domingo, 22 de março de 2026

Entre o escárnio e o descrédito: o que Folha e Estadão dizem sobre o STF

Felipe Vieira

Os editoriais publicados neste sábado por Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo não deixam margem para dúvida: há uma crise aberta de credibilidade no Supremo Tribunal Federal. E, mais do que isso, há um movimento claro da grande imprensa de romper o silêncio e tratar o problema como estrutural — não mais episódico. 

A Folha é mais direta, quase indignada. Em editorial recente, o jornal classificou a atuação de Gilmar Mendes como “um escárnio”, ao analisar decisões que beneficiaram o colega Dias Toffoli no contexto do caso Banco Master.

O texto vai além do caso concreto. Ao afirmar que “tudo se passou como se houvesse uma jogada combinada”, a Folha abandona qualquer cautela retórica e sugere algo ainda mais grave: a percepção de um comportamento corporativo dentro da Corte.

Já o Estadão segue outra linha — menos explosiva na forma, mas talvez mais profunda no diagnóstico.

Ao falar em “dimensão do descrédito do Supremo”, o jornal aponta que o problema já ultrapassou decisões específicas e passou a atingir a confiança institucional. O editorial destaca que há um “declínio consistente da confiança social no STF”, resultado de decisões que enfraquecem os mecanismos de controle e ampliam a percepção de blindagem interna.

Enquanto a Folha denuncia, o Estadão estrutura.

Enquanto a Folha acusa movimentos concretos de proteção entre ministros, o Estadão enquadra o fenômeno como uma erosão institucional mais ampla, com impacto direto na democracia.

Mas há um ponto de convergência evidente — e talvez o mais importante.

Ambos os jornais apontam para a mesma direção: o Supremo passou a ser percebido como um poder que opera sem limites claros.

Esse diagnóstico já havia sido explicitado pela própria Folha em outro editorial recente, ao afirmar que a Corte caminha para se tornar “imune a controle, responsabilização e limites”.

É aqui que o debate deixa de ser jurídico e passa a ser político.

O que está em jogo não é apenas a legalidade de decisões específicas, mas a legitimidade do próprio tribunal. A crítica que emerge dos dois jornais não é contra o STF como instituição — mas contra a forma como seus integrantes vêm exercendo o poder.

E isso muda tudo.

Porque quando dois dos principais jornais do país, com linhas editoriais distintas, convergem nesse diagnóstico, o sinal que se produz é claro: a crise deixou de ser de bastidor e passou a ser pública, visível e incontornável.

Há, no fundo, uma mudança de tom.

Durante anos, parte da imprensa tratou o Supremo como um poder de contenção necessário diante das crises políticas. Agora, começa a tratá-lo também como parte do problema.

A Folha faz isso pela via da denúncia direta. O Estadão, pela via da análise institucional.

Mas ambos chegam ao mesmo ponto: a percepção de que o STF precisa reencontrar limites.

Sem isso, o risco não é apenas de desgaste.

É de perda de autoridade.

E autoridade, no caso de uma Suprema Corte, não se sustenta na caneta.

Se sustenta na confiança.

Título, Imagem e Texto: Jornalista Felipe Vieira, Facebook, 21-3-2026, 5h39 

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