Maria Helena Costa
Demorei algum tempo a escrever
sobre o tema que domina a comunicação social e as redes sociais há alguns dias.
Não por falta de uma opinião formada sobre a tragédia, mas simplesmente porque
tenho estado ocupada com outros assuntos e, verdade seja dita, já há demasiada
gente a debitar linhas sobre o caso. No entanto, hoje, ao deparar-me com a
frase deste grafismo da CNN Portugal — “Lindsay Clancy matou
os três filhos. ‘O facto de termos um crime que foi planeado não lhe retira o
ónus de ter sido causado pela doença mental’”—, foi-me impossível conter a reação.
A leitura daquele argumento não me provocou apenas discórdia; empurrou-me, de
imediato, para o imaginário de Gotham, a cidade de Batman.
Gotham City não é um cenário
de ficção sobre o crime; é um tratado sobre o colapso das instituições. É uma
cidade permanentemente em chamas, devorada pelo caos, pela destruição e pelo
medo, onde a população conta os corpos nas ruas enquanto os criminosos mais
perigosos entram e saem de um sistema que se recusa a puni-los. A tragédia de
Gotham não nasce da falta de polícias ou de leis; nasce da ilusão burocrática
de que a barbárie pode ser domesticada num divã. É esse mesmo labirinto
psicológico que ameaça agora o nosso mundo real.
Lindsay Clancy não discute que
estrangulou Cora, Dawson e Callan. O julgamento em Massachusetts discute se, no
momento em que o fez, era criminalmente responsável. A frase que circulou na
CNN Portugal resume a tese da defesa: o facto de o crime ter sido planeado não
retira o ónus de ter sido causado pela doença mental.
Se o júri aceitar essa tese, ela não sai pela porta da prisão no dia do veredicto. Segue-se um internamento compulsivo numa unidade psiquiátrica de segurança, com revisões periódicas e o Ministério Público com voz nas decisões de uma eventual alta. Andrea Yates, o precedente mais invocado, nunca foi libertada. Isso é um facto. E é precisamente aqui que a analogia com Gotham deixa de ser uma caricatura e passa a ser um aviso.
Em Gotham, o Joker não
precisava de ser “inocentado” no sentido quotidiano da palavra. Precisava de
Arkham: um sítio que o classificava como doente, o continha temporariamente e,
com o tempo, falhava. Ele fugia. A cidade pagava com as mortes que se seguiam.
O sistema não abria a porta no primeiro dia; ia reclassificando o perigo,
gerindo a narrativa da doença e da reabilitação até a contenção se tornar uma
rotina administrativa. O mentor do mal não precisava de liberdade imediata.
Precisava de um dispositivo que, uma vez o ato enquadrado como patologia,
tratava o perigo com menos urgência do que tratava o diagnóstico.
Não é por acaso que chegámos
aqui. Há anos que a própria indústria cultural nos treina para isto. Hollywood
pegou no Joker e transformou-o num “coitadinho”, numa engrenagem indefesa e num
mero “resultado do sistema”. A personagem sofreu uma operação de cosmética e
limpeza tal que se tornou simpática aos olhos do público; o que outrora era o
vilão cruel e o mau da fita passou a ser a vítima incompreendida de uma
sociedade fria. Ao humanizar a monstruosidade sob o pretexto da empatia, a
cultura preparou-nos para aceitar a premissa mais perigosa do nosso tempo: a de
que os criminosos são apenas subprodutos das suas circunstâncias, indivíduos
sem livre-arbítrio que agem com “motivos” compreensíveis e que, por isso, nunca
devem ser verdadeiramente condenados.
O caso Clancy já mostrou
premeditação, dissimulação e execução. Enviou o marido a buscar o jantar e um
medicamento, criou a janela de tempo, usou elásticos de exercício, um filho de
cada vez, no sítio onde as crianças deveriam estar mais seguras. Depois tentou
o suicídio. Os peritos da acusação disseram que mantinha a capacidade de
distinguir o certo do errado e de se controlar; os peritos da defesa falaram em
psicose franca e numa voz que mandava matar. O júri decidirá o ponto jurídico.
A sociedade está a decidir outra coisa: se o planeamento detalhado de três
homicídios de crianças pode ser sistematicamente secundarizado perante o rótulo
clínico.
O risco verdadeiro não é a
alta formal daqui a dois ou cinco anos. É o processo lento pelo qual o sistema,
sob pressão cultural, mediática e associativa, reclassifica o perigo.
“Não-estigmatização.” “Reabilitação.” “Ela já sofreu o bastante.” “A doença mental
não se pune.” Quem apoia essa linha não precisa de exigir a rua amanhã. Basta
exigir que o internamento seja tratado como tratamento e não como a contenção
de alguém que já demonstrou capacidade de planear a morte dos próprios filhos.
Com o tempo, as revisões periódicas deixam de perguntar “ainda é perigosa?” e
passam a perguntar “ainda estamos a ser injustos?”.
Há um duplo padrão óbvio. Se o
autor fosse o pai, o enquadramento dominante seria violência, controlo,
vingança e masculinidade tóxica. Exigir-se-ia uma pena exemplar. Quando é a
mãe, o enquadramento privilegiado é o trauma, a falha do sistema de saúde, a
psicose pós-parto e o dever de compreensão. Aliás, basta olhar para o tribunal
inquisitorial das redes sociais: assistimos a uma quantidade avassaladora de
comentários onde é o próprio pai das crianças (Patrick Clancy) a ser atacado,
julgado e considerado o maior culpado pela tragédia. Numa inversão moral
grotesca, o homem que perdeu os três filhos e encontrou o cenário macabro é
acusado de negligência e transformado em réu pelos “detectives” de sofá, tudo
para desculpabilizar a mão que segurou os elásticos. Os dados de filicídio não
justificam essa assimetria: mães e pais matam filhos em magnitudes comparáveis,
com diferenças de método e de idade da vítima, não com um monopólio feminino da
“doença que explica tudo”.
Uma sociedade que aceita que o
planeamento de três homicídios infantis “não retira o ónus da doença mental”
não está a ser compassiva. Está a construir o seu Arkham: um sítio onde o
perigo é gerido como uma narrativa clínica e onde a confiança na contenção se
vai diluindo à medida que a pressão pela reabilitação aumenta. Gotham não
começou com as portas abertas no dia do julgamento. Começou quando o sistema
passou a acreditar que internar era suficiente — e que o tempo, o discurso e a
boa vontade fariam o resto. As crianças já estão mortas. A única pergunta que
resta é se o dispositivo que se segue as trata como o centro da justiça ou como
a ilustração de uma causa.
Título, Imagem e Texto: Maria
Helena Costa, ContraCultura,
2-9-2026
Porque às vezes a vi0lênc1@ é a melhor resposta

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