Aparecido Raimundo de Souza
“Uma jovem que começa num bairro esquecido pode se tornar inventora de
futuros. Uma mulher que inicia a sua jornada em meio ao silêncio pode
descobrir, num piscar de olhos a sua voz no palco do mundo. O início não é
sentença, é apenas uma peça do cenário”. Tudo isso e muito mais pode ser lido
no livro de Maria Isabel Szpacenkopf em seu “O olhar do poder”. O que realmente
molda o caminho, nas palavras, agora na visão de Raul Parelo em “A vida
suspeita do subversivo”, é “a coragem de continuar, mesmo quando o horizonte
parece distante demais”.
Parinoush Saniee em seu romance “O livro do destino” deixa claro e
cristalino que o ponto de chegada “não é uma linha reta, mas um mosaico de
acasos e decisões”. O ponto de partida, pode ser humilde, doloroso ou até mesmo
bastante caótico — mas não é uma prisão. Cada curva, cada queda, cada
levantada, cada recomeço acrescenta uma nova camada à narrativa. E, no fim, o
que importa “não é de onde se veio, mas o que se construiu ao longo da
travessia”.
Assim, a crônica da nossa vida ensina: nenhum ponto de partida indica o
destino. O que o determina alimentando é a persistência em caminhar, a ousadia
constante em mudar de rota e a fé persistente em que o amanhã pode ser
diferente do ontem. E o ontem, do hoje. O ponto de onde se inicia a viagem, é
apenas uma circunstância inicial, um instante que nos situa no tempo e no
espaço, mas não nos aprisiona de nenhuma forma.
A filosofia ensina que o ser humano é um esboço em aberto: não nasce pronto, se constrói aos poucos. Martin Heidegger em “Ser o tempo” fala do “ser-aí” lançado no mundo, mas com a liberdade de se projetar além das condições dadas”. Sartre, por sua vez, lembra que “a existência precede a essência” — ou seja, não somos definidos pelo lugar de onde viemos, mas pelas escolhas que fazemos.
O destino, esclarece Sartre mais adiante, em “Com a morte na alma”,
aliás, ele deixa claro e conciso “não é uma linha reta traçada desde o
nascimento; é uma tessitura de decisões, acasos e persistências. O ponto de
partida pode ser marcado por limitações, injustiças ou privilégios, mas não é
sentença definitiva”. Pois bem! O que realmente importa é a capacidade de
transcender, de reconfigurar o caminho, de se reinventar a cada minuto, a cada
novo dia, diante das contingências.
A vida, no dizer elegante de Simone de Beauvoir em “A velhice” fica
claramente delineado que “tudo faz parte de uma dialética: cada escolha abre
possibilidades e fecha outras, cada desvio redefine o horizonte. O destino não
é dado, é construído”. Com isso aprendemos que se há algo que nos distingue
como seres humanos, é justamente a liberdade de não sermos reféns do tal do
início. O ponto de partida pode ser apenas um detalhe na narrativa maior, o que
dá sentido lógico à travessia da ponte grandiosa.
Em toda a sua extensão, é a consciência de que o futuro se escreve dia
a dia, minuto a minuto, ou a cada passo. Assim, pensar que “nenhum ponto de
partida determina o destino” é afirmar categoricamente que a dignidade da
liberdade humana é reconhecer que o começo não é prisão, mas apenas o cenário.
O destino é obra em aberto, e cabe a cada um de nós a responsabilidade e o
privilégio de escrevê-lo.
A ideia de que nenhum ponto de partida determina o destino encontra eco
retumbante em inúmeras vidas que desafiaram as circunstâncias iniciais. A
história humana está repleta de exemplos de pessoas que nasceram em condições
adversas, mas que, pela força da vontade, pela persistência e pela capacidade
de se recriar de se reinventar, transformaram brilhantemente ou melhor dito,
reconstruíram o seu caminho.
Como exemplo, perguntaria a todos os meus leitores e amigos da “Grande
Família Cão que Fuma”: Quem já ouviu falar em Lizzie Velásquez? Vamos resumir
em poucas palavras. Nascida com uma rara doença genética que impediu o ganho de
gordura corporal, desde nova, Lizzie foi alvo de bullying cruel e chegou a ser
chamada de “a mulher mais feia do mundo”. Em vez de se deixar definir por esse
ponto de partida doloroso, Lizzie se tornou palestrante motivacional e
escritora, inspirando milhões com sua mensagem de resiliência e amor-próprio.
Seu livro “A bela Lizzie” é uma joia rara que deveria ser lida por todos os que
se acham perdidos ou fracassados no meio da multidão.
Oprah Winfrey. Essa jovem cresceu em extrema pobreza no sul dos Estados
Unidos e enfrentou abusos na infância. Seu início parecia uma sentença de
marginalização, mas ela transformou a sua trajetória em uma das mais influentes
carreiras da mídia mundial, se tornando símbolo de superação e liderança
feminina. Um filme que relembra magnanimamente bem a sua trajetória, sem dúvida
alguma o longa “A Cor Púrpura” O filme não é sobre ela, mas retrata com
detalhes a vida de uma menina que praticamente seguiu e vivenciou uma
trajetória parecidíssima com a de Oprah.
Nelson Mandela. Filho nativo de uma pequena aldeia na África do Sul,
enfrentou o peso do apartheid e passou 27 anos preso. O ponto de partida se
fundamentava na opressão sufocante, porém, o destino foi a sua chegada triunfal
à presidência e, em paralelo, a construção de uma nação mais justa, se tornando
um ícone universal da luta ferrenha pela liberdade.
Tivemos aqui na nossa Terra de ladrões e bandoleiros, a figura ímpar de
Carolina Maria de Jesus. Escritora famosa, viveu na favela do Canindé, em São
Paulo, catando papel para sobreviver. Seu diário, publicado em livro com o
título “Quarto de Despejo”, revelou ao mundo a realidade da pobreza urbana e
transformou a sua voz desconhecida em símbolo da literatura social brasileira.
Outros livros de sua autoria fazem parte até hoje de uma literatura esquecida:
“Pedaços da fome”, “Casa de Alvenaria”, “O escravo”, “Diário da Bitita”, “Onde
estaes felicidade” e tantos mais. Como o povo brasileiro não tem cultura,
aliás, caga para a literatura, Carolina Maria de Jesus se fez esquecida,
todavia, a sua obra grandiosa, jamais morrerá.
A jovem Bárbara Harmer, nasceu em 1953, em Loughton, Essex, e cresceu
em Bognor Regis, no sul da Inglaterra. Saiu da escola aos 15 anos para
trabalhar como cabeleireira. Uma trajetória que, à primeira vista, parecia
distante do mundo desejado. No entanto, alguns anos depois, decidiu mudar de
rumo: foi trabalhar no Aeroporto de Londres Gatwick e isso a obrigou a alterar
completamente a sua pacata vidinha. Em sua nova trajetória assumiu o emprego
como controladora de tráfego aéreo do Aeroporto. Observando diariamente os
aviões decolando e pousando todos os dias despertou nela o desejo de voar.
Disposta a mudar de vida, usou toda as suas economias para pagar as
aulas de pilotagem. Conquistou a licença de Piloto Privado e se tornou
instrutora de voo. Com essa base, ingressou logo em seguida na formação de
piloto e, após anos de dedicação ferrenha, alcançou um feito histórico. Em
1993, Barbara se tornou a primeira mulher piloto qualificada do Concorde, o
avião supersônico de passageiros mais icônico do século XX.
Sua visão de futuro, seu desvario, sua garra e obstinação continuam
mostrando a todos nós, até hoje, embora já passados tantos anos, que não
importa quão improvável venha ser o início. Com disciplina e coragem, e uma boa
pitada de determinação e coragem, é possível transformar o destino. Bárbara
Harmer faleceu em 20 de fevereiro de 2011, aos 57 anos, no St. Wilfrid1s
Hospice, em Chichester, na Inglaterra, após lutar contra um câncer de ovário.
Quatro semanas antes desse evento, se casou com seu companheiro de longa data,
Andrew Hewett.
Essas vidas que fiz questão de elencar acima, certamente servirão de
ponto de partida para se entender que tudo no nosso cotidiano não passa apenas
de circunstância. A filosofia existencialista reforça essa ideia: somos seres
em projeto, todavia capazes de transcender as condições iniciais. O que nos
define, repetindo o já dito acima, não é o lugar de onde viemos, mas a forma
como respondemos às contingências. A liberdade humana (mais uma vez) consiste
em não aceitar o início como sentença. O destino é obra aberta, e cada escolha
é um ato de autoria própria.
O ponto de partida pode ser duro, as vezes cruel, ou negro demais, mas
tudo isso é apenas o prólogo. Veríssimo fala que “O enredo se escreve na
coragem de continuar”. Assim, a reflexão final de todo o texto, se reduz num só
ponto: não importa o começo de onde pretendemos dar partida. Ele jamais
determinará o futuro. O que nos leva ao ponto nevrálgico, ou ao ápice, é a
coragem de caminhar, bem ainda a liberdade de escolher e a persistência em se
reinventar. O destino é obra em construção, e cada passo no cotidiano, no dizer
de Fernando Sabino “é uma oportunidade de escrever literalmente uma nova
página”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, no
Espírito Santo, 6-3-2026
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