Marcelo Duarte Lins
Há quem leia o futuro nas cartas, quem
consulte os astros e quem prefira uma bola de cristal.
Há também aqueles que, por
conveniência, preferem embaralhar o passado.
São as cartomantes com Alzheimer.
Não aquele que a medicina procura
combater, mas uma modalidade muito particular de amnésia política: a memória
funciona perfeitamente para recordar os pecados dos adversários, mas sofre
apagões inexplicáveis quando precisa reconhecer os dos aliados.
Na aviação, mudar de rota é
perfeitamente aceitável. Às vezes, até necessário.
O que não se pode é alterar o plano de
voo depois do acidente e jurar que aquela sempre foi a rota prevista.
Com a VARIG, entretanto, parece que
alguns resolveram reescrever o relatório final.
Houve um tempo em que antigos colegas
denunciavam, indignados, os responsáveis políticos pelo desaparecimento da
nossa companhia.
Escreviam cartas emocionadas. Falavam
de sonhos destruídos, noites sem dormir, casas que não puderam comprar,
famílias desestruturadas e da angústia de não saber como pagar as contas do mês
seguinte.
Eram testemunhos dolorosos.
Verdadeiros documentos de uma tragédia humana.
O tempo passou.
A VARIG não voltou. O AERUS não recuperou os anos perdidos. Os direitos trabalhistas continuam percorrendo os intermináveis corredores da Justiça.
Muitos colegas morreram esperando por
uma sentença que chegou tarde demais. Ou simplesmente não chegou.
A própria Ação Civil Pública (ACP)
atravessa os anos sem alcançar uma solução definitiva. Acumula prazos, recursos
e expectativas, enquanto muitos daqueles que aguardavam seu desfecho já não
estão aqui para conhecê-lo.
Mas algumas convicções mudaram.
Nada contra.
Mudar de opinião é um direito.
Reconhecer um erro pode até ser uma virtude.
Não me incomoda que tenham mudado de
lado. O que me espanta é terem mudado também o passado.
De repente, determinadas lembranças
parecem ter sofrido uma pane elétrica.
Os discursos mudam, os personagens
trocam de posição e os antigos responsáveis desaparecem das narrativas.
O que ontem provocava revolta hoje
parece não merecer sequer uma nota de rodapé.
É como se alguém entrasse na cabine de
um Boeing, apagasse o gravador de voo e anunciasse aos passageiros:
— Senhoras e senhores, informamos que
aquele acidente nunca aconteceu.
Aconteceu, sim!
E deixou vítimas.
Curiosamente, algumas pessoas
conseguem recordar com extraordinária precisão os acontecimentos de 8 de
janeiro, mas parecem ter dificuldades para localizar o ano de 2006 no
calendário.
Recentemente, li um texto em que uma
antiga colega discorria longamente sobre empatia, compaixão, ódio, democracia e
responsabilidade moral.
Falava de um polvo monstruoso, com
tentáculos capazes de alcançar praticamente todas as tragédias nacionais.
Uma imagem impressionante.
Fiquei pensando nas hienas.
Porque, enquanto o polvo se espalha
pela imaginação política, as hienas que rondaram a carcaça da VARIG continuam
merecendo investigação.
Quem participou do banquete? Quem se
beneficiou? Quem deveria fiscalizar? Quem ficou com os pedaços?
E quem pagou a conta?
Essas perguntas não envelheceram.
Muito menos desapareceram da memória
de quem perdeu tudo.
O curioso é que alguns dos que hoje
demonstram extraordinária capacidade de indignação diante das injustiças
nacionais parecem ter perdido o interesse pela injustiça que atingiu seus
próprios colegas.
Não questiono a sinceridade das novas
convicções.
Questiono apenas o destino das
antigas.
Onde foram parar?
Foram arquivadas? Revogadas?
Prescreveram?
Ou simplesmente deixaram de ser
convenientes?
Talvez uma cartomante consiga
explicar.
Bastaria colocar sobre a mesa algumas
cartas: a da VARIG, a do AERUS, a dos trabalhadores, a dos aposentados e,
naturalmente, a dos responsáveis pelas decisões que marcaram aquela tragédia.
Suspeito que, antes de começar a
consulta, alguém pediria:
— Essa da VARIG pode tirar do baralho?
Não pode.
A história não funciona assim.
O passado não é um cardápio do qual
escolhemos apenas os acontecimentos que combinam com nossas preferências
atuais.
E a empatia, tão frequentemente
invocada nos discursos, não deveria depender da filiação partidária de quem
sofre.
Empatia seletiva tem outro nome:
conveniência.
Há uma frase que se encaixa
perfeitamente nesse cenário:
A gente mata um leão por dia. O duro é
aguentar as antas.
Nós, antigos variguianos, sabemos bem
o que significa matar um leão por dia.
Fizemos isso durante anos, tentando
sobreviver ao desemprego, às perdas financeiras, às promessas não cumpridas e à
interminável espera nos corredores da Justiça.
Quanto às antas, deixo que cada leitor
identifique as suas.
Não pretendo escolher partido para
ninguém, muito menos determinar em quem antigos colegas devem votar.
Cada um é livre para seguir suas
convicções.
Liberdade de opinião não exige amnésia
histórica.
Pode-se mudar de candidato, de
partido, de discurso e até de baralho.
O que não se pode é exigir que os
mortos esqueçam, que os aposentados se calem, que os demitidos abram mão de
seus direitos e que os antigos colegas finjam que nada aconteceu.
Porque a VARIG existiu.
A tragédia aconteceu.
A espera continua.
E a conta permanece aberta.
No fim das contas, o problema dessas
cartomantes não é a incapacidade de prever o futuro.
É a facilidade com que parecem
esquecer o passado.
Uns perderam o emprego. Outros
perderam a memória.
E as hienas?
Ah, essas nunca esqueceram onde estava
a carcaça.
Muito menos onde estava o dinheiro.
Senhoras e senhores, aqui quem fala é
o comandante.
Permaneçam sentados e mantenham os
cintos afivelados.
APERTEM OS CINTOS, O DINHEIRO SUMIU!
Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 8-10-2026, 19h01
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