente o primeiro lugar dentre os presidentes mais mentirosos do mundo; teria lugar de destaque no Guinness Book. As falas de Lula foram classificadas da seguinte forma: 26% falsas (inverdades e mentiras); 26% parciais (meias verdades); 37% verdadeiras (respaldadas por dados oficiais); e 11% não verificáveis.

Se somarmos as declarações falsas (26%) com as meias verdades (26%), chegamos a 52%. Ou seja, na maior parte do tempo da entrevista, Lula mentiu ou afirmou meias verdades. Um absoluto desrespeito à população que assistiu à entrevista. Tal desfaçatez em apenas 40 minutos é impensável para qualquer presidente ou primeiro-ministro europeu. Como são países parlamentaristas, um voto de desconfiança os mandaria para casa no dia seguinte. É invejável a velocidade da punição em um regime parlamentar, que foi o nosso até 1889...

Alguns exemplos revelam o desrespeito aos fatos. Afirmou que o PIB só voltou a crescer acima de 2% ao ano após sua volta à presidência quando, em 2021 e 2022, os percentuais de crescimento foram, respectivamente, de 4,76% e 3,02%. Não satisfeito, emendou outra mentira ao se referir ao déficit fiscal herdado em janeiro de 2023 como sendo de 2,8%, quando de fato recebeu um superávit primário de 0,6% em 2022. Ao declarar que não conhecia a lobista Roberta Luchsinger, três fotos dos dois estampadas em um jornal mostraram que ela era sua queridinha. A erradicação da fome, sempre proclamada por Lula, é mais uma mentira dele.

A questão maior envolvida no episódio da (des)entrevista, onde mais enganou do que propôs, é realmente séria. No fundo, Lula apostou na desmemória nacional e no clima de "vale-tudo" na política brasileira. Ele, obviamente, é adepto do “política é assim mesmo”, jargão muito comum nas rodas de cafezinho diário Brasil afora. Em outras palavras, para ele, sua proposta política de quinta categoria, com muita mentira e roubalheira, mal ou bem, tem sido tolerada sem punições.

A situação se assemelha à resposta dada pelo Barão de Itararé quando lhe perguntaram o que era o Estado Novo de 1937, de Getúlio Vargas. Ele foi curto e grosso na resposta: “É o estado a que chegamos!”. Estamos na mesma situação. Cabe a nós, brasileiros e brasileiras, dar um enfático NÃO a este estado de coisas para abrir espaço para outros horizontes realmente decentes na política.

Nota: Digite no Google “Dois Minutos com Gastão Reis: Políticos: O que a revista VEJA não viu”. Ou pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=qS3-k352Ktc&t=3s

Contato: gastaoreis2@gmail.com

Título, Imagem e Texto: Gastão Reis, O Dia, 5-9-2026, 0h 

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