Aparecido Raimundo de Souza
EU NÃO ESCUTEI o primeiro choro,Não vi o primeiro cocozinho.
O primeiro xixizinho,
O primeiro banho,
A primeira troca de fralda,
A primeira mamada,
O primeiro arroto...
Eu não vi o primeiro bocejo,
O primeiro soninho, o primeiro sorriso enquanto dormia,
O primeiro medo quando alguma coisa a assustou no bercinho...
Da mesma forma, não vi, não ouvi, não captei
O primeiro suspiro,
O primeiro acordar com dores na “barriguinha”,
A primeira vez em que chupou o dedinho...
Não vi a primeira vez em que acordou com soluços
No meio da noite, querendo colo e atenção.
Também eu não estava lá para acalentá-la
E mergulhar meus dedos em seus cabelos ralinhos da cor do mel...
Eu não vi a primeira bagunça que fez em seus brinquedos,
O primeiro dentinho, o sangue escorrendo no vestidinho branco.
O primeiro passo que deu para reconhecer a casa.
Em seu primeiro caminhar engatinhando...
Eu não vi o primeiro tombo,
O primeiro machucado, a carinha espantada ao dar de frente com um gato
Que pulou do muro do vizinho para o nosso quintal.
Eu não vi o primeiro choro convulso,
Imaginando que a ferida aberta iria arder...
Eu não presenciei a primeira emoção quando se deparou com o sol,
Depois, com o vento sibilando e as estrelas reluzindo no firmamento,
Eu não capturei os primeiros pingos da chuva batendo em seu rosto.
No mesmo trilhar, não vi a primeira arte jogando no chão
Todas as coisas do seu guarda-roupas,
Não vi o primeiro fascínio ao descobrir os ruídos
Que vinham da rua movimentada.
Eu não vi, simplesmente não vi...
Afinal, não estava lá...
Não escutei a primeira palavra,
Nem sorri diante das primeiras palminhas...
Eu não vi o dia em que completou o primeiro mês de nascida.
E depois, quando fez o segundo, o terceiro, e a chegada da
adolescência.
Eu não participei da festa dos quinze anos, menos ainda pude
Enxugar as primeiras lágrimas
Que inundaram seus olhos, quando o namoradinho
Da casa em frente a trocou por outra.
Não vi. Não vi porque a minha presença estava ausente,
Divorciada de uma realidade que nunca assumi.
Eu não vi o meu distanciamento cada vez mais se multiplicando.
Eu não ouvi quando pela primeira vez me chamou de “papai”.
Eu não vi a primeira vez que ela disse “mamãe”,
Eu não vi os gritos do primeiro machucado.
E o receio bobo da mãe tentar colocar o remedinho trazido da farmácia.
Eu não vi a primeira vez em que balbuciou "estou 'dodói'".
Não vi quando acordou pela primeira vez no meio da noite
Indagando: “Onde está papai?”
Eu não vi, eu simplesmente não vi, nem poderia,
Não estava lá. Aliás, eu nunca estive lá...
Eu não participei do cotidiano, do dia a dia,
Eu não me fiz presente.
Não a levei no parquinho,
Não a acompanhei aos domingos na matinê do cinema,
Tampouco ao hospital.
Eu não vi o frio gélido em seus olhinhos ao se deparar com o pediatra
Vestido de branco e o estetoscópio em volta do pescoço.
Eu não vi, nem senti o peso da solidão me envolvendo,
Não percebi o silêncio sepulcral de estar distanciado, afastado...
Não me toquei ao bater de frente com a minha falta de tempo,
Da falta de juízo pela cabeça fraca, de ausência prolongada e sem
motivo...
Não vi o caminho da sua evolução cotidiana,
Não abri o primeiro caderno que trouxe da sala de aula.
Nunca fui à primeira escola, nem ouvi as primeiras palavras
pronunciadas.
A primeira professora nunca me viu na porta do estabelecimento indo
buscá-la.
Nem poderia, eu nunca estava lá, EU NUNCA ESTAVA LÁ...
Eu era um fantasma, um esquisito, um cadáver ambulante...
Ao menos um idiota para dizer... “Ei, minha princesa,
Eu sou seu pai, vim te buscar... vamos comprar um sorvete de
chocolate?”
Tudo porque, na verdade, embora ela fosse, sangue do meu sangue,
Carne da minha carne,
EU NUNCA EFETIVAMENTE ESTIVE LÁ,
NUNCA, NUNCA, NUNCA EXISTI DE VERDADE... NUNCA FUI “EU”.
Apenas me fiz uma sombra forte e pegajosa, me enrodilhei
Numa escuridão denegrida e profunda,
Uma deficiência pesada, um malogro.
Em outras palavras, uma inópia para lá de negra.
Por conta disso tudo, me comparo a uma cena vazia de um palco de teatro
Sem vida, representando o “nada”, para uma plateia vazia,
Uma peça sem nexo, onde só eu bato palmas que não produzem ecos.
Eu sempre busquei ser o “tudo” às avessas de um recuo inexplicável,
De uma disjunção egressiva, chafurdando numa inconsequência, fria,
Gélida, inóspita, desgastante, como uma espécie de
Ostracismo amaldiçoado e sem cura aparente.
Enfim, por todas essas ausências sem sentido prático,
Eu não a vi chegar à fase de moça e, lodo depois, a mulher adulta.
Pai ausente, torto de alma empenada, o coração aflito,
Me vejo como uma privação inexorável que hoje sei, aos 72,
(Quase às barbas dos 73), só me fez ou melhor,
Me transformou literalmente num animal sem eira nem beira,
Um zumbi desgraçado no qual me tornei uma espécie amaldiçoada de ser.
Aliás, eu sou ignóbil, sórdido, aviltante, crapuloso, hediondo e
desprezível.
Título e Texto: Aparecido
Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 10-3-2026
O que efetivamente determina o nosso destino?
Carta de Valadão Gutierez
Final das contas é isso: empurrar pra barriga o tempo que me resta
Emanuelly
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