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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cartomantes com Alzheimer


Marcelo Duarte Lins

Há quem leia o futuro nas cartas, quem consulte os astros e quem prefira uma bola de cristal.

Há também aqueles que, por conveniência, preferem embaralhar o passado.

São as cartomantes com Alzheimer.

Não aquele que a medicina procura combater, mas uma modalidade muito particular de amnésia política: a memória funciona perfeitamente para recordar os pecados dos adversários, mas sofre apagões inexplicáveis quando precisa reconhecer os dos aliados.

Na aviação, mudar de rota é perfeitamente aceitável. Às vezes, até necessário.

O que não se pode é alterar o plano de voo depois do acidente e jurar que aquela sempre foi a rota prevista.

Com a VARIG, entretanto, parece que alguns resolveram reescrever o relatório final.

Houve um tempo em que antigos colegas denunciavam, indignados, os responsáveis políticos pelo desaparecimento da nossa companhia.

Escreviam cartas emocionadas. Falavam de sonhos destruídos, noites sem dormir, casas que não puderam comprar, famílias desestruturadas e da angústia de não saber como pagar as contas do mês seguinte.

Eram testemunhos dolorosos. Verdadeiros documentos de uma tragédia humana.

O tempo passou.

A VARIG não voltou. O AERUS não recuperou os anos perdidos. Os direitos trabalhistas continuam percorrendo os intermináveis corredores da Justiça.

Muitos colegas morreram esperando por uma sentença que chegou tarde demais. Ou simplesmente não chegou.

A própria Ação Civil Pública (ACP) atravessa os anos sem alcançar uma solução definitiva. Acumula prazos, recursos e expectativas, enquanto muitos daqueles que aguardavam seu desfecho já não estão aqui para conhecê-lo.

Mas algumas convicções mudaram.

Nada contra.

Mudar de opinião é um direito. Reconhecer um erro pode até ser uma virtude.

Não me incomoda que tenham mudado de lado. O que me espanta é terem mudado também o passado.

De repente, determinadas lembranças parecem ter sofrido uma pane elétrica.

Os discursos mudam, os personagens trocam de posição e os antigos responsáveis desaparecem das narrativas.

O que ontem provocava revolta hoje parece não merecer sequer uma nota de rodapé.

É como se alguém entrasse na cabine de um Boeing, apagasse o gravador de voo e anunciasse aos passageiros:

— Senhoras e senhores, informamos que aquele acidente nunca aconteceu.

Aconteceu, sim!

E deixou vítimas.

Curiosamente, algumas pessoas conseguem recordar com extraordinária precisão os acontecimentos de 8 de janeiro, mas parecem ter dificuldades para localizar o ano de 2006 no calendário.

Recentemente, li um texto em que uma antiga colega discorria longamente sobre empatia, compaixão, ódio, democracia e responsabilidade moral.

Falava de um polvo monstruoso, com tentáculos capazes de alcançar praticamente todas as tragédias nacionais.

Uma imagem impressionante.

Fiquei pensando nas hienas.

Porque, enquanto o polvo se espalha pela imaginação política, as hienas que rondaram a carcaça da VARIG continuam merecendo investigação.

Quem participou do banquete? Quem se beneficiou? Quem deveria fiscalizar? Quem ficou com os pedaços?

E quem pagou a conta?

Essas perguntas não envelheceram.

Muito menos desapareceram da memória de quem perdeu tudo.

O curioso é que alguns dos que hoje demonstram extraordinária capacidade de indignação diante das injustiças nacionais parecem ter perdido o interesse pela injustiça que atingiu seus próprios colegas.

Não questiono a sinceridade das novas convicções.

Questiono apenas o destino das antigas.

Onde foram parar?

Foram arquivadas? Revogadas? Prescreveram?

Ou simplesmente deixaram de ser convenientes?

Talvez uma cartomante consiga explicar.

Bastaria colocar sobre a mesa algumas cartas: a da VARIG, a do AERUS, a dos trabalhadores, a dos aposentados e, naturalmente, a dos responsáveis pelas decisões que marcaram aquela tragédia.

Suspeito que, antes de começar a consulta, alguém pediria:

— Essa da VARIG pode tirar do baralho?

Não pode.

A história não funciona assim.

O passado não é um cardápio do qual escolhemos apenas os acontecimentos que combinam com nossas preferências atuais.

E a empatia, tão frequentemente invocada nos discursos, não deveria depender da filiação partidária de quem sofre.

Empatia seletiva tem outro nome: conveniência.

Há uma frase que se encaixa perfeitamente nesse cenário:

A gente mata um leão por dia. O duro é aguentar as antas.

Nós, antigos variguianos, sabemos bem o que significa matar um leão por dia.

Fizemos isso durante anos, tentando sobreviver ao desemprego, às perdas financeiras, às promessas não cumpridas e à interminável espera nos corredores da Justiça.

Quanto às antas, deixo que cada leitor identifique as suas.

Não pretendo escolher partido para ninguém, muito menos determinar em quem antigos colegas devem votar.

Cada um é livre para seguir suas convicções.

Liberdade de opinião não exige amnésia histórica.

Pode-se mudar de candidato, de partido, de discurso e até de baralho.

O que não se pode é exigir que os mortos esqueçam, que os aposentados se calem, que os demitidos abram mão de seus direitos e que os antigos colegas finjam que nada aconteceu.

Porque a VARIG existiu.

A tragédia aconteceu.

A espera continua.

E a conta permanece aberta.

No fim das contas, o problema dessas cartomantes não é a incapacidade de prever o futuro.

É a facilidade com que parecem esquecer o passado.

Uns perderam o emprego. Outros perderam a memória.

E as hienas?

Ah, essas nunca esqueceram onde estava a carcaça.

Muito menos onde estava o dinheiro.

Senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante.

Permaneçam sentados e mantenham os cintos afivelados.

APERTEM OS CINTOS, O DINHEIRO SUMIU!

Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 8-10-2026, 19h01 

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