sábado, 5 de setembro de 2026

[Versos de través] Nunca mais

Manuel Cândido Pimentel 

Confiei rosas vermelhas à tua campa. Destas pétalas o orvalho dos meus olhos
deslizou numa melodia de cisne para a terra. Meu amor em repouso,
este fogo que arde e não se extingue, e esta lava que me lava o coração,
pudessem eles num conto de fadas erguer-te de novo para a vida,
e eu afundar-me ia com gosto no chão que te cobre… e seria raiz,
e caule e botão em frol cujo olor te desse de novo o que a morte te levou.
Dizem-me os antigos que os deuses amam aqueles jovens que se foram.
Mas eis-me aqui, a sós com a tua memória, contristado pela tua partida.
A mole do universo é indiferente à minha dor.
Os espaços estelares são indiferentes ao meu desejo.
O mar ao longe não sabe do meu amor.
O sol brilha impassível à força do meu beijo.
Nada ressuscita na terra calcinada deste campo-santo.
Tudo é definitivo, tudo tem a medida do adeus.
Só a memória medra para dentro da dor,
tudo é de pedra… e até ouço as rosas que te dei
num rumor de palavras entre elas… nunca nunca nunca mais!

Manuel Cândido Pimentel, Casa da Calçada, 18-2-2024  

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