sexta-feira, 6 de março de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O que efetivamente determina o nosso destino?

Aparecido Raimundo de Souza

HÁ QUEM ACREDITE piamente que o primeiro passo dado define toda a caminhada. Mas a vida, com a sua ironia silenciosa, insiste em provar o contrário. Frei Beto leciona que “O ponto de partida é apenas um instante congelado no tempo, tipo uma fotografia inicial que não contém o filme inteiro”. O destino, por sua vez, agora visto pela ótica de Carolina Vigna, “é uma obra em constante reescritação feita de desvios, encontros inesperados e escolhas que por sua vez se multiplicam como bifurcações invisíveis.

“Uma jovem que começa num bairro esquecido pode se tornar inventora de futuros. Uma mulher que inicia a sua jornada em meio ao silêncio pode descobrir, num piscar de olhos a sua voz no palco do mundo. O início não é sentença, é apenas uma peça do cenário”. Tudo isso e muito mais pode ser lido no livro de Maria Isabel Szpacenkopf em seu “O olhar do poder”. O que realmente molda o caminho, nas palavras, agora na visão de Raul Parelo em “A vida suspeita do subversivo”, é “a coragem de continuar, mesmo quando o horizonte parece distante demais”.

Parinoush Saniee em seu romance “O livro do destino” deixa claro e cristalino que o ponto de chegada “não é uma linha reta, mas um mosaico de acasos e decisões”. O ponto de partida, pode ser humilde, doloroso ou até mesmo bastante caótico — mas não é uma prisão. Cada curva, cada queda, cada levantada, cada recomeço acrescenta uma nova camada à narrativa. E, no fim, o que importa “não é de onde se veio, mas o que se construiu ao longo da travessia”.

Assim, a crônica da nossa vida ensina: nenhum ponto de partida indica o destino. O que o determina alimentando é a persistência em caminhar, a ousadia constante em mudar de rota e a fé persistente em que o amanhã pode ser diferente do ontem. E o ontem, do hoje. O ponto de onde se inicia a viagem, é apenas uma circunstância inicial, um instante que nos situa no tempo e no espaço, mas não nos aprisiona de nenhuma forma.

A filosofia ensina que o ser humano é um esboço em aberto: não nasce pronto, se constrói aos poucos. Martin Heidegger em  “Ser o tempo” fala do “ser-aí” lançado no mundo, mas com a liberdade de se projetar além das condições dadas”. Sartre, por sua vez, lembra que “a existência precede a essência” — ou seja, não somos definidos pelo lugar de onde viemos, mas pelas escolhas que fazemos.

O destino, esclarece Sartre mais adiante, em “Com a morte na alma”, aliás, ele deixa claro e conciso “não é uma linha reta traçada desde o nascimento; é uma tessitura de decisões, acasos e persistências. O ponto de partida pode ser marcado por limitações, injustiças ou privilégios, mas não é sentença definitiva”. Pois bem! O que realmente importa é a capacidade de transcender, de reconfigurar o caminho, de se reinventar a cada minuto, a cada novo dia, diante das contingências.

A vida, no dizer elegante de Simone de Beauvoir em “A velhice” fica claramente delineado que “tudo faz parte de uma dialética: cada escolha abre possibilidades e fecha outras, cada desvio redefine o horizonte. O destino não é dado, é construído”. Com isso aprendemos que se há algo que nos distingue como seres humanos, é justamente a liberdade de não sermos reféns do tal do início. O ponto de partida pode ser apenas um detalhe na narrativa maior, o que dá sentido lógico à travessia da ponte grandiosa.

Em toda a sua extensão, é a consciência de que o futuro se escreve dia a dia, minuto a minuto, ou a cada passo. Assim, pensar que “nenhum ponto de partida determina o destino” é afirmar categoricamente que a dignidade da liberdade humana é reconhecer que o começo não é prisão, mas apenas o cenário. O destino é obra em aberto, e cabe a cada um de nós a responsabilidade e o privilégio de escrevê-lo.

A ideia de que nenhum ponto de partida determina o destino encontra eco retumbante em inúmeras vidas que desafiaram as circunstâncias iniciais. A história humana está repleta de exemplos de pessoas que nasceram em condições adversas, mas que, pela força da vontade, pela persistência e pela capacidade de se recriar de se reinventar, transformaram brilhantemente ou melhor dito, reconstruíram o seu caminho.

Como exemplo, perguntaria a todos os meus leitores e amigos da “Grande Família Cão que Fuma”: Quem já ouviu falar em Lizzie Velásquez? Vamos resumir em poucas palavras. Nascida com uma rara doença genética que impediu o ganho de gordura corporal, desde nova, Lizzie foi alvo de bullying cruel e chegou a ser chamada de “a mulher mais feia do mundo”. Em vez de se deixar definir por esse ponto de partida doloroso, Lizzie se tornou palestrante motivacional e escritora, inspirando milhões com sua mensagem de resiliência e amor-próprio. Seu livro “A bela Lizzie” é uma joia rara que deveria ser lida por todos os que se acham perdidos ou fracassados no meio da multidão. 

Oprah Winfrey. Essa jovem cresceu em extrema pobreza no sul dos Estados Unidos e enfrentou abusos na infância. Seu início parecia uma sentença de marginalização, mas ela transformou a sua trajetória em uma das mais influentes carreiras da mídia mundial, se tornando símbolo de superação e liderança feminina. Um filme que relembra magnanimamente bem a sua trajetória, sem dúvida alguma o longa “A Cor Púrpura” O filme não é sobre ela, mas retrata com detalhes a vida de uma menina que praticamente seguiu e vivenciou uma trajetória parecidíssima com a de Oprah.   

Nelson Mandela. Filho nativo de uma pequena aldeia na África do Sul, enfrentou o peso do apartheid e passou 27 anos preso. O ponto de partida se fundamentava na opressão sufocante, porém, o destino foi a sua chegada triunfal à presidência e, em paralelo, a construção de uma nação mais justa, se tornando um ícone universal da luta ferrenha pela liberdade.

Tivemos aqui na nossa Terra de ladrões e bandoleiros, a figura ímpar de Carolina Maria de Jesus. Escritora famosa, viveu na favela do Canindé, em São Paulo, catando papel para sobreviver. Seu diário, publicado em livro com o título “Quarto de Despejo”, revelou ao mundo a realidade da pobreza urbana e transformou a sua voz desconhecida em símbolo da literatura social brasileira. Outros livros de sua autoria fazem parte até hoje de uma literatura esquecida: “Pedaços da fome”, “Casa de Alvenaria”, “O escravo”, “Diário da Bitita”, “Onde estaes felicidade” e tantos mais. Como o povo brasileiro não tem cultura, aliás, caga para a literatura, Carolina Maria de Jesus se fez esquecida, todavia, a sua obra grandiosa, jamais morrerá.

A jovem Bárbara Harmer, nasceu em 1953, em Loughton, Essex, e cresceu em Bognor Regis, no sul da Inglaterra. Saiu da escola aos 15 anos para trabalhar como cabeleireira. Uma trajetória que, à primeira vista, parecia distante do mundo desejado. No entanto, alguns anos depois, decidiu mudar de rumo: foi trabalhar no Aeroporto de Londres Gatwick e isso a obrigou a alterar completamente a sua pacata vidinha. Em sua nova trajetória assumiu o emprego como controladora de tráfego aéreo do Aeroporto. Observando diariamente os aviões decolando e pousando todos os dias despertou nela o desejo de voar.

Disposta a mudar de vida, usou toda as suas economias para pagar as aulas de pilotagem. Conquistou a licença de Piloto Privado e se tornou instrutora de voo. Com essa base, ingressou logo em seguida na formação de piloto e, após anos de dedicação ferrenha, alcançou um feito histórico. Em 1993, Barbara se tornou a primeira mulher piloto qualificada do Concorde, o avião supersônico de passageiros mais icônico do século XX.

Sua visão de futuro, seu desvario, sua garra e obstinação continuam mostrando a todos nós, até hoje, embora já passados tantos anos, que não importa quão improvável venha ser o início. Com disciplina e coragem, e uma boa pitada de determinação e coragem, é possível transformar o destino. Bárbara Harmer faleceu em 20 de fevereiro de 2011, aos 57 anos, no St. Wilfrid1s Hospice, em Chichester, na Inglaterra, após lutar contra um câncer de ovário. Quatro semanas antes desse evento, se casou com seu companheiro de longa data, Andrew Hewett.

Essas vidas que fiz questão de elencar acima, certamente servirão de ponto de partida para se entender que tudo no nosso cotidiano não passa apenas de circunstância. A filosofia existencialista reforça essa ideia: somos seres em projeto, todavia capazes de transcender as condições iniciais. O que nos define, repetindo o já dito acima, não é o lugar de onde viemos, mas a forma como respondemos às contingências. A liberdade humana (mais uma vez) consiste em não aceitar o início como sentença. O destino é obra aberta, e cada escolha é um ato de autoria própria.

O ponto de partida pode ser duro, as vezes cruel, ou negro demais, mas tudo isso é apenas o prólogo. Veríssimo fala que “O enredo se escreve na coragem de continuar”. Assim, a reflexão final de todo o texto, se reduz num só ponto: não importa o começo de onde pretendemos dar partida. Ele jamais determinará o futuro. O que nos leva ao ponto nevrálgico, ou ao ápice, é a coragem de caminhar, bem ainda a liberdade de escolher e a persistência em se reinventar. O destino é obra em construção, e cada passo no cotidiano, no dizer de Fernando Sabino “é uma oportunidade de escrever literalmente uma nova página”.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, no Espírito Santo, 6-3-2026

Anteriores:
Carta de Valadão Gutierez 
Final das contas é isso: empurrar pra barriga o tempo que me resta 
Emanuelly 
Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-