quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O feitiço de Gotham: como a narrativa da doença apaga o crime

Maria Helena Costa

Demorei algum tempo a escrever sobre o tema que domina a comunicação social e as redes sociais há alguns dias. Não por falta de uma opinião formada sobre a tragédia, mas simplesmente porque tenho estado ocupada com outros assuntos e, verdade seja dita, já há demasiada gente a debitar linhas sobre o caso. No entanto, hoje, ao deparar-me com a frase deste grafismo da CNN Portugal — “Lindsay Clancy matou os três filhos. ‘O facto de termos um crime que foi planeado não lhe retira o ónus de ter sido causado pela doença mental’”—, foi-me impossível conter a reação. A leitura daquele argumento não me provocou apenas discórdia; empurrou-me, de imediato, para o imaginário de Gotham, a cidade de Batman.

Gotham City não é um cenário de ficção sobre o crime; é um tratado sobre o colapso das instituições. É uma cidade permanentemente em chamas, devorada pelo caos, pela destruição e pelo medo, onde a população conta os corpos nas ruas enquanto os criminosos mais perigosos entram e saem de um sistema que se recusa a puni-los. A tragédia de Gotham não nasce da falta de polícias ou de leis; nasce da ilusão burocrática de que a barbárie pode ser domesticada num divã. É esse mesmo labirinto psicológico que ameaça agora o nosso mundo real.

Lindsay Clancy não discute que estrangulou Cora, Dawson e Callan. O julgamento em Massachusetts discute se, no momento em que o fez, era criminalmente responsável. A frase que circulou na CNN Portugal resume a tese da defesa: o facto de o crime ter sido planeado não retira o ónus de ter sido causado pela doença mental.

Se o júri aceitar essa tese, ela não sai pela porta da prisão no dia do veredicto. Segue-se um internamento compulsivo numa unidade psiquiátrica de segurança, com revisões periódicas e o Ministério Público com voz nas decisões de uma eventual alta. Andrea Yates, o precedente mais invocado, nunca foi libertada. Isso é um facto. E é precisamente aqui que a analogia com Gotham deixa de ser uma caricatura e passa a ser um aviso.

Em Gotham, o Joker não precisava de ser “inocentado” no sentido quotidiano da palavra. Precisava de Arkham: um sítio que o classificava como doente, o continha temporariamente e, com o tempo, falhava. Ele fugia. A cidade pagava com as mortes que se seguiam. O sistema não abria a porta no primeiro dia; ia reclassificando o perigo, gerindo a narrativa da doença e da reabilitação até a contenção se tornar uma rotina administrativa. O mentor do mal não precisava de liberdade imediata. Precisava de um dispositivo que, uma vez o ato enquadrado como patologia, tratava o perigo com menos urgência do que tratava o diagnóstico.

Não é por acaso que chegámos aqui. Há anos que a própria indústria cultural nos treina para isto. Hollywood pegou no Joker e transformou-o num “coitadinho”, numa engrenagem indefesa e num mero “resultado do sistema”. A personagem sofreu uma operação de cosmética e limpeza tal que se tornou simpática aos olhos do público; o que outrora era o vilão cruel e o mau da fita passou a ser a vítima incompreendida de uma sociedade fria. Ao humanizar a monstruosidade sob o pretexto da empatia, a cultura preparou-nos para aceitar a premissa mais perigosa do nosso tempo: a de que os criminosos são apenas subprodutos das suas circunstâncias, indivíduos sem livre-arbítrio que agem com “motivos” compreensíveis e que, por isso, nunca devem ser verdadeiramente condenados.

O caso Clancy já mostrou premeditação, dissimulação e execução. Enviou o marido a buscar o jantar e um medicamento, criou a janela de tempo, usou elásticos de exercício, um filho de cada vez, no sítio onde as crianças deveriam estar mais seguras. Depois tentou o suicídio. Os peritos da acusação disseram que mantinha a capacidade de distinguir o certo do errado e de se controlar; os peritos da defesa falaram em psicose franca e numa voz que mandava matar. O júri decidirá o ponto jurídico. A sociedade está a decidir outra coisa: se o planeamento detalhado de três homicídios de crianças pode ser sistematicamente secundarizado perante o rótulo clínico.

O risco verdadeiro não é a alta formal daqui a dois ou cinco anos. É o processo lento pelo qual o sistema, sob pressão cultural, mediática e associativa, reclassifica o perigo. “Não-estigmatização.” “Reabilitação.” “Ela já sofreu o bastante.” “A doença mental não se pune.” Quem apoia essa linha não precisa de exigir a rua amanhã. Basta exigir que o internamento seja tratado como tratamento e não como a contenção de alguém que já demonstrou capacidade de planear a morte dos próprios filhos. Com o tempo, as revisões periódicas deixam de perguntar “ainda é perigosa?” e passam a perguntar “ainda estamos a ser injustos?”.

Há um duplo padrão óbvio. Se o autor fosse o pai, o enquadramento dominante seria violência, controlo, vingança e masculinidade tóxica. Exigir-se-ia uma pena exemplar. Quando é a mãe, o enquadramento privilegiado é o trauma, a falha do sistema de saúde, a psicose pós-parto e o dever de compreensão. Aliás, basta olhar para o tribunal inquisitorial das redes sociais: assistimos a uma quantidade avassaladora de comentários onde é o próprio pai das crianças (Patrick Clancy) a ser atacado, julgado e considerado o maior culpado pela tragédia. Numa inversão moral grotesca, o homem que perdeu os três filhos e encontrou o cenário macabro é acusado de negligência e transformado em réu pelos “detectives” de sofá, tudo para desculpabilizar a mão que segurou os elásticos. Os dados de filicídio não justificam essa assimetria: mães e pais matam filhos em magnitudes comparáveis, com diferenças de método e de idade da vítima, não com um monopólio feminino da “doença que explica tudo”.

Uma sociedade que aceita que o planeamento de três homicídios infantis “não retira o ónus da doença mental” não está a ser compassiva. Está a construir o seu Arkham: um sítio onde o perigo é gerido como uma narrativa clínica e onde a confiança na contenção se vai diluindo à medida que a pressão pela reabilitação aumenta. Gotham não começou com as portas abertas no dia do julgamento. Começou quando o sistema passou a acreditar que internar era suficiente — e que o tempo, o discurso e a boa vontade fariam o resto. As crianças já estão mortas. A única pergunta que resta é se o dispositivo que se segue as trata como o centro da justiça ou como a ilustração de uma causa.

Título, Imagem e Texto: Maria Helena Costa, ContraCultura, 2-9-2026

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