Carina Bratt
NA PEQUENA e pacata cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, onde todos se conheciam pelo primeiro nome, havia uma praça em frente ao único mercado com bancos de madeira que guardavam segredos de gerações.
Não outra, senão a bucólica praça da Solidão.
Ali, entre conversas ao entardecer, surgia sempre o tema da monogamia, como se
fosse um velho relógio enferrujado que marcava o ritmo da vida, mesmo quando
alguns já não acreditavam no seu tic-tac.
Dona Dipirona Monoidratada da Costa, uma
simpática viúva há exatos noventa anos
bem vividos, apregoava que a monogamia se parecia a como plantar uma
árvore: essa simples ação exige paciência, cuidado e a certeza de que as suas
raízes não se dividirão.
Já o jovem Mateus Cefalexina com seus trinta
anos e olhos curiosos, retrucava que o mundo moderno não cabia em molduras tão
estreitas, que o amor verdadeiro podia ser múltiplo de três sem perder a
intensidade.
O curioso nessa história meio às avessas, é
que, apesar das opiniões divergentes, todos voltavam para suas casas com a
mesma sensação: a monogamia não se firmava só no patamar de uma escolha íntima,
mas também, e sobretudo, num espelho cristalino e sem manchas ou arranhões
daquilo que cada um buscava segurança, liberdade, ou talvez apenas uma simples
companhia para não se sentir só e abandonado.
No fundo, a única praça da bucólica Santo
Eduardo do Amor Ciumento parecia rir da discussão. Afinal, os bancos de madeira
já haviam testemunhado promessas eternas e também despedidas rápidas e
rasteiras. Outras tantas violentas e até quase às raias da loucura. E talvez
fosse esse o segredo: a monogamia não é uma regra soberana, tampouco universal,
mas uma narrativa meio destrambelhada ao acaso que cada coração escreve à sua
maneira.
Na cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, a monogamia se fartava ou se apresentava e por conta disso se via tratada como um contrato social tão sério quanto o de abrir uma conta corrente num banco: cheio de cláusulas invisíveis e taxas emocionais para lá de abusivas.
Seu Joaquim Dipirona, casado há 60 anos,
dizia que a monogamia passava a sensação de ser como ter uma assinatura
vitalícia de uma revista, às vezes você até pensa em cancelar, mas já se
acostumou com as mesmas manchetes, ainda que mentirosas. Dona Lourdes
Cavernosa, a sua fiel esposa, retrucava: ‘Pois é, só que a revista nunca muda
de editor.’
Os jovens da praça, moças e rapazes as idades
mais variadas, por sua vez, achavam graça. Para eles, a monogamia parecia
aplicativo sem botão de ‘atualizar’. Você dá uma de pai de santo, ou de mãe,
arranja um banquinho, senta a bunda e baixa a entidade uma vez e pronto, fica
com a versão original até o fim, como uma pomba gira desmiolada. Alguns até
sugeriam que deveria existir um ‘período de teste grátis’, com direito à
devolução da grana sem juros.
No entanto, o mais curioso se consubstanciava
em perceber que, apesar das piadas (algumas até de gosto duvidoso) apesar
disso, ninguém realmente largava mão da tal da monogamia. Talvez porque, no
fundo, bem lá no mais escondido, ela fosse como aquele prato de macarrão com
feijão e rodelas de linguiça calabresa cortada em pedacinhos: pode não ser
gourmet, mas sempre salva a teoria infame da fome perniciosa quando ataca de
repente, uma barriga faminta.
Entre mortos e feridos, entre risadas e
comparações absurdas, a cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento bem com a sua
praça seguiam fiel ao seu costume. Afinal, a tal da monogamia pode até ser
antiquada, estúpida, superada, fora de modo ou de propósito, mas cá entre nós,
continua sendo o único contrato que ainda se assina sem a presença de um
advogado metido a doutor, e duas ou três testemunhas invisíveis chamadas de
‘coração’ ‘fé’ e ‘paciência’.
Explicação necessária:
* Monogamia: é uma forma de relacionamento
baseada no compromisso sexual e afetivo entre duas pessoas por vez. Aliás, um
termo ou melhor, uma sacanagem bastante usada pelos nossos casais dessa era
totalmente às avessas.
Título e Texto: Carina Bratt, de Colatina,
no Espírito Santo, 1-3-2026
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