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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Aconteceu na lua de mel

Aparecido Raimundo de Souza

PARTIMOS COM TUDO, além de uma boa pitada de satisfação e esperança, o coração batendo descompassado, em vista dos sonhos e principalmente esperançados na nossa fé, e, dentro dela, a certeza de que nada nos separaria. Era o começo. O tempo todo, o mundo colado aos nossos pés, parecia feito só para nós dois. O mar calmo de Copacabana, não batia, se emoldurava suave se entrelaçando na areia, enquanto o sol descia devagar, se fartava a passos miúdos tingindo tudo de ouro, e cada olhar se engrandecia numa promessa como se dissesse, ou melhor sussurrasse: “estou aqui, para sempre”.

Aconteceu ali, entre o céu e o mar, naqueles dias que deveriam ser só luz e alegria. Veio devagar, sem aviso, uma palavra dita sem pensar, um silêncio que cresceu entre nós, um mal-entendido que virou o muro e foi cair em cheio na avenida movimentada que passava em frente ao nosso hotel. De repente, o que se fazia meigamente doce, ficou amargo. O que era confiança, virou dúvida. Descobrimos que carregar a própria história também significava englobar defeitos, medos, feridas, tristezas e incertezas que ainda não cicatrizaram e que às vezes, sem querer, acabamos machucando justamente a quem mais amamos.

Ficamos de frente um para o outro, tão perto e ao mesmo tempo tão distantes. Do nada, a nossa lua de mel virou uma tremenda lua de merda, como se fosse o primeiro teste: não a lua de mel de paixão, mas de paciência, de perdão, de aprender que amar não é só ter alegrias, mas saber edificar quando algo se quebra ou se deteriora. Choramos, nos calamos, depois falamos tudo, vomitamos o que doía, o que esperávamos, o que tínhamos medo de perder. E ali, naquele lugar que deveria ser somente um todo perfeito, aprendemos a verdadeira noção de realidade: o amor não nasce pronto. Ele se constrói também nas horas difíceis, principalmente nos minutos estropiados e macambúzios em que tudo parece conspirar contra.

Hoje lembro o que aconteceu nos nossos primeiros dias não manchou o nosso começo, pelo contrário, o tornou mais verdadeiro. Porque foi lá, naquele momento entre risos e lágrimas, lagrimas e risos, que percebemos: não importava o que viesse, se estivéssemos dispostos a entender, a ceder, a recomeçar… a perdoar, sobretudo a perdoar, então sim, conseguiríamos seguir caminhando juntos. O “para sempre” não é coisa de um dia só. E nunca será.  O “para sempre” é renovado automaticamente todos os dias, começando por deixar claro aquele incidente em que descobrimos como agir para que o nosso enlace matrimonial não terminasse mal.

Partimos com o coração cheio de esperanças, levando apenas sonhos e a certeza de que nada nos separaria. Coisa alguma nos levaria a tomarmos rumos diferentes. Era o começo. O tempo todo nosso, o mundo... uau!,  o mundo parecia feito só para nós dois. Escolhemos um hotel bonito na Avenida Atlântica, de frente para o mar. Tudo girava justo e perfeito… até que a vida (sempre engraçadinha) resolveu brincar conosco, e o fez, a bem da verdade, de um jeito que ninguém imaginava.

Pois bem! Logo na primeira noite, afoitos nos entregamos um ao outro com toda aquela paixão ensandecida que tínhamos guardado e naquele ritmo, naquele impulso, a batalha que travamos um sobre o outro, o outro sobre um, a cama simplesmente não aguentou o nosso afogueamento e quebrou ao meio. Batemos, os dois, de bundas no piso de cerâmica gelado.  A alcova veio à baixo, e, de roldão, junto, de braços dados, o colchão, os lençóis, os travesseiros, a cueca de olhos arregalados e a calcinha chorosa e o mais engraçado, se não fosse trágico, nós dois rindo sem parar, misturando beijos e risadas no aconchego do piso que parecia ter se deslocado do polo norte. Fomos então tentar nos aquecer, tomar um banho gostoso… mas o chuveiro jogou água gelada, arrefecida mesmo, tão sem noção que fez a gente tremer os ossos e correr como baratas tontas fugindo de uma lata de inseticida para fora do box mais rápido do que entramos. Voltamos ao quarto, e lá nos deparamos com outra surpresa:  a lâmpada do teto não parava de piscar. Acendia e apagava, apagava e acendia como se o próprio destino estivesse piscando os olhos para a gente, tipo assim, fazendo graça ou sei lá, nos imputando algum tipo de pirraça.

Quando finalmente nos aconchegamos, prontos para nos amarmos pela segunda vez, desta feita no colchão estirado aos pés de um armário e uma cômoda, a maior das loucuras se fez presente: o meu brinquedo, no meio das pernas, não deu conta do recado. Murchou ao ver a racha piscando para ele, e amedrontado se encolheu enfezado sobre o saco.  Na hora da introdução, outro incidente. O bicho escorregou, escapou das minhas mãos, saltou para um lado e depois para outro e por pouco, mas por muito pouco mesmo o infeliz não atravessou pela porta que acessava a varanda do andar em que estávamos, ou melhor dito, a do vigésimo andar. Ficamos de pé, ambos de boca aberta, rindo até doer a barriga, pensando: “Só pode ser brincadeira! Que lua de mel é essa?”.

Sentamos ambos na varanda de frente para o mar imenso da Avenida Atlântica. Olhamos para a cama quebrada. Falamos da água fria do chuveiro e da luz que piscava, intermitentemente sem mencionar o meu pinto murcho, desfalecido, esturricado e deitado tranquilo, belo e formoso na bolsa escrotal. Foi nessa hora que percebemos: o amor não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. O que fica marcado, não é o que saiu certo. É tudo o que vem dentro de um mesmo pacote, as confusões, as risadas, as coisas que estavam dando erradas e no fim, obviamente virariam histórias para lembrarmos pelo resto de nossas vidas.

O nosso amor começou assim: cheio de altos e baixos, com um pouco de sorte, recheado com muito desejo e uma dose generosa de loucura. Desvairamentos e entusiasmos para dar com pau. Por falar em pau, a minha doce amada não desistiu depois da primeira surra levada. Partiu para a luta. Se ajeitou, a cabeça no meu colo. Na sequência, tomou entre as suas mãos macias o meu brinquedo adormecido. Acariciou, chupou a glande, punhetou, tentou reanima-lo com beijinhos doces e linguadas quentes nos testículos. Nessa hora, assim do nada, envergonhado, ele, o pinto, deu um salto. Correu cabisbaixo, para a varanda e se ela, a minha esposa, não fosse no encalço dele e segurasse o meu pênis mijador fortemente entre as mãos, o sem vergonha teria pulado do vigésimo andar. Acreditem meus amigos, dessa cena patética, nunca mais haveremos de esquecer.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro, (após sabermos da morte de nosso amigo Lito Sousa), 2-10-2026

NOTA DE PESAR:

Nossas condolências a esposa Mila Seidl e demais familiares de Lito Souza, que por mais de quinze anos nos ensinou a voar sem medo de enfrentarmos uma viagem de avião, fosse num voo domestico entre São Paulo e Vitoria, como para diversos outros destinos mais distanciados. Meu amigo, Lito, descanse em PAZ    

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