domingo, 1 de março de 2026

[As danações de Carina] Monogamia*

Carina Bratt

NA PEQUENA e pacata cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, onde todos se conheciam pelo primeiro nome, havia uma praça em frente ao único mercado com bancos de madeira que guardavam segredos de gerações.

Não outra, senão a bucólica praça da Solidão. Ali, entre conversas ao entardecer, surgia sempre o tema da monogamia, como se fosse um velho relógio enferrujado que marcava o ritmo da vida, mesmo quando alguns já não acreditavam no seu tic-tac.

Dona Dipirona Monoidratada da Costa, uma simpática viúva há exatos noventa anos  bem vividos, apregoava que a monogamia se parecia a como plantar uma árvore: essa simples ação exige paciência, cuidado e a certeza de que as suas raízes não se dividirão.

Já o jovem Mateus Cefalexina com seus trinta anos e olhos curiosos, retrucava que o mundo moderno não cabia em molduras tão estreitas, que o amor verdadeiro podia ser múltiplo de três sem perder a intensidade.

O curioso nessa história meio às avessas, é que, apesar das opiniões divergentes, todos voltavam para suas casas com a mesma sensação: a monogamia não se firmava só no patamar de uma escolha íntima, mas também, e sobretudo, num espelho cristalino e sem manchas ou arranhões daquilo que cada um buscava segurança, liberdade, ou talvez apenas uma simples companhia para não se sentir só e abandonado.

No fundo, a única praça da bucólica Santo Eduardo do Amor Ciumento parecia rir da discussão. Afinal, os bancos de madeira já haviam testemunhado promessas eternas e também despedidas rápidas e rasteiras. Outras tantas violentas e até quase às raias da loucura. E talvez fosse esse o segredo: a monogamia não é uma regra soberana, tampouco universal, mas uma narrativa meio destrambelhada ao acaso que cada coração escreve à sua maneira.

Na cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, a monogamia se fartava ou se apresentava e por conta disso se via tratada como um contrato social tão sério quanto o de abrir uma conta corrente num banco: cheio de cláusulas invisíveis e taxas emocionais para lá de abusivas.

Seu Joaquim Dipirona, casado há 60 anos, dizia que a monogamia passava a sensação de ser como ter uma assinatura vitalícia de uma revista, às vezes você até pensa em cancelar, mas já se acostumou com as mesmas manchetes, ainda que mentirosas. Dona Lourdes Cavernosa, a sua fiel esposa, retrucava: ‘Pois é, só que a revista nunca muda de editor.’

Os jovens da praça, moças e rapazes as idades mais variadas, por sua vez, achavam graça. Para eles, a monogamia parecia aplicativo sem botão de ‘atualizar’. Você dá uma de pai de santo, ou de mãe, arranja um banquinho, senta a bunda e baixa a entidade uma vez e pronto, fica com a versão original até o fim, como uma pomba gira desmiolada. Alguns até sugeriam que deveria existir um ‘período de teste grátis’, com direito à devolução da grana sem juros.

No entanto, o mais curioso se consubstanciava em perceber que, apesar das piadas (algumas até de gosto duvidoso) apesar disso, ninguém realmente largava mão da tal da monogamia. Talvez porque, no fundo, bem lá no mais escondido, ela fosse como aquele prato de macarrão com feijão e rodelas de linguiça calabresa cortada em pedacinhos: pode não ser gourmet, mas sempre salva a teoria infame da fome perniciosa quando ataca de repente, uma barriga faminta.

Entre mortos e feridos, entre risadas e comparações absurdas, a cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento bem com a sua praça seguiam fiel ao seu costume. Afinal, a tal da monogamia pode até ser antiquada, estúpida, superada, fora de modo ou de propósito, mas cá entre nós, continua sendo o único contrato que ainda se assina sem a presença de um advogado metido a doutor, e duas ou três testemunhas invisíveis chamadas de ‘coração’ ‘fé’ e ‘paciência’.

Explicação necessária:

Monogamia: é uma forma de relacionamento baseada no compromisso sexual e afetivo entre duas pessoas por vez. Aliás, um termo ou melhor, uma sacanagem bastante usada pelos nossos casais dessa era totalmente às avessas.

Título e Texto: Carina Bratt, de Colatina, no Espírito Santo, 1-3-2026

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